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O russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, apontado por autoridades do Brasil, da Holanda e dos EUA como agente da inteligência militar da Rússia, pediu para ficar em isolamento após ser assediado por integrantes da facção criminosa PCC. É o que consta em um relatório da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) encaminhado à Gazeta do Povo pela assessoria de imprensa do Ministério Público Federal.
A investigação teve início em 2024, após um pedido de familiares do russo ao Alto Comissariado de Direitos Humanos da Rússia, que por sua vez foi procurado por familiares de Cherkasov. Sua mãe suspeitava de maus-tratos em função da dificuldade que tinha em contatá-lo – não houve contato desde a transferência à penitenciária federal de Brasília.
Greve de fome
Os fatos apurados pela PFDC indicaram que Sergey não teria sofrido, ele próprio, maus-tratos sob a custódia de agentes brasileiros, mas relatou o que percebeu como atos de pressão psicológica, como a “retirada de revistas, palavras cruzadas, folhas escritas em russo, correspondências e formulários usados para fazer pedidos à administração penitenciária”.
Como forma de reverter a privação dos materiais, o russo realizou uma greve de fome, diz o relatório, que foi repassado em forma de resumo à Gazeta do Povo. O russo fez ainda reclamações sobre pouca exposição à luz solar e a redução da iluminação na cela, o que lhe impossibilitaria de ler.
Pedidos do PCC
O caso do suposto assédio por membros do PCC, de acordo com a narrativa reproduzida pela PFDC, teria acontecido após a veiculação de uma reportagem sobre o russo em uma revista de circulação nacional. Não há detalhes sobre que tipo de pedido a facção fez ao estrangeiro.
Ele acabou isolado a pedidos dele próprio, após um “tumulto” de grandes proporções no pátio de convivência, durante o qual um outro preso acabou gravemente ferido. Serguei passou a temer pela própria vida.
Sem contato com a mãe
Quanto ao contato externo, Cerkazov relatou que não tinha família no Brasil, recebia apenas representantes do Consulado da Rússia e nunca tinha conseguido falar diretamente com sua mãe desde a sua transferência para Brasília.
Disse ainda que não conseguia enviar cartas para a família por falta de tradutores de russo para português e que não havia realizado reuniões virtuais com seus advogados particulares de São Paulo.
Sobre seu estado de saúde durante a custódia, o russo relatou ter sentido rinite, dores articulares no pulso e na panturrilha. A queda de uma obturação teria lhe causado forte dor de dente e foi solicitado atendimento odontológico emergencial.
Repercussão internacional
O caso ganhou repercussão internacional em 2022, quando Cherkasov tentou ingressar na Holanda utilizando a identidade falsa de Victor Muller Ferreira, supostamente um brasileiro nascido em Niterói (RJ).
Segundo a inteligência holandesa, ele buscava assumir um estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, onde teria acesso a investigações sobre crimes de guerra atribuídos à Rússia na invasão da Ucrânia. Ele acabou preso no mesmo ano pela Polícia Federal (PF) do Brasil.
Em 2023, as investigações apontaram que o russo chegou ao Brasil em 2010 e ele havia construido, ao longo de anos, uma identidade falsa de cidadão brasileiro.
Com documentação falsa, obteve passaporte brasileiro, estudou no exterior e circulou por diversos países antes de ser descoberto. A inteligência da Holanda classificou Cherkasov como um agente "ilegal" — espiões treinados durante anos para atuar sob identidades falsas em países estrangeiros.
Expulsão do Brasil
O Ministério da Justiça determinou, no início de julho, a expulsão do russo através de portaria no Diário Oficial da União, estabelecendo que ele ficará proibido de retornar ao Brasil por 30 anos. A expulsão só será cumprida após o término da pena ou caso haja autorização da Justiça para sua liberação.
Cherkasov é acusado de integrar um programa russo de longo prazo que utiliza o Brasil como plataforma para espionagem internacional. Esses agentes vivem no país por anos, aprendendo a língua e a cultura.
Cherkasov chegou a ter namorada no Brasil e a fazer aulas de forró para parecer um brasileiro comum. As investigações sobre o que ele fez no país ainda não foram concluídas.
O caso também virou uma disputa diplomática. Em 2023, os Estados Unidos solicitaram a extradição de Cherkasov, acusando-o de atuar como agente de inteligência em território americano e de cometer crimes como fraude bancária e fraude em vistos.
Paralelamente, a Rússia também pediu sua extradição, alegando que ele respondia a um processo por tráfico de drogas. O pedido russo gerou a suspeita de que ele teria respaldo de autoridades do seu país.
O governo brasileiro acabou rejeitando o pedido americano e manteve o processo de extradição para a Rússia, cuja execução dependeria da conclusão dos processos em curso no Brasil.






