Lula deixou de ser inelegível com a anulação das condenações na Lava Jato. Para Haddad, a candidatura dele em 2022 é natural.| Foto: Fabrice Coffrini/AFP
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A decisão que anula as condenações da Lava Jato sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rearranja o cenário eleitoral para 2022. Com a decisão, tomada nesta segunda-feira (8) pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), o petista deixa de ser inelegível e se credencia para concorrer novamente ao Palácio do Planalto, se assim desejar. "A justiça é um fato a celebrar. A candidatura de Lula é uma decorrência natural", disse o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência em 2018, à Folha de São Paulo.

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Lula é apontado, em pesquisas realizadas por diferentes institutos de opinião, como o mais competitivo adversário do presidente Jair Bolsonaro para as eleições de 2022. Levantamento do Paraná Pesquisas divulgado na sexta-feira (5) indicou o petista com 18%, no único cenário em que é considerado. É o melhor desempenho de todos os candidatos incluídos, exceto Bolsonaro, que lidera em todas as simulações. Veiculada dois dias depois, pesquisa do instituto Ipec mostrou que Lula tem uma intenção de voto superior à de Bolsonaro (50% a 38%) e uma rejeição menor que a do atual presidente (44% a 56%).

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM), citado como um possível presidenciável na eleição de 2022, lamentou em suas redes sociais a decisão de Fachin. "Os extremos comemoram, pois se nutrem um do outro. A ruptura da liga social brasileira avança", escreveu.

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À Gazeta do Povo, porém, o ex-titular da Saúde disse que a notícia desta segunda-feira (8) pode fortalecer o centro — campo do qual ele, Mandetta, faz parte. "Acho que agora o cenário fica mais claro, os caminhos da polarização ficam mais abertos. E se esse rompimento em um primeiro momento anima os dois polos, existe um grande grupo que não quer mais ódio, que não quer mais tensionamento. Os extremos vão se esgotar", afirmou.

Já o deputado federal Márcio Labre (PSL-RJ), da base bolsonarista, disse considerar precipitado avaliar se a eventual chegada de Lula na corrida de 2022 facilita ou dificulta os caminhos para a reeleição de Bolsonaro. Mas, segundo o parlamentar, Lula é um adversário mais fácil do que seria Fernando Haddad, que enfrentou Bolsonaro em 2018 e que foi considerado para novamente ir à disputa no próximo período eleitoral. "Ele seria um adversário mais fácil porque já partiria com uma grande rejeição", citou.

"Terceira via" contra os "extremos" de Lula e Bolsonaro

Com o retorno de Lula ao cenário político e uma eventual candidatura, o cenário de uma frente ampla que una correntes de centro, centro-direita e esquerda contra Bolsonaro se torna mais improvável. O panorama da grande coalizão vinha sendo defendido por diferentes correntes políticas e poderia reunir partidos como MDB, DEM, PSDB, PDT, Cidadania, Rede e até mesmo o PT. Nomes como os de Ciro Gomes (PDT), Flávio Dino (PCdoB), Luciano Huck (sem partido) e outros poderiam ceder para formar uma agenda conjunta com o objetivo de barrar o bolsonarismo.

A derrubada dos impedimentos judiciais de Lula, porém, deixam quase impossível que o PT não tenha seu candidato próprio. O ex-ministro Ciro Gomes fez pesadas críticas ao partido e ao ex-presidente em entrevista ao UOL publicada nesta segunda, antes da divulgação da decisão de Fachin: "Para derrotar o [presidente Jair] Bolsonaro e construir uma saída para o Brasil, é razoável que a saída para o Brasil seja voltar o Lula e o petismo ao poder? É isso, a volta ao passado, de quem tendo tido a oportunidade de ouro de governar por 14 anos, com popularidade que alcançou 86%, não ter promovido uma única mudança institucional na vida brasileira?", questionou.

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Ainda que sem o PT, o Brasil deve ter uma "terceira via" nas eleições de 2022, segundo Márcio Labre. "É uma ideia que continua firme e forte. Eles virão com esse discurso de 'nem Lula, nem Bolsonaro'. Nomes como Huck, [Rodrigo] Maia, [Sergio] Moro. Vão querer construir uma narrativa neste sentido", disse.

Nas eleições de 2018, quando o favoritismo de Bolsonaro e do PT — primeiro com Lula, depois com Haddad — ficou evidente, o discurso de "evitar os extremos" foi adotado por candidaturas como as de Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Marina Silva (Rede). Sem sucesso: no primeiro turno, Bolsonaro e Haddad somaram mais de 75% dos votos válidos.

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Mandetta: "Temos que mostrar projetos para a sociedade"

Para o ex-ministro Mandetta, o desafio dos representantes do centro é convencer a população de que a polarização não é benéfica para a sociedade. "De um lado, temos o 'vote em mim, senão o Bolsonaro fica'. Do outro, o 'vote em mim, senão o PT volta'. Temos que nos colocar como uma alternativa a esses extremos, temos que mostrar bons projetos para a sociedade", disse.

Segundo o ex-ministro, PT e Bolsonaro governaram com agendas que "não eram as prioritárias" e "enfiaram isso goela abaixo" da população. "Ninguém colocou goela abaixo da população a escola em tempo integral, a saúde de qualidade, um país menos complexo em termos tributários… só ideologias que foram indigestas e nos causaram essa ruptura. Agora o Brasil fica discutindo essa ideologia e não anda na direção do que o cidadão precisa", acrescentou.

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Mandetta foi deputado federal pelo Mato Grosso do Sul por um mandato, entre 2011 e 2019, e ministro da Saúde do início do governo Bolsonaro até o agravamento da fase inicial da pandemia de coronavírus. Ele deixou o governo após não se entender com o presidente da República em relação aos métodos de combate à Covid-19 — enquanto o ministro defendia medidas restritivas de circulação, Bolsonaro pregava o "isolamento vertical" e a concessão de medicamentos como a cloroquina.

Desde sua saída do ministério, Mandetta se tornou crítico do governo e também um alvo da "tropa de choque" bolsonarista nas redes sociais.