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Guillermo Lasso em cerimônia de posse da presidência do Equador, em 24 de maio de 2021. Presidente Jair Bolsonaro foi um dos chefes de Estado que prestigiou a solenidade| Foto: Reprodução/Twitter/@LassoGuillermo

O Brasil e o presidente Jair Bolsonaro tem muito a ganhar com a eleição do presidente do Equador, Guillermo Lasso. A vitória de um candidato direitista nas urnas equatorianas pode fortalecer não apenas as relações comerciais entre ambos os países, mas, também, a direita na América do Sul. Não à toa, Bolsonaro viajou a Quito, onde participou da solenidade de posse de Lasso.

A viagem fez parte também da estratégia do presidente da República de impulsionar a relação entre os países e o Prosul (Foro para o Progresso e Desenvolvimento do Sul). O fórum foi criado em março de 2019 para o desenvolvimento da América do Sul. O Prosul é visto como uma forma de países da região isolarem a Venezuela em contraponto à Unasul (União das Nações Sul-americanas).

Criada em 2008, quando a maioria dos países da região era governada por presidentes de centro e centro-esquerda, a Unasul foi fundada com o objetivo de aprofundar a integração regional, mas sem a influência dos Estados Unidos. Ainda em 2019, depois de tomar posse, Bolsonaro formalizou a saída do Brasil do grupo.

O que o Brasil ganha com a posse de Lasso

O Equador não é um parceiro comercial muito relevante para o Brasil. Em 2020, o país representou apenas 0,3% das nossas exportações, tendo ficado em 48º como o que mais comprou os produtos e serviços brasileiros. Já a participação nas importações brasileiras foi de 0,06%, sendo o 66º nesse quesito.

Apesar disso, interlocutores do governo afirmam à Gazeta do Povo que a eleição de Lasso pode contribuir com a ampliação das relações comerciais. "Sempre tem espaço para isso. E o presidente Guillermo tem uma política externa e um prisma eminentemente comercial", analisa um interlocutor do Palácio do Planalto.

O fato de o Brasil ser a principal economia da América Latina ajuda a despertar o interesse comercial de Lasso. "Ele tem uma visão quase empresarial de país e demonstra não querer se atar a compromissos com países que, segundo ele, não trariam vantagens", diz um assessor palaciano.

"Pelo que entendi, ele quer, se possível, buscar acordos com os Estados Unidos, a China, Coreia do Sul, o Brasil, a Índia, entre outros. Ele tem uma visão muito pragmática na relação comercial", acrescenta a fonte.

O que Bolsonaro ganha com a vitória de Lasso

Além da perspectiva de estreitar as relações comerciais, o governo entende que pode ganhar uma aliado geopolítico estratégico, até na área ambiental. "Temos interesses comuns sobre a Amazônia, afinal, o Equador tem sua fatia amazônica", justifica uma das fontes. Um dos maiores argumentos do Brasil sobre o tema é a defesa da soberania nacional brasileira sobre a floresta amazônica.

O governo acredita que será capaz de trabalhar de forma coordenada com o Equador na defesa pela democracia e livre comércio, sobretudo na Organização dos Estados Americanos (OEA). Para os governistas, há um campo muito grande para ações coordenadas entre os governos Lasso e Bolsonaro. "Vejo muito mais convergências do que eventuais divergências", pondera um interlocutor do Planalto.

Governistas também entendem que ter mais um presidente de direita na América do Sul ajuda a reequilibrar o "quadro" político no continente e, portanto, pode gerar bônus políticos para Bolsonaro. "Ter um país próximo na vizinhança que tem uma visão de mundo como a nossa é importante e positivo", diz um assessor.

Um dos aspectos em que a eleição de Lasso pode impactar positivamente sobre o governo federal é no discurso econômico. "Talvez a própria equipe econômica possa se utilizar da retórica do novo governo equatoriano para promover o livre comércio", defende o analista político Nicholas Borges, da BMJ Consultores, que atua com foco na América Latina.

O desejo de Lasso em tirar o viés ideológico da economia e promover não mais uma economia fechada, mas, sim, a abertura de mercado, é similar ao discurso da equipe econômica de Bolsonaro. É aí que o governo pode tirar frutos para as eleições de 2022, pondera Borges. "Bolsonaro ganharia mais apoio para promover a abertura do mercado através da renegociação e realização de novos acordos econômicos com os demais países", avalia.

O que o Prosul ganha com a eleição de Lasso

A eleição de Guillermo Lasso chega sete meses após a eleição do presidente da Bolívia, Luis Arce. Em outubro de 2020, a vitória do aliado do ex-presidente Evo Morales acendeu o sinal amarelo em relação ao avanço da esquerda no continente. Um ano antes, a Argentina havia elegido Alberto Fernández seu novo presidente.

