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“Reconexão”

Por que apoio de Temer a Flávio inflama debate sobre negociação fora dos autos

Alexandre de Moraes foi indicado por Temer ao STF em 2017. (Foto: Rosinei Coutinho / STF)

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Em seu vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições, divulgado no dia 6, o ex-presidente Michel Temer (MDB) afirmou que a sociedade quer “mudança” e “renovação”, mas usou a palavra “reconexão” ao se referir ao candidato do PL. A ação de Temer passou a ser vista por segmentos da direita como uma tentativa de reaproximar a Corte do possível governo de Flávio Bolsonaro.

A campanha de Flávio nega a existência de qualquer negociação com membros do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas membros da direita vêm afirmando nos bastidores que temem a possibilidade de um possível governo de Flávio negociar saídas brandas para ministros que sejam diferentes do impeachment.

A reportagem apurou com duas fontes independentes que houve um contato entre Temer e membros da campanha de Flávio na semana passada. O ex-presidente representaria os interesses de ministros do STF.

Entre os temas tratados estaria a relação entre um possível governo Flávio e o Supremo. Mas a conversa, por si só, não significa que um acordo estaria sendo negociado por parte da campanha do PL, segundo apurou a reportagem.

O coordenador-geral da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho, disse ao portal Metrópoles que não há qualquer chance de acordo político do presidenciável para salvar o ministro Alexandre de Moraes de um processo de impeachment.

Marinho se posicionou respondendo a uma reportagem do Metrópoles que atribuiu a membros do PT a afirmação de que Temer estaria tentando se aproximar de Flávio para costurar um acordo com o STF. Ele foi procurado pela Gazeta do Povo e disse que sua resposta sobre esse tema é a publicada pelo Metrópoles. Também apontou um post em suas redes sociais que classifica a suspeita como "fake".

Negociações políticas envolvendo ministros do STF fora dos autos judiciais não encontram amparo legal e são um dos fatores mais graves que levaram à atual crise institucional brasileira, segundo analistas.

Segmentos da direita contrários a uma eventual negociação não têm falado abertamente. Mas a reportagem apurou que alguns enxergam nessa possibilidade uma traição ao eleitorado que colocou Flávio à frente da disputa do primeiro turno. O impeachment de Moraes, ao menos, não é visto como um ponto negociável.

A situação de Moraes se complicou porque a direita no Senado deve somar, com a composição das eleições de 4 de outubro, ao menos 49 dos 54 votos necessários para abrir processos que possam levar a impeachments de magistrados. A maior parte da direita consolidada no Congresso neste ano se elegeu, inclusive, sob essa bandeira.

A existência de uma negociação também vem sendo negada por aliados de Temer. A Gazeta do Povo procurou o ex-presidente, mas até a publicação desta reportagem não houve manifestação. O espaço segue aberto.

Marinho refuta a tese de negociação

Marinho disse ao Metrópoles que a tese de negociação seria uma tentativa do PT de alterar o cenário político depois do resultado do primeiro turno. Na avaliação do coordenador da campanha, a discussão sobre um eventual entendimento com Temer serviria para desviar o foco da vantagem obtida por Flávio no primeiro turno e da força conquistada pela direita no Congresso.

O MDB, partido do ex-presidente, liberou suas principais lideranças para que cada uma apoie o candidato que desejar no segundo turno, mas a principal base de articulação manifestou apoio a Flávio.

Por que o apoio de Michel Temer chama tanto a atenção

A repercussão da aproximação com o PL vem da trajetória de Temer e de sua relação direta com Alexandre de Moraes. Michel Temer, hoje com 86 anos, presidiu o Brasil de 2016 a 2018. Chegou à Presidência após o impeachment de Dilma Rousseff (PT), de quem havia sido vice-presidente.

Durante seu governo, Temer indicou Alexandre de Moraes para o STF, em 2017. Moraes ocupou a vaga deixada após a morte do ministro Teori Zavascki, então relator dos processos relacionados à Lava Jato no Supremo.

