
Ouça este conteúdo
A corrida presidencial de 2026 ganhou nos últimos dias um curioso duelo narrativo: o esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu se apresentar também como inimigo do establishment — ou “sistema” —, papel já associado a seu principal rival, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), da direita.
Na tentativa de conter o desgaste de imagem gerado por falhas de governo, o presidente adotou retórica de enfrentamento a "opressores poderosos", buscando posicionar-se como figura contestadora. Com isso, visa confundir o eleitor e invadir o terreno simbólico explorado até então pela oposição.
Lula oficializou a estratégia no pronunciamento de rádio e TV na véspera do 1º de maio, no qual criticou o “sistema” pela concentração de renda e pela resistência a políticas sociais, culpando um grupo de forças difusas — bilionários e elites econômicas e políticas — por suas dificuldades em governar o país.
VEJA TAMBÉM:
Estratégia eleitoral de Lula esbarra em graves contradições, dizem analistas
Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, ao atacar como alvo central o que chama de “andar de cima”, sobretudo o ramo financeiro, Lula tenta reconstruir o discurso clássico da esquerda: "nós contra eles". Mas cai em contradições ao ocultar o papel das gestões petistas nas desigualdades persistentes do país.
Em recente encontro com líderes progressistas em Barcelona, na Espanha, o próprio Lula explicitou a ambiguidade da narrativa ao dizer que a esquerda passou a ser vista como “o sistema” que antes dizia combater. Diante de governantes e ativistas, admitiu o avanço da direita com a pauta antissistema.
Ao mobilizar essa leitura, Lula investe na retomada da coalizão social e eleitoral baseada em trabalhadores, beneficiários de políticas públicas e segmentos mais à esquerda.
Especialistas veem no discurso a tentativa de transformar o pleito de outubro em plebiscito entre inclusão e privilégios.
Direita mantém reações contra o “sistema”, visto como aliado de Lula
Enquanto Lula ataca o “establishment ”, Flávio Bolsonaro exerce o seu antagonismo contra o “sistema” composto por castas do funcionalismo, setores da classe artística, parcelas da mídia tradicional, membros do Judiciário e operadores privados que, segundo ele, lucram com as benesses da máquina pública.
O presidenciável e aliados também exploram a associação do “sistema” ao crime organizado. Na visão direitista, há interação entre estruturas ilegais e o Estado, seja por omissão, conivência ou captura. Tal dimensão amplia o conflito político, chegando à segurança pública e às relações internacionais.
Segundo analistas, esse enfoque particular desafia não só o status quo no plano econômico, mas alcança aspectos morais e institucionais. Trata-se de apresentar o Estado como sequestrado por grupos que não representam o cidadão comum e que atuam contra os valores conservadores e a paz social.
Parlamentares de oposição ironizam disposição de Lula de parecer outsider
Parlamentares da oposição reagiram rápido ao discurso outsider de Lula. Flávio Bolsonaro disse que o presidente tenta enganar o povo ao “posar de vítima de um sistema que ele próprio ajudou a construir” por décadas no centro do poder, sem ter feito nada para alterar os privilégios e os abusos.
Na mesma linha, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), nome mais influente da direita nas redes sociais, acrescentou que o pronunciamento em rede nacional foi uma “peça de campanha antecipada”. Ele ainda acusou o governo de usar a máquina pública para tentar “recontar a própria história”.
O senador Sergio Moro (PL-PR) frisou não haver “nada mais establishment do que um grupo que governa o país por tantos anos e mantém influência em várias instituições”.
O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) chamou a fala de “descolada da realidade” e voltada à mobilização ideológica.
Por fim, o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), apontou que a retórica antissistema “não resiste à análise mínima da história do PT”.
Professor vê Lula como a encarnação do “sistema” que ele diz combater
Para Elton Gomes, professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a adesão de Lula ao discurso antissistema tem caráter essencialmente eleitoreiro e contrasta com a trajetória dele e do seu grupo, já que estão há décadas no poder. “O presidente não só faz parte do sistema. Ele e o PT são o próprio sistema”, resume.
Gomes lembra que, após cinco mandatos presidenciais do PT, incluindo o atual, Lula consolidou alianças com forças tradicionais da política e até com o Judiciário. “Ele ocupou espaços nos três Poderes, na burocracia, nos meios sindical e acadêmico e em setores influentes da opinião pública”, sublinha.
Hoje, lembra o especialista, o lulopetismo reproduz a lógica de grupos hegemônicos que apelam ao medo de retrocessos para se manter no poder. “Mas o tempo prolongado no poder expôs a fadiga política. Lula tenta resgatar a imagem de outsider, apesar de ser visto como sistema”, finaliza.
VEJA TAMBÉM:














