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Lula em cúpula sobre meio ambiente na França
Presidente Lula durante a cerimônia de encerramento de cúpula que visa destinar recursos para países pobres cuidarem do meio ambiente. COP30 reforçará esse discurso.| Foto: EFE

Em tempo recorde, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresentou a candidatura e anunciou a confirmação de Belém para sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), agendada para novembro de 2025. Com o evento, Lula afirmou também que serão feitos investimentos bilionários para a conferência. O petista pretender criar uma atmosfera de final de Copa do Mundo de futebol, só que dessa vez na temática ambiental.

As primeiras providências sugerem, contudo, que o maior interesse do chefe do Executivo está na implementação de ações sociais no Pará e em barganhar a vinda de recursos internacionais para programas locais, de olho no calendário eleitoral - o evento em 2025 será às vésperas do pleito presidencial de 2026.

Além de fortalecer aliados locais, representados pela família Barbalho, que governa o estado, Lula busca deixar ali um legado de grandes obras de infraestrutura e obter a mais ampla exposição midiática possível. Segundo analistas e políticos consultados pela Gazeta do Povo, o plano do presidente para a COP30 também inclui posicionar-se como liderança engajada na causa planetária, pressionando países ricos a contribuírem com recursos vultosos para o Fundo Amazônia e a financiarem projetos não só ecológico, mas também voltados ao bem-estar comunitário. A candidatura de Belém foi apresentada logo após a posse de Lula em janeiro e confirmada em maio pela ONU.

Ao visitar Abaetetuba (PA), em 17 de junho, durante a entrega de unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, Lula afirmou que o Brasil irá mostrar aos 50 mil visitantes estrangeiros esperados para a COP30 “como tratar as pessoas com respeito e decência”. O discurso revelou também sua obsessão em tornar a Amazônia o palco do debate sobre as medidas de combate ao aquecimento global, como sendo a parte mais visível da estratégia para acessar aportes financeiros das nações desenvolvidas.

Ele também poderá usar a cúpula para explicitar diferenças ideológicas com o agronegócio. Ao buscar tais objetivos, Lula espera apresentar entrega marcante e incontestável às vésperas do fim do mandato. “Não há nada no Brasil mais falado no mundo do que a Amazônia”, disse.

Anúncio do encontro de líderes globais veio acompanhado da liberação de bilhões do BNDES

Considerado o maior e mais importante encontro mundial relacionado ao clima, a COP30 foi anunciada por Lula e pelo governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), juntamente com um pacote de investimentos que inclui a cessão do Aeroporto Protásio de Oliveira para a implantação da sede do evento e obras no Porto Futuro II, espaço de cultura e turismo de negócios.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por sua vez, já anunciou a liberação de R$ 5 bilhões para apoiar a realização da conferência, o que inclui ações na “descarbonização” do transporte público de Belém e implementação de redes de saneamento básico.

Outra ação na preparação para a COP 30 é a dragagem do Porto de Belém, com R$ 60 milhões da União para dar acesso a navios de cruzeiros e, assim, aumentar a capacidade hoteleira da capital.

Os planos de infraestrutura servirão, segundo o Planalto, para que a capital do Pará também se alinhe às metas de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas: Agenda 2030 e à Nova Agenda Urbana. Os feitos serão apresentados na COP30, que terá a participação de 198 países, sendo os 193 membros da ONU mais cinco territórios.

Afinado ao tom universalista dado pela organização e pelo interlocutor dos Estados Unidos para a pauta climática, John Kerry, Lula vê na cúpula de líderes globais em Belém também a chance para “conscientizar os brasileiros”. “Possivelmente, teremos que ensinar ao cidadão que uma árvore que tem 300 anos na Amazônia não é dele. Aquela árvore pertence à humanidade”, disse na última visita ao Pará.

Em 13 de junho, a Câmara dos Deputados anunciou o lançamento da Frente Parlamentar para o Fortalecimento da COP 30 no Brasil, liderada pela deputada federal Elcione Barbalho (MDB-PA), que é mãe do governador do Pará. O objetivo do grupo é garantir apoio necessário para a organização do evento, incluindo investimentos em infraestrutura, logística e segurança.

Curiosamente, o Pará é o campeão de desmatamento no país, conforme o Relatório Anual de Desmatamento (RAD-2022) divulgado pelo MapBiomas. Os dados revelam que o estado responde por 22,2% de todo o desmatamento nacional, seguido pelo Amazonas com 13,3%.

