Senador Izalci (PL-DF) apresentou 324 requerimentos na CPMI do INSS.| Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
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Em entrevista à Gazeta do Povo, o líder da Oposição no Congresso, senador Izalci Lucas (PL-DF), disse que o sindicalista José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou fora das investigações e das apurações da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal sobre fraudes na Previdência Social, mas será convocado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.

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Como membro da CPMI, Izalci já fez 324 requerimentos de informação. Ele é auditor de formação e um veterano de CPIs: já participou das comissões Petrobras, da Lei Rouanet, da Covid, do 8 de janeiro, das Bets.

Izalci Lucas disse que exercerá um trabalho "sem seletividade". Em sua lista de requerimentos estão tanto Frei Chico como o ex-ministro da Previdência José Carlos Oliveira, que serviu à gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

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A ideia de convocar o irmão de Lula se baseia no fato do sindicato em que ele é dirigente, o Sindnapi (Sindicato Nacional dos Aposentados), que teve seu faturamento com o INSS elevado em 264% entre os anos de 2020 e 2024. "Isso não é normal. De R$ 23 milhões para R$ 154 milhões, ou tem irregularidade como a maioria, ou tem influência política nisso", disse Izalci.

Além das convocações, Izalci protocolou uma série de pedidos de quebra de sigilo bancário e fiscal de dirigentes, empresas e entidades ligadas às denúncias. “Não fiz nenhum pedido aleatório. Cada quebra de sigilo tem justificativa baseada em indícios concretos, relatórios oficiais e processos em andamento. É a única forma de seguir o dinheiro e mostrar de onde saiu e para onde foi”, disse.

Veja os principais trechos da entrevista:

O senhor é o autor de mais da metade dos requerimentos apresentados até agora na CPMI do INSS. O que o motiva a liderar esse movimento?

Izalci Lucas: Eu sou auditor e participei de todas as CPIs como deputado e como senador. Participei da Petrobras, da Lei Rouanet, da Covid, do 8 de janeiro, das bets... Em todas elas, sempre apresentei um relatório independente. Neste caso, aproveitei o recesso porque já sabíamos que conseguiríamos as assinaturas, por mais que o governo tenha trabalhado contra. Eu comecei a estudar todo o processo e o esquema, e fui, inclusive, presidente da comissão da Medida Provisória 871 de 2019 [que endureceu as regras de concessão de benefícios previdenciários para combater fraudes no INSS], então conheço um pouco a matéria. Fiz todo o organograma com a organização do INSS e das instituições e empresas que contribuíram para a lavagem de dinheiro. Fiz convites, pedidos de informação à Polícia Federal, ao Carf, ao Coaf e à Receita Federal, e pedi a quebra de sigilo bancário e fiscal de vários atores, inclusive das empresas laranjas. Tudo o que era necessário, eu fiz.

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O senhor pediu a convocação de ex-dirigentes e atuais do INSS. Nesses depoimentos, o que espera extrair?

Izalci Lucas: Os atores principais que a gente precisa ouvir imediatamente são aqueles mais envolvidos, como a questão do Antônio Careca [Antônio Carlos Camilo Antunes], que é um dos principais lobistas dessa área, e o Maurício [Camisotti], que tem várias instituições e empresas ligadas a ele e que recebeu muitos recursos [de associações e sindicatos investigados].

Os servidores do INSS também estão diretamente ligados. Esses são os principais. O ministro já ouvimos, e já sabemos mais ou menos o que eles [servidores] vão dizer. Podemos ouvi-los para ver o que cada um pensa, mas podemos perder muito tempo com isso. O importante é aprovar logo os requerimentos de informação, para termos as informações que são importantes para trabalhar em cima delas. Quando ocorrer a quebra de sigilo dessas pessoas ficará mais fácil para a gente trabalhar. São mais de 40 nomes.

