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Sistema S

Senai e Sesi questionam decreto de Bolsonaro que obriga divulgação de gasto com salário

    • Folhapress
    • 13/05/2019 18:05
    O presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL).
    O presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL).| Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo

    Um decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro obriga as entidades Sistema S a detalhar gastos com salários e serviços prestados à sociedade. Pegas de surpresa, organizações do sistema reclamam de falta de diálogo. Três das nove entidades -Senai, Sesi e Sescoop- estudam questionar as normas na Justiça.

    O decreto de Bolsonaro, publicado na sexta-feira de 3 de maio, seria o primeiro passo para abrir o que chama de caixa-preta do Sistema S, que terá de obedecer às mesmas regras de transparência do setor público impostas pela LAI (Lei de Acesso à Informação). As regras entram em vigor em 90 dias.

    As entidades deverão apresentar, em seus sites, todas as informações antes mesmo de um pedido formal de esclarecimentos. Senai e Sesi, por meio da CNI (Confederação Nacional da Indústria), dizem que a medida é inconstitucional.

    Orientação de Paulo Guedes

    O decreto foi feito por orientação dos ministros Paulo Guedes (Economia) e Wagner de Campos Rosário (Controladoria-Geral da União).

    Auxiliares do presidente dizem acreditar que a abertura dos dados poderá revelar que algumas dessas entidades pagam salários muito elevados. Essas remunerações são custeadas com contribuições compulsórias. Os tributos incidem sobre as folhas de pagamentos das empresas.

    Guedes já avisou que pretende cortar parte desses encargos. Ele disse que é preciso "meter a faca" na Sistema S.
    O Ministério da Economia trabalha na formulação de contratos de gestão para participar da administração desses recursos. Em 2018, a Receita Federal repassou R$ 17,1 bilhões às entidades.

    Integrantes do governo afirmam que as organizações deveriam seguir os limites impostos aos órgãos públicos, como o teto do funcionalismo (R$ 39 mil) e a vedação de nepotismo.

    A publicação do decreto é mais um capítulo da guerra travada entre a equipe econômica e as entidades. Elas alegam que os recursos são privados, pagos pelas empresas a organizações que as representam. Especialistas, porém, discordam desse argumento e elogiam a iniciativa do governo.

    "Óbvio que o dinheiro é público, o repasse é obrigatório. Há natureza tributária", diz Vanessa Canado, diretora do C.CiF (Centro de Cidadania Fiscal), pesquisadora do Insper e professora de direito tributário da FGV.
    Ela lembra que o Estado impôs a cobrança das contribuições. A maior parte das entidades foi criada nos anos 1940.

    "Se o dinheiro fosse privado, as empresas teriam a liberdade de recolher ou não", afirma Canado. "A importância do decreto para a transparência é fundamental."

    Por pressão do governo, o TCU (Tribunal de Contas da União) baixou, no dia 30 de abril, uma norma determinando que o Sistema S adote, em um ano, o padrão do serviço público em sua contabilidade.

    As entidades alegam que já prestam contas, expõem seus dados, estão adequadas às decisões do tribunal e cumprem boa parte das regras contidas no decreto de Bolsonaro.

    Consultor e especialista em transparência, Fabiano Angélico afirma, no entanto, que a divulgação de informações pode não ser suficiente.

    "Existe uma confusão entre transparência e comunicação institucional, entre transparência e prestação de contas. Transparência é muito mais do que isso", diz Angélico.

    Segundo ele, não basta publicar um relatório com balanços e atividades. "O conceito de transparência é aquilo que permite a um outsider [leigo] observar, controlar e compreender bem as ações de um insider [gestor]", explica.

    Além de buscar mais publicidade para os recursos do Sistema S, a equipe do ministro Guedes pretende direcionar o trabalho dessas entidades e reduzir seu tamanho.

    A ideia é fazer um corte de 30% nas contribuições das empresas. As entidades que não aderirem aos contratos de gestão poderão sofrer restrições maiores, de até 50%.

    O governo quer aproveitar o acesso amplo às informações para mapear custos de serviços considerados essenciais, prestados pelas entidades. A equipe econômica, com isso, pretende evitar que o corte afete a prestação de serviços e fique circunscrito ao que integrantes da equipe econômica chamam de gordura.

    Pelo decreto, o Sistema S deverá apresentar informações sobre licitações realizadas e em andamento.
    Será exigida a divulgação de editais, anexos e resultados. Terão de ser expostos ainda contratos e notas.

    Além dos salários divulgados individualmente, também ficará mais fácil o acesso público a dados sobre auxílios, ajudas de custo, jetons e quaisquer vantagens financeiras.

    As novas regras de enquadramento na LAI não isentarão as entidades de prestar contas aos órgãos de controle a que já estão submetidas, como a CGU e o TCU.

    Segundo o decreto, um ato conjunto de Guedes e Rosário "disporá sobre o detalhamento mínimo exigido para a divulgação das informações previstas".

    Transparência

    O Sistema S diz que tem informações transparentes, com amplo acesso à sociedade. As entidades afirmam que publicam dados detalhados em seus portais da transparência, independentemente do novo decreto do presidente Jair Bolsonaro.

    As organizações também dizem atender a leis e determinações da CGU (Controladoria-Geral da União) e do TCU (Tribunal de Contas da União). A CNI (Confederação Nacional da Indústria), que responde por Senai e Sesi, afirma, em nota, que já estão sob análise "medidas judiciais cabíveis" contra o decreto.

