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Braço direito

Quem era o “Sicário” e como ele operava a milícia informal de Vorcaro

Polícia Federal
Sede da Polícia Federal, no bairro da Lapa em São Paulo, para onde foi Vorcaro após a prisão (Foto: Paulo PInto / Agência Brasil)

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Braço direito do banqueiro Daniel Vorcaro, Luiz Phillipi Moraes Mourão — o Felipe Mourão, também conhecido como "Sicário" — entrou, por volta das 21h30 de quarta-feira (4), no chamado protocolo de morte cerebral. Levado às pressas pela Polícia Federal (PF) ao Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, após atentar contra a própria vida na Superintendência da PF em Minas Gerais, ele não resistiu.

Sua morte encefálica foi informada de maneira informal por diversas fontes a par das investigações nas últimas horas de quarta-feira; no entanto, confirmações oficiais demorariam mais. Finalmente, por volta das 22h30 foi declarada sua entrada em protocolo de morte cerebral.

A Polícia Federal anunciou a abertura de uma investigação para apurar como ele conseguiu se matar sob custódia. O diretor-geral da PF declarou que toda a ação da corporação na tentativa de reanimar o custodiado foi filmada "sem pontos cegos".

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No Brasil, a constatação de morte encefálica é uma prerrogativa exclusiva de médicos intensivistas ou neurologistas, conforme resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM). Os profissionais de saúde devem realizar exames clínicos, testes de apneia e medidas complementares. O CFM recomenda aguardar um período mínimo de seis horas após os procedimentos para declarar a morte encefálica (Resolução nº 2.173/2017).

Nesta quinta-feira, ele foi submetido a um exame toxicológico para determinar se houve a ingestão de substâncias antes da prisão e da hospitalização. Além dos crimes pelos quais já era investigado, o Supremo Tribunal Federal (STF) informou que foi encontrada com ele, no momento da prisão, uma arma sem registro.

O coordenador das ações

Aos 43 anos, segundo informações da Operação Compliance Zero, Mourão era o suposto responsável pela coordenação de um grupo dedicado à vigilância ilegal, obstrução da justiça e intimidação, apelidado de “A Turma”. A organização paralela operava por meio de um grupo de WhatsApp com esse nome.

O papel de Mourão era coordenar ações para obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e levantamento de dados de interesse do grupo de Vorcaro. Segundo a PF, a milícia privada dispunha de um orçamento mensal de R$ 1 milhão, montante destinado a remunerar "Sicário" e financiar as atividades ilícitas. Os valores eram desembolsados com a intermediação do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, e de Ana Claudia Queiroz de Paiva, funcionária do grupo.

Atrasos nos pagamentos eram cobrados por Mourão diretamente ao chefe: "Bom dia. O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando. Dá uma olhada com ele, por favor. Obrigado", disse ele em mensagem interceptada pela PF.

Mourão supostamente trabalhava em parceria com o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, que provia contatos para atividades criminosas e conhecimento técnico para acessar informações restritas, além de executar ações de vigilância. Juntos, eles mobilizavam equipes para extrair dados de alvos específicos.

Violação do sistema da Interpol

Para a PF, Mourão teria usado credenciais de terceiros para hackear as bases de dados do próprio órgão, do Ministério Público Federal (MPF) e inclusive de organismos internacionais como o FBI e a Interpol.

A investigação cita, entre os alvos, uma ex-empregada que teria feito ameaças e que Vorcaro afirmou querer “moer”. O jornalista Lauro Jardim também estaria na mira para sofrer um assalto, cujo objetivo seria “quebrar todos os seus dentes”. Sicário conhecia a rotina de Jardim e descreveu suas idas dominicais a um determinado local – que não foi revelado no documento da investigação. Em um dos diálogos transcritos, Vorcaro teria dito: “O bom é dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar”.

As atividades de violência extrema não chegaram a se concretizar. As investigações mostraram que a organização funcionava com divisão clara de atribuições, remuneração mensal e uso de pessoas jurídicas para conferir aparência de legalidade aos repasses financeiros. A defesa de Mourão não foi encontrada porque o processo está em segredo de justiça e o nome de seu advogado não é conhecido. O espaço segue aberto para manifestações.

Investigado por pirâmide financeira

Antes de prestar serviços a Vorcaro, Mourão atuava como agiota e estava ligado a um esquema de pirâmide financeira que teria movimentado R$ 28 milhões em três anos em Minas Gerais.

A investigação do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) data de 2021; nela, ele foi denunciado por lavagem de dinheiro, organização criminosa e crime contra a economia popular. A reportagem tentou contato com os advogados de defesa de Mourão nesse processo, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestações.

Origem da palavra “sicário”

O termo “sicário” vem do latim sicarius, derivado da palavra sica. É a forma como era chamada uma faca curva, que era escondida embaixo das vestes. Os sicarius eram uma milícia organizada que foi formada na Judeia ocupada pelos romanos e apunhalavam alvos previamente escolhidos em meio à multidão das festas.

Mourão recebeu o apelido para se tornar uma figura ainda mais intimidadora no contexto da “Turma”.

Vorcaro afirma respeitar a imprensa

A assessoria de imprensa de Vorcaro disse, por meio de nota, que “jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que suas mensagens foram tiradas de contexto”. Ele informou ainda “respeitar o trabalho da imprensa e se relacionar com diversos jornalistas”.

Disse ainda que, se alguma mensagem sua poderia ser lida como agressiva, que foi algo dito “em tom de desabafo, em privado, sem qualquer objetivo de intimidar quem quer que seja” e declarou ainda que jamais daria ordens para serem cometida agressões.

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