A vantagem de termos conquistado a presidência e a relatoria é que vamos fazer um trabalho bem transparente. Temos que buscar a verdade, independente de qualquer coisa, diferente do governo que já tinha uma narrativa pronta - o próprio ministro tinha uma história para contar. E o possível relator Ricardo Ayres [Republicanos-TO] e o possível presidente [Omar Aziz, PSD-AM] já estavam dando declarações. Eles foram surpreendidos. Quem ganha com isso são os aposentados e pensionistas, porque terão uma CPMI transparente. É muito bom para a gente resgatar a credibilidade dessas CPIs, que na prática, servem para isso: dar transparência à população, para que conheçam como as coisas funcionam e, evidentemente, para aperfeiçoar a legislação.

Sobre esses pedidos de quebra de sigilo de empresas e entidades, o senhor tem indícios concretos de irregularidades ou são medidas para abrir caminho na investigação?

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Izalci Lucas: Se você analisar os pedidos que eu fiz, as justificativas estão muito bem fundamentadas. Não tenho nenhum pedido por pedir. A fundamentação é fundamental. Estou com o meu caderno aqui. Você tem toda uma justificativa sobre o porquê estamos pedindo. O que vai realmente prevalecer e convencer na aprovação é o conteúdo da justificativa, que traz os detalhes. Já tínhamos muitas informações de processos e trabalhos da CGU [Controladoria-Geral da União], da AGU [Advocacia-Geral da União] e da Polícia Federal. Em cima disso, nós fundamentamos bem todos os pedidos de quebra de sigilo fiscal, bancário e também do Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras], que é importante para ver a movimentação dessas empresas e instituições. Temos que seguir o dinheiro para identificar para onde ele foi.

Entre os nomes que o senhor pede a convocação está o Frei Chico, irmão do presidente Lula, que hoje é dirigente de um dos sindicatos que foram alvo de investigação. Por que o senhor considera essencial ouvi-lo?

Izalci Lucas: Primeiro, ele ficou fora das investigações e das apurações da CGU e da Polícia Federal. Houve uma seletividade. O sindicato dele tinha um faturamento na ordem de R$ 23 milhões, que pulou para R$ 154 milhões. Isso não é normal. De R$ 23 milhões para R$ 154 milhões, ou tem irregularidade como a maioria, ou tem influência política nisso. Então, nós queremos saber até que ponto e por que houve esse crescimento vertiginoso, para saber a origem disso. O depoimento dele é importante.

Na sua visão, o objetivo central da CPMI é responsabilizar gestores, expor esquemas de corrupção ou propor mudanças estruturais no INSS?

Izalci Lucas: O primeiro é a importância da CPMI como uma instituição de transparência. A população vai acompanhar tudo o que está acontecendo: como eles faziam, como desviavam recursos, etc. Isso é transparência, porque quando a investigação é feita pela Polícia Federal ou pela Justiça, normalmente é sigilosa, e ninguém fica sabendo. A população não acompanha. Esse é o principal objetivo da CPMI: transparência e publicidade. Em segundo lugar, identificar quem cometeu os problemas para tentarmos reaver isso. E o outro objetivo é melhorar a legislação. Temos que apresentar propostas de legislação durante o processo para inibir que fatos como esse continuem acontecendo.

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P. O senhor acredita que o sistema de fiscalização atual do INSS e das entidades conveniadas falhou? Quais seriam as principais brechas?

Izalci Lucas: O presidente Bolsonaro, 17 dias depois de assumir, em 17 de janeiro de 2019, encaminhou para o Congresso a Medida Provisória 871, com o objetivo de dificultar o que estava acontecendo. Antigamente, para você se aposentar como rural, bastava uma declaração dos sindicatos rurais. E o que eles faziam? Conseguiam aposentadoria para o morador do interior, e no momento em que ele conseguia, já assinava a autorização para descontos de assistência jurídica e odontológica. A maioria assinava sem saber. E muitos hoje não reconhecem a autorização. Isso começou lá atrás, no início da Contag [Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares].