Em 22 de junho, em Paris, falando a 20 mil pessoas no evento Power Our Planet (Poder ao Nosso Planeta), à frente da Torre Eiffel, Lula cobrou diretamente as grandes potências a investirem na preservação da Amazônia. “Quem poluiu o planeta nos últimos 200 anos foram aqueles que fizeram a Revolução Industrial. E, por isso, têm que pagar a dívida histórica que têm com a Terra", discursou. No dia seguinte, voltou a ser duro ao falar no encontro com dezenas de chefes de Estado, na capital francesa, novamente exigindo contrapartidas dos países mais desenvolvidos.

Políticos avaliam evento global como encenação para ocultar reais interesses de países ricos

Aldo Rebelo (PDT), ex-presidente da Câmara e ex-ministro da Defesa, da Ciência e Tecnologia, do Esporte e das Relações Institucionais nos governos de Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff, expressa oposição à realização da COP30 em Belém. Durante recente entrevista à rádio Jovem Pan, ele afirmou que a agenda do evento “não reflete os interesses do país”.

Segundo Rebelo, a Amazônia tem sido objeto central dos debates nas últimas conferências e do diálogo Brasil-Estados Unidos por razões que não são coincidência. “Como detentora da maior fronteira mineral, a maior fonte de biodiversidade, abrigando 30% das espécies vivas, e situada no país de maior potencial agrícola, a floresta está sendo visada para atender aos interesses das nações desenvolvidas”, disse.

O ex-deputado explica que, sob o pretexto de proteção, a Amazônia é tida como fator determinante para as metas globais de controle das mudanças climáticas. No entanto, os benefícios gerados pela biodiversidade, tais como fontes para novos cosméticos, alimentos, combustíveis e remédios, estão sendo explorados por empresas estrangeiras, que fizeram sequenciamentos genéticos sem identificar a origem e sem compensar os reais donos da fauna e da flora. Rebelo ressaltou que essa questão poderá tornar a COP de 2025 “um grande desafio diplomático para o Brasil”. Além disso, ele criticou a atuação sem transparência de grupos internacionais em solo amazônico.

O senador Plínio Valério, presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das ONGs, tem visão contundente sobre elas, considerando-as um “poder paralelo” na Amazônia. Em relação à COP30, ele expressou sua crença de que tudo será “apenas teatro”, sem trazer benefícios concretos para a floresta. Valério prevê resultados superficiais, ineficazes e repetitivos, semelhantes às conferências anteriores. Ele critica o fato de tais encontros serem liderados por “participantes ricos que ditam regras e cuja hipocrisia vai além da estética das reuniões festivas, alcançando resultados objetivos”.

Plínio Valério destaca que as promessas ambiciosas de criar um fundo para a preservação e enviar dinheiro para o Brasil cuidar da maior selva tropical do planeta, sempre apresentadas nas conferências, são frequentemente descumpridas pelos próprios proponentes. “Quando os visitantes ilustres da COP30 deixarem o país, depois de nos rotularem como grandes vilões, sugerirão soluções impossíveis e nos cobrarão a responsabilidade de cuidar do patrimônio sem apresentar meios para isso”, opinou.

Especialistas apontam oportunidades para atrair investimento estrangeiro

Gustavo Bernard, analista sênior da Dominium Consultoria, afirma que os temas globais de maior relevância hoje são energia renovável, transição energética e descarbonização. Por isso, o governo brasileiro tem abordado tais assuntos em todas as suas discussões internacionais, estabelecendo uma conexão direta com a proteção da Amazônia.

Bernard avalia que, considerando esse contexto, a capital paraense se destaca como vitrine para o projeto diplomático do governo devido à sua localização na selva tropical. Por outro lado, a questão energética também é de suma importância para o governo do Pará, que busca atrair mais investimentos nessa área. “Essa conjunção de fatores torna Belém plataforma estratégica”, resumiu.

O professor de Relações Governamentais do Ibmec-DF, Arthur Wittenberg, também acredita que a realização da COP30 pode trazer benefícios concretos se os participantes adquirirem uma percepção mais realista da biodiversidade e dos recursos naturais do país. “A presença de atores internacionais bem-informados pode contribuir para o debate equilibrado sobre o meio ambiente”, disse.

Wittenberg lembra que o Brasil enfrenta desafios graves em relação ao desmatamento e à conservação da natureza. Nesse sentido, a COP30 no Pará pode aumentar a atenção às políticas públicas em prol da biodiversidade e conferir-lhes maior legitimidade.

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