Ex-presidente Lula durante a viagem à Europa, onde falou sobre Ortega.| Foto: Ricardo Stuckert/PT
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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do PT resolveram recuar nas articulações políticas pelas próximas semanas no intuito de mensurar o tamanho do desgaste das recentes declarações do líder petista envolvendo ditaduras de esquerda. Integrantes do PT admitem que principalmente as declarações de Lula sobre a ditadura nicaraguense de Daniel Ortega repercutiram mal entre políticos e partidos aliados; e que será necessário reavaliar as posições para evitar novos desgastes. Além de Ortega, Lula e outros petistas recentemente também deram outras declarações apoiando ditaduras de esquerda.

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Em entrevista ao jornal espanhol El País, o ex-presidente comparou o tempo em que o ditador Daniel Ortega e a chanceler alemã Angela Merkel estão no poder. “Temos que defender a autodeterminação dos povos. Sabe, eu não posso ficar torcendo. Por que que a Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não?”, disse Lula.

Ortega está no poder há 14 anos. O resultado das últimas eleições na Nicarágua foi contestado por observadores e políticos internacionais, pois o pleito foi realizado sem a presença de opositores de Ortega, que foram presos.

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Diante da repercussão negativa tanto entre aliados quanto entre os opositores, o ex-presidente acabou soltando uma nota alegando que suas declarações foram “distorcidas”. “É falso e de má-fé afirmar que Lula teria apoiado ditaduras de esquerda (...). Eu não posso julgar o que aconteceu na Nicarágua, não sei o que as pessoas fizeram para ser presas. Mas se Daniel Ortega prendeu a oposição para disputar a eleição, como fizeram no Brasil contra mim, ele está totalmente errado”, alegou o petista.

Dias antes da declaração de Lula, o mesmo episódio já havia provocado desgastes para os petistas, depois que o PT soltou uma nota comemorando os resultados da eleição nicaraguense. A cúpula da sigla recuou e excluiu a nota de seu site. E a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), alegou que o texto sobre as eleições na Nicarágua não havia sido submetido “à direção partidária”. Gleisi afirmou ainda que a posição do partido, sobre qualquer país, “é de defesa da autodeterminação dos povos contra interferência externa e respeito à democracia”.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

Repercussão negativa fez PT e Lula recuarem nas declarações sobre Ortega

Com a crise sobre a Nicarágua, Lula e seus aliados pretendem recuar nas próximas semanas e reavaliar a concessão de entrevistas neste período. Segundo petistas, a medida é uma forma de “mitigar” possíveis estragos das declarações e evitar que seus opositores usem o episódio para comparações com o presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na avaliação dos petistas, a viagem de Lula à Europa, onde ele concedeu a entrevista, foi para se contrapor ao presidente Bolsonaro no cenário internacional. Portanto, novas declarações sobre Daniel Ortega poderiam minimizar os ganhos da viagem.

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“A declaração do Lula foi distorcida, mas provocou muito desgaste. Não podemos dar mais munições para os bolsonaristas e os outros adversários de campanha. Isso será uma vidraça extra nas eleições de 2022”, disse um integrante do PT que pediu para não ser identificado.

Já Alberto Cantalice, membro do Diretório Nacional do PT, afirmou que houve uma manipulação nos comentários contra o ex-presidente. “A manipulação da mídia no Brasil é regra. Até as eleições muita calúnia e difamação ainda vão rolar debaixo da ponte.”

Mas o episódio repercutiu negativamente entre integrantes de partidos de esquerda e centro-esquerda, como PSB, Rede, PDT e PSol. Aliados dessas legendas, no entanto, têm evitado fazer críticas abertas ao ex-presidente petista, mas afirmam que Lula deu um "tiro no pé" e que sua fala "pegou muito mal".

Alguns, contudo, falaram sobre o assunto. O deputado Felipe Rigoni (PSB-ES) publicou uma resposta nas redes sociais sobre a declaração de Lula. “Por que Merkel pode ficar no poder e Ortega não? Simples. Porque a Alemanha vive uma democracia e a Nicarágua uma ditadura. Pra alguém que bate no peito dizendo ser um democrata, Lula segue completamente desconectado com a realidade”, escreveu.

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Lula tenta construir imagem de moderador para disputa de 2022 

Para os aliados, a imagem de “moderador” que Lula vinha tentando construir desde que teve suas condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) deve ficar desgastada entre os demais partidos de centro. Para atrair partidos além da esquerda e centro-esquerda, o líder petista vinha pregando uma união em torno de uma “reconstrução” da democracia por causa do governo Bolsonaro.

Desde que recuperou os direitos políticos, Lula fez acenos a diferentes setores do país para se colocar como contraponto a Bolsonaro. "Não tenham medo de mim. Eu sou radical porque quero ir na raiz dos problemas deste país. Eu estou aberto a conversar com qualquer pessoa que queira falar sobre democracia, vacina já, auxílio-emergencial e emprego. Se quiser dar um passo a mais e quiser falar sobre como tirar o Bolsonaro, eu estou mais feliz ainda", disse Lula logo após a decisão do STF.

De lá pra cá, o petista vinha tentando atrair diversos partidos de centro para seu projeto eleitoral, entre eles o PSD, de Gilberto Kassab, e até uma recomposição com o MDB, por exemplo. Em outra frente, aliados de Lula buscam o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) para uma eventual composição em 2022. Para integrantes dessas legendas, no entanto, qualquer “flerte” do líder petista com ditaduras de esquerda pode inviabilizar alianças.

Opositores do ex-presidente usam episódio para criticar o petista 

Buscando se viabilizar na chamada terceira via, o ex-ministro Sergio Moro (Podemos) aproveitou as declarações de Lula sobre Daniel Ortega para criticar o petista. Moro e seus aliados buscam chegar ao segundo turno da disputa eleitoral contra Lula ou Bolsonaro. "É o PT com a 'democracia' de Ortega que queremos para o Brasil?", questionou o ex-ministro ao publicar o vídeo de Lula nas redes sociais.

O presidente do Cidadania, Roberto Freire, classificou o episódio como uma “estultice”. "Tamanha estultice a comparação de Lula para justificar a ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua. Vejam a invertida que Lula levou da jornalista espanhola ao comparar Angela Merkel e Filipe Gonzales com Daniel Ortega", disse.

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Já o ex-deputado e ex-candidato à Presidência Eduardo Jorge (PV) criticou o ex-presidente, dizendo que Lula foge "de qualquer crítica aos regimes ditatoriais".