É bem verdade que o avanço do progressismo na Argentina e na Bolívia veio intercalado com a vitória do então candidato de centro direita Luis Alberto Lacalle Pou no Uruguai, em novembro de 2019. Ainda assim, a eleição de Arce gerou incômodo ao governo Bolsonaro.

Muitos acreditaram que governos de direita acabariam se multiplicando na América do Sul com a vitória de Bolsonaro em 2018, e não foi isso o que aconteceu. Por isso, a vitória de Lasso é bem vista pelo presidente do Brasil sob o ponto de vista político-ideológico.

O analista político Nicholas Borges, da BMJ Consultores, acredita que até novembro deste ano Bolsonaro, Lasso e os presidentes do Chile, Sebastián Piñera, e da Colômbia, Iván Duque Márquez, se apoiem no Prosul com foco em manter a estabilidade da direita no continente.

A tendência é que o Prosul mantenha seu direcionamento acerca de medidas conjuntas em relação à pandemia, mas seja um fórum importante para o aspecto político-ideológico dos representantes. "Eles precisam desse consenso para não ter dissenso no âmbito interno e se apoiar como a América Latina se porta para estabelecer futuro mais estável para a direita em cada país", avalia Borges.

O que de fato o Prosul pode entregar

O Prosul pode ser um fórum relevante sobre o aspecto ideológico, mas pouco pode se esperar dele quanto a aspectos pragmáticos. Em 2020, com pouco mais de um ano desde a fundação, uma das poucas medidas efetivas tomadas foi o compartilhamento de informações de prevenção, facilitação do retorno de cidadãos de seus países e compras conjuntas de insumos médicos para enfrentar a Covid-19.

Na reunião de março de 2021, os membros do Prosul pediram a colaboração do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) com créditos acessíveis e taxas favoráveis em uma reunião de pouco efeito prático. Para o analista Nicholas Borges, o grupo tem ótimas intenções em relação à cooperação internacional, mas ainda é muito mais político do que pragmático.

"O Prosul tenta deixar para trás esse passado progressista [da Unasul] para dar novo ar. Tanto que, em questões econômicas, é um bloco político que tenta dinamizar a economia da América do Sul com uma visão multidimensional, um fortalecimento das questões de mercado livre, abertura econômica, mas ainda é pouco pragmático", analisa.

E mesmo o alcance político-partidário do Prosul pode ser esvaziado até 2022. Em novembro de 2021 ocorrem as eleições presidenciais do Chile. Atualmente, Piñera não aparece nem entre os três melhores colocados. O favorito é o pré-candidato comunista Daniel Jadue, que tem 20% das intenções de voto, segundo a pesquisa Plaza Pública.

Em 2022, não apenas os brasileiros irão às urnas, como também os colombianos. Bolsonaro aparece atrás nas mais diferentes pesquisas contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O mesmo ocorre com Duque na Colômbia, que aparece atrás do líder das pesquisas Gustavo Petro, candidato de esquerda que fez parte da guerrilha.

Esvaziamento do Prosul pode fortalecer Mercosul

A perspectiva de que o Prosul pode ter seus efeitos político-ideológicos esvaziados a depender dos resultados das eleições no Brasil, no Chile e na Colômbia não incomoda o governo federal. A leitura feita por alguns dos interlocutores ouvidos é que o fórum não é um espaço ideológico, como a Unasul.

Os que desdenham do Prosul enquanto plataforma política entendem que o grupo é uma união informal que, na verdade, busca gerar benefícios para os países, e não promover discursos ideológicos e políticos. Inclusive, um dos assessores até entende que, sob esse aspecto, a visão do governo coincide com a de Guillermo Lasso.

"O Prosul não é sequer um agrupamento rígido com políticas antiamericanas, nacionalistas, pelo contrário. É uma convergência de interesses de países que têm visões de mundo próximas ao livre mercado, favorável à iniciativa privada, favoráveis a uma visão de mundo diferente de alguns outros países da região", sustenta a fonte.

Mesmo diante de uma possibilidade de o Prosul ser esvaziado, ainda acredita-se no governo que o fórum mantenha sua importância. Afinal, entende-se que não seja um grupo com regras específicas para fins de emissão de comunicados conjuntos.

De toda a forma, com enfraquecimento ou não do Prosul, uma leitura feita no governo é que o Brasil pode aproveitar as convergências com o Equador e procurar ampliar os acordos entre o Mercosul e o governo de Lasso. "Queremos transformar em algo mais aberto, arejado, competitivo, e isso vai na linha do Lasso", pondera um assessor do Planalto.

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