    Segundo a confederação, o decreto é ilegal e fere a Constituição. A CNI, porém, diz que está aberta ao diálogo com o governo Bolsonaro.

    Confederações podem ajuizar ações diretamente no STF

    Segundo a CNI, o decreto extrapola a regulamentação da LAI (Lei de Acesso à Informação) e "acaba por desrespeitar o princípio da separação dos Poderes", ao tratar de matéria reservada ao Legislativo.

    O Sesi e o Senai, para a confederação, são entidades privadas e não pertencem à estrutura estatal. A CNI diz que seus recursos, apesar de compulsórios, não integram o Orçamento da União.

    As duas entidades, "com a máxima transparência", diz a CNI, divulgam informações sobre orçamentos, receitas, execução de despesas, estrutura remuneratória, relação de empregados e dirigentes, licitações, contratos e balanços.

    O Sescoop, ligado à OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), também estuda ações judiciais contra as novas regras. Segundo a entidade, não houve negociação para se debater o decreto.

    "O mote da LAI é a transparência, é um dos princípios. Já cumprimos grande parte do que está no decreto", diz o assessor jurídico do Sescoop Aldo Guedes. Segundo ele, a entidade publica contratos, balanços e serviços prestados.
    O Sest e o Senat (entidades da área dos transportes), em nota, dizem que, "em uma sociedade democrática, o cidadão tem direito à informação de interesse público".

    "Todavia, o governo poderia ter estabelecido um diálogo aberto com as entidades envolvidas, justamente para sacramentar o aspecto democrático do decreto", afirmam.

    Trimestralmente são atualizados dados sobre orçamento, gestão, demonstração contábil, transferências de recursos, licitações e editais, contratos (os dez maiores firmados no período), serviços gratuitos prestados, relação de membros, entre outros.
    Apesar da crítica à falta de diálogo, Sest e Senat dizem que vão se esforçar para cumprir as novas regras.
    A CNC (Confederação Nacional do Comércio), que responde por Sesc e Senac, também diz que não foi consultada pelo governo Bolsonaro sobre a medida e ainda está analisando o assunto.

    A entidade afirma que as instituições têm natureza privada e cumprem as exigências de prestação de contas. Segundo a CNC, as informações também estão sujeitas "a rigorosos controles internos dos conselhos fiscais e de auditorias".
    O Sebrae (micro e pequena empresas) informa, em nota, que também não participou da discussão sobre o decreto. A entidade vai se ajustar às regras definidas pelo decreto.

    "O Sebrae realizará estudos para identificar a melhor forma de disponibilizar as informações que ainda não são disponibilizadas, mas seguirá o que diz a lei", afirma.

    A entidade diz ainda "adotar as melhores práticas de transparência e compliance, inclusive apoia os pequenos negócios neste sentido".

    O Sistema S também é composto pelo Senar (agricultura), que não respondeu à reportagem. A entidade está ligada à CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

    8 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
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    Comentários [ 8 ]

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    • A

      andrea silva

      ± 2 dias

      A CNI ajuizar ação? Enquanto outras entidades optaram por seguir as novas normas? Realmente, agora mais que nunca é preciso abrir as contas. Quem eles PENSAM que são para achar ruim a cobrança de transparência e auditoria por parte da sociedade? Se depender de mim, eu mesma poderia citar diversos cabides, favorecimentos e nepotismos dentro da FIEP, talvez seja esse o temor deles... que a sociedade descubra!

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    • C

      CARLOS RF

      ± 2 dias

      Vamos abrir mais esta caixa preta. Times de volley em várias cidades do Brasil com salários astronômicos. Quem paga conta? Lavagem de dinheiro? Tem que apurar. Aliás, depois que o governo disse que iria abrir esta caixa preta, resolveram sair Brasil agora oferecendo em praças públicas cursos gratuitos. Até então poucos tinham estas informações.

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    • O

      Otto Cembranelli

      ± 2 dias

      Na realidade o Sistema S é uma entidade administrada pelos Sindicatos Patronais, pois quem elege os presidentes das confederações são os presidentes dos sindicatos patronais. As empresas são obrigadas a pagar ao Sistema S até 4.5% sobre o salário de todos os trabalhadores registrados tendo ou não unidades na cidade onde a empresa ou o trabalhador resida.

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    • M

      Mitinho

      ± 2 dias

      O desconto e as contribuições são reguladas por Lei. Em consequência, estão sujeitas ao que dispõe a LAI e demais instrumentos aplicáveis ao princípio. E há sim o que investigar e punir no sistema S; Sebrae é um deles.

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    • H

      helio marcengo

      ± 3 dias

      Gastos com dinheiro público tem que ser publicado. Transparência. Porque não querem divulgar? Aí tem coisa!

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    • F

      Freitas

      ± 3 dias

      Bando de hipócritas. Apresentem as suas "mordomias" e parem de encher o sakkko. Ninguém aguenta mais essas ilhas de corrupção.

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    • F

      Freitas

      ± 3 dias

      Bando de hipócritas. Apresentem as suas "mordomias" e parem de encher o sakkko. Ninguém aguenta mais, essas ilhas de corrupção.

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    • D

      Diz

      ± 3 dias

      Temem abertura da caixa preta. Por será?

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