Moraes se tornou um dos principais alvos da direita e uma das figuras centrais das críticas de aliados de Jair Bolsonaro por decisões tomadas durante e após o governo do pai de Flávio. Foi Moraes, como relator do caso, o principal personagem que levou à condenação de Bolsonaro na suposta tentativa de golpe e de centenas de manifestantes após o 8 de janeiro.

Esses seriam alguns dos motivos pelos quais o apoio de Temer ao candidato do PL acabou sendo interpretado sob perspectivas distintas.

Na declaração feita em vídeo nas redes sociais, Temer disse que o resultado do primeiro turno indicava desejo de mudança e renovação e concluiu que a sociedade estaria em busca de uma “reconexão”, associando essa ideia à candidatura de Flávio.

A combinação entre a declaração pública de apoio e a defesa de uma relação menos conflituosa entre os Poderes abriu espaço para especulações sobre uma possível tentativa de pacificação institucional que poderia envolver algum acordo.

Conversas anteriores de Temer com Moraes

A atuação de Temer como interlocutor em questões relacionadas ao Supremo não seria inédita. Em setembro, o ex-presidente confirmou ter conversado por telefone com Alexandre de Moraes durante a crise envolvendo o ministro e André Mendonça.

Temer disse que aconselhou Moraes a buscar uma solução negociada com o colega de Corte, argumentando que uma disputa judicial poderia produzir um resultado ruim para o país. O episódio revelaria que Temer mantém canais de diálogo com integrantes do Supremo e que seu papel como interlocutor político e jurídico não começou agora.

Temer participou de articulações relacionadas à chamada Lei da Dosimetria. O ex-presidente foi procurado pelo relator do caso, Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que estava em busca de uma saída para o impasse envolvendo o projeto que tratava da redução de penas dos condenados do 8 de janeiro, do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros envolvidos na suposta tentativa de golpe.

O histórico ajudaria a explicar por que seu apoio a Flávio tem sido interpretado não apenas como uma manifestação eleitoral, mas também como um possível movimento de aproximação entre setores do centro político, a direita e o Judiciário.

Decisões de Moraes e Gilmar Mendes alimentam especulações

A discussão ganhou combustível adicional porque, nos dias seguintes ao primeiro turno e ao anúncio do apoio de Temer, algumas decisões tomadas no STF foram interpretadas por setores da direita como sinais de uma postura menos dura em relação a personagens ligados à direita.

Alexandre de Moraes, por exemplo, autorizou que Débora Rodrigues dos Santos, que ficou conhecida como Débora do batom, condenada no contexto dos processos dos atos de 8 de janeiro, cumprisse a pena em regime semiaberto. Ela foi condenada a 14 anos.

Além disso, Moraes arquivou investigações envolvendo nomes associados à direita, como Marcos do Val, Oswaldo Eustáquio e Allan dos Santos.

Outro episódio envolveu Gilmar Mendes. O ministro encerrou uma investigação contra Alfredo Gaspar, vice na chapa de Flávio Bolsonaro, em decisão que também passou a ser observada no contexto das especulações sobre uma eventual reacomodação política entre o Supremo e a direita.

Somado a isso, ainda houve parecer favorável do PGR, Paulo Gonet, e Flávio voltou a visitar Jair Bolsonaro em prisão domiciliar.

Moraes também autorizou visitas permanentes a Jair Bolsonaro de seu irmão, Renato Bolsonaro; das cunhadas, Geovanna Kathleen e Suyane Lanuze Lima; e dos sogros, Vicente de Paulo Reinaldo e Maisa Torres Antunes. As visitas poderão ocorrer às quartas-feiras e aos sábados, nos períodos da manhã e da tarde. Os filhos Carlos Bolsonaro e Renan Bolsonaro também já tinham autorização para visitá-lo.

O ponto de atenção teria sido a decisão do ministro que determinou o início do cumprimento definitivo da pena de quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicial semiaberto, ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) por coação no curso do processo. O irmão de Flávio tem mantido o tom de críticas contra o magistrado.

A decisão prevê a expedição de mandado de prisão, a inclusão da ordem no Banco Nacional de Monitoramento de Prisões e o cancelamento de passaportes. Eduardo vive em autoexílio nos Estados Unidos.

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