A proposta da MP 871 era de recadastramento anual, e que as aposentadorias não pudessem ser simplesmente através de declaração do sindicato. A proposta era que precisassem passar pelos ministérios, pelo Fundo de Garantia, entre outros. Mas o PT votou contra, e acabou que o recadastramento ficou de três em três anos, diferente da proposta original. Mesmo assim, a aprovação gerou uma economia muito grande. Naquela época, o seguro-defeso para pescadores, por exemplo, tinha muita gente em Brasília recebendo. Essas coisas foram dificultadas pela MP 871. Mas o que aconteceu? Durante 2019, 2020 e 2021, os patamares de desconto ficaram parecidos. Houve um crescimento exponencial no final de 2022 e 2023, quando os valores dobraram, e em 2024, dobraram mais ainda. O grosso mesmo aconteceu em 2023 e 2024, fora do padrão. E a gente percebe realmente muita mudança, desvio, falsificação, denúncias, CPF falso. A imprensa também começou a divulgar. O governo, após as denúncias, passou a questão para a CGU e a Polícia Federal. Mas o ministro tinha sido alertado lá atrás, em ata do conselho, e não cuidou.

Como foram as negociações da oposição para conseguir a presidência e a relatoria? O senhor foi visto como um nome de consenso?

Izalci Lucas: A oposição fez um trabalho silencioso e articulado. O governo já estava dando como certo e deve ter dado uma bobeada por excesso de confiança. Mas foi muito bom para os aposentados, porque na prática, temos o presidente e o relator que é um profissional da área, do Ministério Público. Ele conhece como tudo isso funciona. Isso facilita muito a transparência e o trabalho técnico que será feito pela CPMI. Acho que teremos um bom rendimento, bem focado, sem seletividade ou concentração em determinadas épocas. O que tiver que aparecer, vai aparecer, e quem errou tem que pagar pelo erro.

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O senhor avalia que pode haver algum risco de a comissão ser acusada de perseguição política ou de se tornar um palco de embates ideológicos?

Izalci Lucas: Se você avaliar pelos meus requerimentos, eu os fiz de forma independente. Não olhei quem era. Tem até o ex-ministro da Previdência [da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro], José Carlos Oliveira. Se eu não o tivesse colocado, estaria fazendo seletividade. O objetivo da oposição é trazer todo mundo para esclarecer. Aqueles que não têm problema vão mostrar que não há nada. Mas para não sermos acusados de seletividade, eu fiz o trabalho dentro da técnica, em toda a organização que estava lá, chamamos todo mundo.

O que a população brasileira pode esperar da CPMI do INSS? Vai acabar em pizza?

Izalci Lucas: Tenho certeza de que esta não vai terminar em pizza. Porque o que vale muito não é só o resultado, é todo o processo da CPMI. Precisamos ver como vamos fazer, por exemplo, com a questão da devolução dos recursos. O Supremo Tribunal Federal determinou a devolução do recurso corrigido, mas condicionou que os aposentados e os pensionistas abram mão de um processo judicial. Sabemos que, pelo Código de Defesa do Consumidor, todos têm direito de receber em dobro.

Essas cláusulas, quando estavam na primeira e segunda instâncias, eram derrubadas, porque você não pode obrigar uma pessoa a fazer um acordo e não entrar na Justiça, mas, como foi o Supremo que determinou, a gente vai ter que ver o que fazer. Prova disso é que nem todos pediram a devolução. O INSS anunciou que tem 1 milhão e 600 mil pedidos, mas são quase 6 milhões. Falta muita gente ainda. A CPI também vai trazer clareza nesse sentido. Muitas pessoas que ainda não sabem desse desconto vão acabar consultando e participando disso para poder receber de volta. Nós defendemos que seja em dobro e que o dinheiro recuperado seja das empresas e entidades, e não do orçamento público. Eles vão ter que devolver o recurso para os aposentados e pensionistas. Esta CPI vai vir para retomar tudo isso com certeza.

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