
Ouça este conteúdo
O Partido Liberal (PL) será o principal protagonista na Câmara dos Deputados a partir de 2027 e terá força suficiente para negociar o nome do próximo presidente da Casa.
Diante dessa nova correlação de forças, analistas políticos avaliam que as chances de reeleição do atual presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), tornaram-se mínimas.
Em Brasília, os cálculos políticos já estão sendo feitos em reuniões e encontros de lideranças que devem apontar quais partidos vão se aliar ao PL pela presidência da Câmara.
A possibilidade de a direita e o campo conservador assumirem a presidência da Câmara é real. O desfecho, contudo, dependerá do desenho da chapa e do resultado do segundo turno das Eleições 2026. A disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) serve de bússola para o Parlamento.
A vitória de Flávio dá ainda mais poder à bancada conservadora na Câmara e atrai para a base do PL os partidos de centro-direita, como a Federação União Progressista – que declarou apoio oficial a Bolsonaro nesta terça-feira (6) -, o Novo, Podemos, PRD, Avante e o Republicanos, que oficializa apoio a Flávio nesta quarta-feira (7).
Juntas, as siglas têm força para eleger o presidente da Câmara e sacramentar a saída de Motta do comando da Casa, como explica o cientista político Elias Tavares, professor de pós-graduação da Damásio Educacional.
“O que o PL fez nesta eleição foi um verdadeiro rolo compressor. Com uma bancada de 121 deputados, o partido ganha musculatura suficiente para entrar diretamente na disputa pela presidência da Câmara e deixa de depender de uma composição muito ampla para construir uma candidatura competitiva”, explicou.
As alianças do PL na Câmara com Flávio na Presidência
O PL elegeu 121 deputados federais na Eleição de domingo (4). O número é o maior da Câmara, mas insuficiente para garantir por forças próprias o comando da Casa.
Para atingir o mínimo necessário de 257 votos, no dia 1º de fevereiro, o partido de Flávio Bolsonaro terá de firmar alianças. As mais prováveis são com o Partido Novo, que elegeu 10 deputados, e com a Federação União Progressista, que será dona de 87 cadeiras na Câmara a partir de 2027. O bloco terá 218 votos, a princípio, 39 a menos da meta.
Os votos restantes, segundo analistas, não são difíceis de conquistar e a vitória de Flávio Bolsonaro será importante para isso.
Os partidos de centro tendem a se aproximar da base aliada do PL mediante acordos de participação no futuro governo Bolsonaro. Com essa musculatura, o partido terá espaço para indicar o presidente da Câmara, inviabilizando a reeleição de Hugo Motta.
A direção do partido também buscará adesões entre parlamentares independentes de legendas como Podemos, PRD, Avante e PSD. Esses quadros concentram perfis moderados, abertos às reformas liberais na economia e pautas de segurança pública, por exemplo.
No entanto, Elias Tavares ressalta que o melhor cenário de composição de alianças para o PL na Câmara será aquele em que Flávio Bolsonaro seja eleito presidente da República.
“Em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, a construção dessa maioria tende a encontrar um ambiente político muito mais favorável. Em uma vitória de Lula, o cenário se torna muito mais complexo, porque o governo teria de negociar com uma Câmara que saiu das urnas significativamente mais inclinada à direita”, analisou.
VEJA TAMBÉM:
Hugo Motta depende de Lula para seguir presidente da Câmara
O atual presidente da Câmara, Hugo Motta, poderá se candidatar à reeleição em 2027. No entanto, o deputado enfrenta forte desgaste entre os deputados do PL e do Novo.
Os parlamentares da atual oposição criticam a omissão de Motta diante das pautas conservadoras. Eles ainda reclamam de arquivamentos indevidos de matérias consideradas prioritárias pela direita, do bloqueio à CPI do Caso Master e da condução administrativa, que, segundo analistas, é considerada aquém das expectativas institucionais.
Pesa também contra Motta a proximidade política construída com o Palácio do Planalto ao longo de 2026. O parlamentar facilitou votações de interesse do Executivo, o que limitou seu diálogo com o campo oposicionista.
Por essa razão, os analistas entendem que a viabilização de Hugo Motta para uma eventual reeleição na Câmara estaria ligada diretamente à vitória de Lula no segundo turno das Eleições 2026.
Mesmo assim, os partidos da base petista terão de se dedicar muito para atingir o número mínimo de votos em favor do paraibano. Os parlamentares de esquerda, somados com os de centro-esquerda, têm 167 votos estimados, 90 a menos do mínimo. O PT tem 88 votos, o PSD 43, o PSB 15, o PSOL e a REDE 15 e o PDT 6.
O Republicanos, partido de Hugo Motta, entrou oficialmente na campanha de Flávio Bolsonaro. O anúncio desta quarta-feira (4) reuniu o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o presidente do partido, deputado federal Marcos Pereira (SP), e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). A aliança tem o objetivo de fortalecer a campanha de Bolsonaro no segundo turno das Eleições. No entanto, de acordo com interlocutores próximos às lideranças, a convergência entre o Republicanos e o PL deve seguir em 2027, sobretudo na composição das alianças que vão eleger o próximo presidente da Câmara dos Deputados.
O cientista político Sérgio Praça, da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), é categórico sobre a eventual reeleição de Hugo Motta: “Ele não será reeleito presidente da Câmara”.
O especialista entende que a atuação do deputado na presidência da Casa foi frustrante e que seu estilo “de tomada de decisão pouco assertivo e o ambiente político dos últimos quatro anos não o ajudou”.
O reflexo das eleições no Senado na Câmara dos Deputados
O xadrez da disputa pela Mesa Diretora da Câmara não pode ser analisado isoladamente das eleições no Senado Federal porque o União Brasil abriga Davi Alcolumbre (AP), atual presidente da Casa e articulador natural de sua própria reeleição.
O PL vai brigar pela Mesa Diretora da Casa Alta e lançará o senador Rogério Marinho (PL-RN) como candidato, motivado pelo crescimento expressivo da sigla durante a votação do último domingo (4), que garantiu 28 senadores eleitos.
Esse confronto direto ameaçava criar atritos entre as bancadas do PL e da Federação União Progressista na Câmara. O União Brasil poderia responder ao embate do Senado vetando o apoio ao candidato da Câmara lançado pelo PL.
Contudo, o apoio formal da federação à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, nesta terça-feira (6), reduziu o possível atrito das siglas no Senado e isolou Davi Alcolumbre.
Sérgio Praça destaca ainda que Alcolumbre perdeu capital político nas Eleições 2026 e isso vai pesar contra ele nas disputas internas do Congresso Nacional.
“Alcolumbre saiu-se muito mal nessa eleição. Seus aliados no Pará foram derrotados. Seu principal opositor elegeu-se governador. E as mensagens com Daniel Vorcaro certamente chamuscam sua imagem também. Vejo ele bastante fraco, caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente da República”, destacou.






