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Compliance Zero

PF suspeita que provas sumiram com vazamento de operações no caso Master

Entrada do prédio onde ficava o Banco Master. Mesmo com a liquidação da instituição, é necessário declarar o CDB no Imposto de Renda.
Investigadores rastreiam possível vazamento de informações antes de operações que miraram o Master. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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Investigadores da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) que trabalham no caso Master estão rastreando o possível vazamento de informações antes da deflagração das três diferentes fases da operação Compliance Zero, que apura um esquema bilionário de supostas fraudes financeiras envolvendo a instituição financeira e seu controlador, Daniel Vorcaro.

A suspeita ganhou força após uma sequência de episódios considerados atípicos durante o cumprimento de medidas judiciais nos dias 17 de novembro de 2025, 14 de janeiro e 4 de março deste ano. As principais suspeitas recaem sobre as duas primeiras fases da operação. Investigadores pretendem identificar a origem de eventuais antecipações indevidas de dados sigilosos que possam ter comprometido a eficácia das ações e até mesmo o sumiço de provas.

O primeiro alerta veio ainda em novembro de 2025, quando foi deflagrada a primeira fase da operação. Ela teve como foco um suposto esquema de venda de carteiras de crédito sem lastro, que teriam sido negociadas com outras instituições como ativos legítimos, além da venda do Master para o Banco Regional de Brasília (BRB).

As suspeitas de vazamento de informações surgiram porque, na ocasião, Daniel Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um voo internacional, para os Emirados Árabes, em um jato particular. Para investigadores, o episódio levantou as primeiras suspeitas de que alvos da operação poderiam ter sido alertados previamente sobre a ação policial.

Embora a defesa sustente que não houve tentativa de fuga e que Vorcaro viajava a trabalho, para fechar negócio sobre a venda do banco, o fato de o empresário estar prestes a deixar o país no momento da deflagração passou a ser considerado um indício relevante. À época, o caso estava sob relatoria do ministro Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por autorizar as medidas judiciais iniciais.

A defesa de Daniel Vorcaro tem afirmado que o empresário sempre colaborou com as autoridades e nega qualquer tentativa de obstrução das investigações. Vorcaro está em um processo de tratativas para uma colaboração premiada. Desde o início das investigações, os advogados defendem que não houve acesso prévio a informações sigilosas e todos os atos do investigado teriam ocorrido dentro da legalidade.

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Segunda fase teve operações frustradas e indícios mais evidentes

Os indícios de vazamento se tornaram mais consistentes durante a segunda fase da operação, deflagrada em janeiro de 2026, ainda sob a relatoria de Toffoli. Nessa etapa, a PF ampliou o foco para fundos de investimento utilizados para movimentar recursos e disfarçar prejuízos.

Foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão em diferentes estados, além do bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões em bens e valores. No entanto, diversas ações policiais, chamadas de diligências, foram consideradas frustradas ou parcialmente prejudicadas, conforme registros da própria instituição.

Em vários endereços, policiais encontraram sinais de que os investigados haviam deixado os locais pouco antes da chegada da polícia: imóveis esvaziados, quartos desarrumados, ausência de equipamentos eletrônicos e justificativas consideradas inconsistentes dadas por testemunhas que estavam nos imóveis (pessoas que não eram alvo das ações, como parentes e funcionários).

Em um dos episódios, o empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, foi localizado no Aeroporto de Guarulhos na véspera da operação, prestes a embarcar para o exterior. Sua defesa nega que ele estivesse em processo de fuga.

Outro investigado, o investidor Nelson Tanure, também foi encontrado em aeroporto no mesmo período, mas seguiria para uma viagem nacional, rumo a Curitiba. Sua defesa também negou que ele estivesse fugindo da operação.

Para os investigadores, no entanto, a coincidência reforçou a hipótese de que informações sigilosas pudessem ter sido antecipadas a diferentes alvos da investigação.

Além disso, chamou a atenção nos locais de cumprimentos de mandados, sobretudo na segunda fase, a presença antecipada de advogados, antes mesmo da chegada dos policiais. Em parte dos endereços em que os alvos não estavam, quem se fazia presente no local eram os advogados.

