Médicos em espaço destinado ao tratamento de pacientes com Covid-19 em Manaus: cidade enfrentou o colapso do sistema de saúde e pode estar mais perto de alcançar a imunidade de rebanho.| Foto: MICHAEL DANTAS/AFP
Ouça este conteúdo

Sem vacina e sem um tratamento comprovadamente eficaz contra a Covid-19, uma forma de neutralizar os efeitos da doença é atingir a chamada imunidade de rebanho (ou imunidade de grupo). Esse fenômeno acontece quando um percentual considerável da população já foi exposto ao vírus e criou anticorpos contra a doença, o que brecaria novos contágios. No caso do coronavírus, cientistas estimam que essa imunidade de rebanho seja alcançada quando mais de 60% da população tiver sido exposta ao vírus. Mas um modelo matemático, divulgado em fins de junho, baixou essa linha para 43%. E, se esse modelo se confirmar, São Paulo e Manaus podem estar próximas de atingir esse índice.

CARREGANDO :)

A modelagem apresentada no estudo conduzido por pesquisadores das universidades de Estocolmo (Suécia) e Nottingham (Reino Unido) aponta que o nível de imunidade de rebanho induzido pela Covid-19 pode ser de cerca de 43%, desde que levada em consideração a heterogeneidade da população.

Os cientistas usaram recortes por faixa etária e média de interações sociais. Isso quer dizer que eles mostraram que, ao considerar fatores diversos da população, há um impacto significativo em relação à imunidade induzida pela doença, porque a proporção de pessoas infectadas em grupos com taxas maiores de contato é superior a registrada em grupos com baixas taxas de contato.

Publicidade

Quais indicadores mostram que a imunidade de rebanho pode estar perto

O biólogo Fernando Reinach, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, levantou a bola de que, analisando esse modelo, cidades como Manaus e São Paulo podem ter ou estarem perto de atingir a imunidade de rebanho. Ele observou que em, São Paulo, as regiões mais pobres e periféricas – onde há mais possibilidade de a doença se disseminar – já tinham alcançado um índice de 16% de imunizados em meados de junho.

Em Manaus, o número de casos e mortes causados pela doença está em queda, mas a cidade enfrentou momentos difíceis no início da pandemia, com o colapso do sistema de saúde e a necessidade de enterros em valas coletivas, dado o elevado número de mortes que ocorreram simultaneamente.

Os pesquisadores das universidades de Estocolmo e Nottingham já alertavam que, embora o modelo deles levasse em conta cortes etários e níveis de atividade social, havia outras heterogeneidades que poderiam interferir no índice de imunização.

Entre os exemplos citados estavam o aumento da disseminação dentro de núcleos familiares, nos locais de trabalho e também ligadas a aspectos geográficos, como a localização em grandes centros urbanos ou regiões metropolitanas. Esses pontos podem ajudar a entender em que estágio a pandemia está em Manaus e São Paulo e como essas cidades chegaram lá, apesar de suas escolhas de ações para manter o distanciamento social e posterior retomada das atividades econômicas.

Publicidade
Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

Quais foram as estratégias adotadas pelas cidades – e seus estados

São Paulo e Manaus foram os primeiros epicentros da Covid-19 no Brasil. A primeira, por ser a maior cidade do país, lidera até hoje alguns rankings de novos casos e óbitos. Já a capital amazonense acabou se tornando o primeiro lugar que precisou lidar com o caos causado pela Covid.

Para muitos especialistas, a situação caótica enfrentada por Manaus foi fruto de vários fatores: faltaram testes, o clima chuvoso acabou incentivando aglomerações e as pessoas não aderiram às medidas de distanciamento social, e continuaram saindo às ruas. A pesquisa de prevalência da doença no Brasil, desenvolvida pela Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) e acompanhada pelo Ministério da Saúde, apontou que em maio a prevalência da doença era de 12,7% passando a 14,6% em junho. O sistema de saúde local entrou em colapso entre abril e maio, por causa do alto número de pessoas infectadas pela doença e que não tinham onde se tratar.

A partir de 1.º de junho, o governo do Amazonas liberou a retomada das atividades em várias partes do estado, inclusive na capital. Já nessa primeira fase foram liberados o funcionamento de templos e igrejas, comércio em geral, atendimento presencial médico e odontológico e outros. Desde o dia 8 de julho, a cidade está testando os mais de 11 mil professores que atuam na rede municipal. A medida faz parte do protocolo para a retomada das aulas presenciais, mas a data ainda não está definida.

Em São Paulo, as ações adotadas pelo estado e capital foram comuns desde o princípio do enfrentamento à pandemia. Ambos tiveram dificuldades para manter os índices de isolamento social acima de 50%, prorrogaram a quarentena por diversas vezes (sem decretar um lockdown) e tomaram medidas como a antecipação de feriados, numa tentativa de fazer com que menos pessoas circulassem. Não deram muito resultado.

Publicidade

Na capital, foram montadas estruturas para apoio às redes de saúde, como hospitais de campanha que atendiam exclusivamente casos da Covid. Com o passar das semanas e a diminuição de casos, alguns já foram até desativados.

Desde o início de junho, o estado iniciou seu processo gradual de retomada das atividades e a capital sempre esteve em posição de poder reabrir vários pontos – já começou na bandeira laranja, que permitia a retomada de atividades imobiliárias, concessionárias, escritórios, comércio e shopping centers, apesar de haver restrições de fluxo e horário. Na semana passada, restaurantes, bares e salões de beleza foram autorizados a retomarem as atividades, e nesta semana, foi a vez de parques reabrirem pela capital.

Quadro de casos e mortes

Atualmente, os estados de São Paulo e Amazonas possuem indicadores semelhantes de isolamento social. De acordo com a plataforma inLoco, o índice em São Paulo é de 47,5%, enquanto no Amazonas é de 47%. Isso acontece porque nos dois estados – e consequentemente nas capitais – já há um movimento de retomada de atividades em diversos setores da economia, iniciada ainda em junho.

Esse movimento acaba por fazer com que o número de casos e mortes pela Covid-19 possa crescer novamente. Dados do Ministério da Saúde mostram que a região Norte havia registrado uma redução de 15% do número de novos casos e de 5% na quantidade de óbitos por coronavírus entre as semanas epidemiológicas 27 e 26. Porém, o Amazonas registrou aumento de 13% em relação aos casos e 20% das mortes no período. A Saúde identificou uma concentração em algumas capitais, entre elas, Manaus – foram 1.937 novos casos e 75 mortes entre essas semanas epidemiológicas.

No Sudeste, houve aumento de 1% de novas confirmações da doença e redução de 1% nos óbitos nesse mesmo período. O estado de São Paulo apresentou redução de 6% na quantidade de casos e 2% das mortes. A capital, ainda assim, segue liderando em número de novos casos (15.003) e mortes (615), na comparação entre as duas semanas.

Publicidade
Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]