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A Petrobras teve uma semana difícil na Bolsa de Valores. Em meio à pandemia de coronavírus e à intensa queda no preço do petróleo, os papéis da estatal brasileira chegaram a valer R$ 12,87 – resultado de baixas sucessivas ao longo da semana. Na segunda-feira (9), quando a guerra de preços entre Arábia Saudita e Rússia foi deflagrada, as ações da Petrobras caíram impressionantes 29,7%.

O golpe no valor de mercado da companhia, motivado pelo contexto internacional, vem em um momento em que a Petrobras vinha atingindo estabilidade financeira – e, inclusive, registrando lucros –, após uma mudança de rumos.

Rosemarie Bröker Bone, professora e coordenadora do Laboratório de Economia do Petróleo da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a situação internacional é desfavorável mesmo considerando que a Petrobras importa mais óleo do que exporta.

"O grande problema é que estamos comprando barris mais baratos em dólares, mas o câmbio está desvalorizado. Nessa briga, ainda estamos pagando mais caro", diz a professora. Na quinta-feira (12), o dólar chegou a bater o recorde de cotação e atingiu um pico de R$ 5.

Petrobras tem "colchão" para enfrentar crise, avaliam especialistas

O cenário se complica considerando que não há certeza sobre quando a pandemia do coronavírus e a disputa entre Arábia Saudita e Rússia no mercado internacional serão superadas. Mas, na opinião da professora, a companhia tem fôlego para não sofrer grandes prejuízos no período turbulento.

"Os resultados positivos da empresa em 2018 e 2019 criaram um colchão para que a Petrobras tenha condições de enfrentar a avalanche que está acontecendo agora", opina a professora.

Rafael Schiozer, professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, concorda. "Ao longo desse tempo, a empresa foi recuperando a sua capacidade de investir. Hoje, a Petrobras tem condições de enfrentar de forma mais eficiente uma situação de dificuldades a curto e médio prazo", avalia.

Empresa registrou anos de prejuízo e tem recuperação recente

Os lucros, entretanto, são característica recente no balanço da Petrobras. Desde que a Operação Lava Jato teve início, a empresa registrou anos seguidos de prejuízos. Entre 2014 e 2017, foram R$ 70 bilhões em perdas.

O mau desempenho nas finanças se refletiu na cotação das ações da Petrobras na Bolsa. No início de 2016, os papéis da companhia estavam tão desvalorizados que chegaram a valer menos de R$ 5. No dia 26 de janeiro, as ações atingiram a menor cotação desde 2010, e passaram a valer R$ 4,20.

A virada financeira teve vários ingredientes. O professor da FGV explica que, a partir do segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), a Petrobras começou a realizar mudanças em sua política de preços.

"Antes, a empresa não repassava a flutuação nos preços do petróleo, em parte por causa de uma preocupação do governo com a inflação. A companhia sofreu muito e chegou quase a quebrar", afirma.

No governo de Michel Temer (MDB), as variações do preço do barril no mercado mundial passaram a ser repassadas integralmente. No governo de Jair Bolsonaro, a empresa continuou a fazer os reajustes, mas diminuiu a frequência – de diários para semanais e quinzenais.

Venda de ativos diminuiu endividamento, mas enfrenta resistências

O principal componente para que a Petrobras voltasse a aferir lucros, entretanto, foi a queda no endividamento da empresa. Durante a gestão de Graça Foster, iniciada em 2012, os investimentos da Petrobras cresceram, por causa da exploração do pré-sal. E, com eles, o caixa da empresa ficou comprometido.

A partir de 2015, diante das dificuldades financeiras, a companhia começou um processo de ajuste que envolveu a redução dos investimentos e dos custos operacionais, além da venda de ativos considerados secundários.

No relatório anual de 2018, o mais recente disponibilizado a investidores, o atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, destaca que o endividamento diminuiu de US$ 126,3 bilhões em 2015 para US$ 84,4 bilhões em 2018. "[O número] ainda é elevado em relação à capacidade atual de geração de caixa. (...) Vamos atuar simultaneamente (...) [para] reduzir a dívida e trabalhar para o crescimento do fluxo de caixa via aumento de produção e corte de custos", afirma.

A continuação no plano de desinvestimento, porém, tem gerado resistências – e pode não ser concretizado tão facilmente. No começo de 2020, por exemplo, petroleiros fizeram greve em protesto contra o fechamento da fábrica de fertilizantes Araucária Nitrogenados, no Paraná.

"Toda a parte de distribuição e refino ainda está sob o guarda-chuva da companhia mãe, sob a forma de subsidiárias da Petrobras. O plano de desinvestimento existe, mas está andando mais devagar do que se imaginava", conclui Schiozer.

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