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A decisão dos Estados Unidos de não renovar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, impede a diplomata de representar os interesses nacionais no país. O ato marca o ponto mais grave de uma crise bilateral com os EUA que deve se estender até as eleições de outubro.
A avaliação é de diplomatas, parlamentares e analistas internacionais ouvidos pela Gazeta do Povo para entender o significado e os desdobramentos da medida.
A revogação do visto costuma vir acompanhada da declaração de persona non grata — decisão drástica que forçaria a chefe da missão diplomática a retornar ao Brasil. Embora não seja o caso de Viotti no momento, este seria o passo seguinte caso a relação entre os dois países se deteriore ainda mais.
Novas retaliações não estão descartadas, como sanções econômicas e o cancelamento de vistos de outras autoridades brasileiras. “Só vai piorar”, disse à Gazeta do Povo o deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara.
Um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA comunicou a revogação do visto de Viotti nesta terça-feira (4), em reunião reservada com jornalistas. Segundo o representante americano, a medida responde à recusa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em conceder o aval diplomático formal (conhecido como agrément) ao indicado do presidente Donald Trump para a embaixada em Brasília, o deputado republicano Daniel Perez, além do veto de visto a diplomatas americanos este ano.
Em nota, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República declarou que o governo brasileiro repudia a medida e classificou as justificativas como “falsas”. O Palácio do Planalto argumentou que a tradição diplomática exige sigilo no processo: “O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4º da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas”.
O Palácio do Planalto sustenta ainda que dois funcionários americanos que tiveram vistos negados em julho “planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”. A nota mencionou também que autoridades brasileiras, incluindo ministros do Executivo e do Supremo Tribunal Federal (STF), tiveram vistos cancelados “com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro”.
“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”, afirmou o governo.
Para Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da FGV, Brasília tenta se defender do que considera uma tentativa de Washington de desacreditar o processo eleitoral brasileiro, seja questionando a integridade das urnas eletrônicas ou a isenção do Judiciário.
Na avaliação do pesquisador, o impasse deve durar ao menos até as eleições. “Se Flávio Bolsonaro vencer, restabelece a relação rapidamente e, após a posse, nomeia outro embaixador do agrado do governo Trump. Se Lula se reeleger, é difícil saber se Trump manterá a embaixadora sem credenciamento ou se começará a conversar novamente com o governo brasileiro. A medida está inserida no contexto de pressão americana sobre a eleição no Brasil”, analisa.
O pesquisador avalia, por outro lado, que a revogação do visto pode integrar uma estratégia de pressão comercial da diplomacia americana. “A política de Marco Rubio [secretário de Estado] é de forte pressão: adota-se uma medida dura para, em seguida, abrir negociação. Foi o que ocorreu quando anunciaram a taxação e, depois, enviaram um pacote de propostas para isentar serviços digitais e restringir o comércio com a China em troca da revisão das tarifas”, explica.
Desde o início do segundo mandato de Trump na Casa Branca, em 2025, a relação bilateral vem se deteriorando. Washington vê com desconfiança o alinhamento de Lula com regimes autoritários, a aproximação política com a China e a proposta de substituir o dólar no comércio internacional. O governo brasileiro, por sua vez, resgatou a retórica de que os EUA voltaram a adotar uma postura imperialista para dominar a América Latina e favorecer governos de direita.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da ApexBrasil e do Senado, critica a reação de Brasília. Para ele, falta pragmatismo ao lidar com a Casa Branca, o que traz prejuízos à economia nacional.
“Embora a ausência de um prazo estrito para a análise do agrément seja verdadeira, o represamento prolongado da anuência e o veto a funcionários americanos extrapolam a cortesia internacional, transmitindo uma imagem de omissão e má vontade”, pontua Coimbra. “Ao optar por um tom público confrontacional — acusando os EUA de motivações ideológicas —, a diplomacia do governo Lula abandona os canais de negociação velados e agrava o desgaste de imagem do Brasil em Washington.”
Coimbra prevê que o aval para o novo embaixador americano só seja concedido após as eleições. Até lá, a tendência é que a representação brasileira na capital americana permaneça sem comando titular. “Isso gera um isolamento funcional da representação brasileira e enfraquece a interlocução direta em temas econômicos e comerciais prementes”, afirma.
Mesmo que o Brasil conceda o aval a Perez após o pleito e Viotti recupere o visto, o episódio “deixará cicatrizes permanentes na confiança mútua”, avalia o analista. “Para a diplomacia americana, usar o rito diplomático formal como instrumento de sinalização política interna demonstra falta de pragmatismo, reduzindo a credibilidade do país e sua margem de manobra em futuras negociações bilaterais.”
Em um cenário de reeleição de Lula e aprofundamento do impasse, os EUA poderiam adotar medidas mais duras. “A Casa Branca poderia adotar retaliações comerciais seletivas ou suspender acordos bilaterais de cooperação tecnológica e de defesa. A insistência em uma postura de confrontação pública, em detrimento do profissionalismo histórico do Itamaraty, expõe o país a custos desproporcionais e evidencia os riscos de se afastar do pragmatismo institucional”, conclui Coimbra.




