Manifesto pró-democracia reuniu assinaturas de seis presidenciáveis de centro.| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo
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A construção de uma candidatura de centro para disputar o Palácio do Planalto no ano que vem ganhou um novo capítulo nesta semana com o manifesto a favor da democracia, que reuniu assinaturas de ao menos seis presidenciáveis dessa vertente política. Diante do possível cenário de polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os próprios signatários da carta admitem que o manifesto foi o primeiro passo para a viabilização de uma candidatura única.

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“A conquista do Brasil sonhado por cada um de nós não pode prescindir da Democracia. Ela é nosso legado, nosso chão, nosso farol. Cabe a cada um de nós defendê-la e lutar por seus princípios e valores. Vamos defender o Brasil”, diz o manifesto. Assinaram o documento os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Luiz Henrique Mandeta (DEM), os governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ambos do PSDB, o candidato do Novo em 2018, João Amoêdo, e o apresentador de tevê Luciano Huck. O ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro chegou a participar da construção do texto, mas optou por não assinar.

Apesar de ter adotado um discurso de conciliação e de aproximação com os demais partidos, o ex-presidente Lula não foi convidado para assinar o manifesto. Do outro lado, a carta foi apresentada no momento em que o governo Bolsonaro atingiu a marca de 59% de reprovação, segundo levantamento do PoderData. No entanto, o chefe do Executivo ainda manteve a taxa de aprovação em 33%.

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Agora, articuladores da candidatura de terceira via admitem que precisam viabilizar um nome que consiga atingir ao menos 20% das intenções de voto. Como a Gazeta do Povo mostrou, até o momento, apenas o nome de Lula aparece nesse patamar, enquanto Bolsonaro lidera em todos os cenários.

Tido até então como principal antagonista de Bolsonaro, o governador João Doria recuou e já admite nos bastidores que pode abrir mão de sua candidatura no ano que vem. O tucano acabou perdendo espaço para o seu correligionário, o governador gaúcho, Eduardo Leite, que conta com mais simpatia dentro do partido. As prévias para definição de um nome dentro do PSDB estão marcadas para outubro.

“Em outubro a gente vai definir um nome para ter visibilidade. No entanto, nada está descartado. Dependendo da viabilidade, o escolhido do PSDB pode ser vice na chapa, caso outro nome seja mais viável. Em outra frente o partido poderia oferecer sua estrutura”, admite um líder do PSDB.

Nesta semana, Eduardo Leite esteve reunido com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para tratar sobre 2022. FHC tem sinalizado que o governador gaúcho poderia enfrentar menos rejeição que Doria, caso fosse escolhido para a disputa presidencial. O tucano também já admitiu, inclusive, que poderá apoiar um nome de fora do partido.

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“Eu serei favorável àquele que eu perceber que pode juntar forças para ganhar de Bolsonaro, seja do PSDB ou não. Tem que ser bastante pragmático nessa questão. Claro que eu prefiro que seja do PSDB, mas pode não ser. Não sou sectário nessa matéria”, disse FHC a Rádio Bandeirantes.

Idealizador e articulador do manifesto assinado pelos demais políticos, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta admitiu também que poderia abrir mão de sua pré-candidatura pela “unificação” do Brasil. Integrante do DEM, Mandetta assumiu a articulação dentro do seu partido na busca de uma candidatura de centro.

“Se a gente conseguir construir um polo de pessoas que têm como ponto comum a democracia, o meio ambiente, a educação, enfim — e que estejam dispostas a se modernizar, a se reciclar, a se repaginar —, é a única coisa que posso oferecer. Inclusive o meu não oferecimento. Inclusive a minha não candidatura, para que haja uma unificação do país. É o que ofereço hoje: tudo de mim ou nada de mim”, afirmou o ex-ministro ao jornal Valor Econômico.

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Definição sobre nome do candidato de centro deve ficar para 2022

Apesar do esforço do grupo e dessa primeira sinalização, líderes partidários admitem que as conversas ainda são preliminares e a definição de um nome será construído até o ano que vem. Entre os nomes cotados, o apresentador Luciano Huck, por exemplo, ainda não definiu seu futuro com a TV Globo.

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Recém-integrado às discussões, João Amoêdo, que concorreu ao Planalto em 2018, passou a defender a unificação depois que a viabilidade de sua candidatura dentro do Novo passou a ser uma incógnita. “Vários potenciais candidatos para 2022 têm essa preocupação de termos uma opção viável e sairmos desses extremos que entendemos que não seria o ideal para a nação. A ideia era ter uma sinalização de candidatos da centro-direita a centro-esquerda e fugir da polarização e de discursos populistas”, explicou Amoêdo ao jornal O Globo.

Parte do Novo defende que outros quadros da sigla, como o treinador de vôlei Bernardinho ou o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, possam ser o candidato do partido em 2022. Reconhecendo as divisões internas, o líder da bancada na Câmara Federal, deputado Vinicius Poit (SP), admite que precisa se construir um nome que tenha condições de acabar com a polarização entre Bolsonaro e Lula.

“A gente precisa de outra alternativa [a Bolsonaro e Lula]. A gente precisa construir isso. O povo não tem certeza de nada hoje, é só briga e agressividade. Polarização não dá mais. Precisamos de alguém que governe para os 210 milhões de brasileiros e não para uma metade”, avaliou o deputado.

Mais resistente, Ciro Gomes é o nome que até o momento demonstrou que não pretende abrir mão de sua candidatura. Apesar de estar na centro-esquerda, o pedetista se aproximou dos partidos de centro-direita no intuito de ampliar suas alianças diante da volta de Lula ao jogo político.

“(O manifesto) trata-se apenas de um gesto, concreto, objetivo, no sentido de que, colocadas de lado nossas divergências, algumas inconciliáveis, temos o consenso posível a favor da democracia, da Constituição e contra um claro surto autoritário de Bolsonaro", ponderou o ex-ministro ao blog da Vera Magalhães em O Globo.

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Mesmo assim, o presidente do PDT, Carlos Lupi, já sinalizou um recuo. “Se surgir nessa terceira via um outro nome, que apresente um bom projeto, podemos conversar”, afirmou ao Valor Econômico.

Metodologia da pesquisa citada

O levantamento do PoderData citado na reportagem ouviu 3.500 pessoas em 541 municípios, nas 27 unidades da federação entre os dias 29 e 31 de março. A margem de erro é de 1,8 ponto percentual.

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