A PF disse não comentar eventuais investigações em curso, mas fontes a par das apurações reforçam que a soma desses fatores levou os investigadores a considerar que a segunda fase apresentou os sinais mais claros de possível comprometimento do chamado sigilo operacional.

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Terceira fase da operação ocorreu após mudança de relatoria no STF

O andamento do caso sofreu uma mudança institucional em fevereiro de 2026, quando o ministro Dias Toffoli deixou a relatoria da investigação. A decisão ocorreu após a revelação de que ele mantinha vínculo societário com uma empresa familiar proprietária de parte de um resort de luxo que teve participações adquiridas por fundos ligados ao entorno de Vorcaro.

Com a saída de Toffoli, o processo foi redistribuído ao ministro André Mendonça, que passou a conduzir as medidas subsequentes da operação.

A terceira fase da Compliance Zero foi deflagrada em março de 2026, já sob a relatoria de Mendonça, mesmo diante de manifestação contrária da PGR quanto à necessidade de novas medidas naquele momento.

Ainda assim, o ministro autorizou a ação policial, que incluiu mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em São Paulo e em Minas Gerais. Os investigadores também não descartam que nessa fase alvos soubessem antecipadamente da deflagração.

Naquela ocasião,Daniel Vorcaro voltou a ser preso, assim como outros investigados apontados como integrantes de um suposto núcleo responsável por ameaças e coação de testemunhas. Todos negam irregularidades. Também foram determinados bloqueios de bens com valores superiores a R$ 22 bilhões, além do afastamento de dois servidores públicos do Banco Central suspeitos de envolvimento com o esquema.

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Operação avançou sobre lavagem de dinheiro, corrupção e invasão de sistemas

Na terceira etapa, as investigações avançaram sobre novos eixos, incluindo suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção, invasão de sistemas e monitoramento ilegal de autoridades e jornalistas. Foi nessa fase que ficou evidenciado que havia um grupo chamado de “A Turma”.

Ele reunia pessoas próximas ao empresário Daniel Vorcaro e que, segundo os investigadores, atuava de forma coordenada para proteger interesses ligados ao Banco Master. De acordo com a apuração, o grupo funcionaria como uma estrutura paralela de monitoramento e pressão, com vigilância, coleta de informações e intimidação de alvos considerados adversários, incluindo jornalistas e críticos.

A PF aponta que o núcleo teria utilizado acessos indevidos a bases de dados sensíveis e estratégias de coação, sendo descrito nas investigações como uma espécie de engrenagem informal de inteligência voltada à defesa de interesses privados, o que ampliou a gravidade das suspeitas sobre fraudes financeiras e obstrução de justiça.

A PF também identificou indícios de acesso indevido a informações sigilosas de órgãos públicos, como o da própria instituição, da PGR, da Justiça Federal e até da Interpol, o que reforçou o alerta a possíveis vazamentos internos ou facilitações de acessos a redes sigilosas com credenciais autênticas. Na ocasião um policial federal aposentado chegou a ser preso, suspeito de participar do esquema.

Diante de todos esses fatos, investigadores afirmam, sob reserva, ser uma prioridade a identificação da origem de eventuais vazamentos, até porque novas etapas da operação devem ocorrer com o avanço das investigações. Investigadores analisam se houve falhas institucionais, atuação de agentes internos ou interferências externas que possam ter permitido o acesso antecipado a informações sigilosas.

A reportagem da Gazeta do Povo apurou que o comprometimento do sigilo pode ter afetado diretamente a coleta de provas, especialmente à apreensão de dispositivos eletrônicos como celulares e HDs externos, além de documentos, físicos.

Segundo fontes ligadas às apurações, o levantamento sobre possíveis vazamentos corre paralelamente às investigações principais da Compliance Zero. Caso sejam confirmadas irregularidades no fluxo de informações, não estão descartados novos inquéritos para identificar e responsabilizar envolvidos.

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