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Amostras para testes do coronavírus.
Identificada inicialmente na Índia em outubro de 2020, a variante Delta já se espalhou por 124 países, segundo a OMS| Foto: Jose Fernando Ogura

O Brasil vê um número crescente de casos da variante Delta do coronavírus, cientificamente batizada de B.1.617.2 e também conhecida como cepa indiana. Segundo o Ministério da Saúde, oficialmente são 135 registros dessa variante mais contagiosa e mais resistente à primeira dose das vacinas contra a Covid-19. Mas os números podem ser bem maiores, pois a prevalência da variante Delta já é de quase 12% no país, segundo levantamento da Covariants.org, plataforma que reúne o trabalho de especialistas de todo o mundo sobre as mutações do coronavírus.

Se os 12% de prevalência forem extrapolados para os novos casos do país, isso significa 4,5 mil infecções diárias causadas pela variante Delta (levando em conta nesse cálculo a média móvel de registros de infectados no Brasil, que foi de 37,9 mil na quarta-feira, dia 21).

O levantamento da Covariants.org mostra que a prevalência da nova cepa tem crescido de forma rápida no Brasil. No dia 13 de julho, 2,1% das amostras de coronavírus que passaram por sequenciamento genômico no país eram da Delta. Já no dia 15, o porcentual subiu para 5,9%. No dia seguinte, a prevalência da Delta em relação às outras variantes no Brasil já havia saltado para 9,8%. E chegou a 11,9% no dia 17.

Há, contudo, uma ponderação a ser feita. O resultado do sequenciamento genômico costuma demorar semanas para ficar pronto. Isso indica que os números de prevalência da Delta são recortes do passado, e não do momento atual. Como tudo indica que a variante indiana está numa trajetória de crescimento no país, isso pode indicar que o número de casos é ainda maior que os 12% identificados pelo levantamento da plataforma Covariants.org.

O número oficial, de apenas 135 registros da cepa indiana, é bem menor porque eles se referem apenas às amostras coletadas em todo o país que são enviadas para o sequenciamento genômico – o teste que permite identificar qual é a variante. A questão é que apenas uma parcela muito pequena dos testes confirmados de coronavírus no país é enviado para o sequenciamento genômico.

Como esse é um teste mais complexo do que um exame convencional de Covid, a ideia é sequenciar apenas uma amostra estatística que permita indicar quais são as cepas em circulação no país para direcionar ações de combate mais eficazes. O objetivo nunca foi identificar a cepa de todos os casos confirmados de coronavírus.

Mas, quando se identifica o porcentual de 12% de prevalência da variante Delta nas amostras, estatisticamente é possível extrapolar esse dado para todos os casos de coronavírus registrados no país – desde que as amostras coletadas representem de forma relativamente fiel o perfil da população infectada.

Mas o Ministério da Saúde, por enquanto, não divulga dados oficiais do número total de testes do sequenciamento genômico do coronavírus realizados no país, da prevalência da variante Delta e da estratificação precisa das amostras. Essas informações poderiam embasar uma estimativa oficial do número de infectados com essa cepa no Brasil.

A Fiocruz, que é o órgão que centraliza o sequenciamento genômico no país, também ainda não divulga dados da prevalência da variante Delta em todo o país.

Mas, de acordo com dados atualizados no dia 15 de julho pela Rede Genômica Fiocruz, que engloba as unidades da fundação localizadas em 11 estados brasileiros, até esse período haviam sido realizados nos laboratórios da fundação 5.679 sequenciamentos do genoma do coronavírus, além de 17.730 feitos realizados por outras instituições. No total, foram 23.409 exames desde fevereiro de 2020 para um total de 19,26 milhões de casos do coronavírus confirmados até aquela data. Isso significa que apenas 0,12% do total de casos de Covid foi sequenciado.

Segundo a Fiocruz, os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) de cada estado escolhem as amostras que serão enviadas para a realização do sequenciamento. Normalmente são selecionadas aquelas que, nos testes de diagnóstico de PCR, apresentam quantidades altas do vírus, o que aumenta a chance do sequenciamento ser bem-sucedido. Além disso, as amostras devem ser representativas por semana epidemiológica, incluindo casos não graves, graves e de óbito, distribuídas geograficamente pelo país.

Quais são os estados com casos confirmados da variante Delta

O Ministério da Saúde tem divulgado apenas o número de casos registrados da variante Delta identificados em cada unidade da federação. Até a quarta-feira (21), eles estavam distribuídos da seguinte maneira: 6 casos no Maranhão, 1 em Minas Gerais, 13 no Paraná, 2 em Goiás, 10 em São Paulo, 2 em Pernambuco, 5 em Santa Catarina, 3 no Rio Grande do Sul, 6 no Distrito Federal e 87 no Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro é o estado com o maior número de casos confirmados da nova variante; e isso está diretamente ligado ao maior número de testagens. O estado tem um dos maiores programas de vigilância genômica da Covid-19 de todo o país. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde, na última rodada de exames, a Delta foi encontrada em 63 (16,57%) das 380 amostras processadas no estado.

Os dados mostram também que 78% das amostras sequenciadas no Rio foram da variante P.1 (também chamada de variante Gama ou amazônica), que atualmente é a de maior circulação em território nacional.

Ministério da Saúde não informa plano de controle detalhado

O Ministério da Saúde não informou à Gazeta do Povo se tem um plano específico para controlar a entrada e a disseminação da variante Delta no país. Mas garante que os casos notificados e seus respectivos contatos são monitorados pelas equipes de Vigilância Epidemiológica e Centro de Informações Estratégicas em Vigilância e Saúde (CIEVS) estaduais, conforme orientação do Guia Epidemiológico da Covid-19.

“O Ministério reforça que tem orientado estados e municípios sobre todas as ações necessárias, como intensificar o sequenciamento genômico das amostras positivas para a Covid-19 e a vigilância laboratorial, rastreamento de contatos, isolamento de casos suspeitos e confirmados, notificação imediata e medidas de prevenção em áreas de suspeita de circulação de variantes”, informa o Ministério da Saúde em nota.

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Variante Delta já é dominante em vários países

Identificada inicialmente na Índia em outubro de 2020, a variante Delta já se espalhou por 124 países, segundo o último boletim epidemiológico semanal divulgado em 20 de julho pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS classifica essa nova cepa como “variante de preocupação” em razão da sua alta taxa de transmissão – 97% maior do que o coronavírus original, identificado na China no fim de 2019.

Segundo a OMS, até o dia 20 de julho, um total de 2,41 milhões de amostras de casos confirmados de coronavírus de vários países foram submetidas ao rastreamento de um banco de dados internacional (GISAID), que fornece dados abertos sobre exames de sequências genômicas realizados ao redor do mundo. Cerca de 220 mil (9%) dessas análises foram confirmadas como sendo da variante Delta.

De acordo com o órgão, essa rápida propagação pode fazer com que essa nova cepa se torne dominante em pouco tempo, o que já vem ocorrendo em vários países. “Com base na vantagem de transmissão estimada da variante Delta, espera-se que ela supere rapidamente outras variantes e se torne a linhagem dominante em circulação nos próximos meses”, alerta a OMS.

A instituição aponta que a prevalência de Delta entre as amostras sequenciadas nas últimas quatro semanas excedeu 75% em em países como Austrália, Bangladesh, Botswana, China, Dinamarca, Índia, Indonésia, Israel, Portugal, Rússia, Singapura, África do Sul e Reino Unido.

No Brasil, por enquanto a variante dominante ainda é a Gama (P.1 ou amazônica).

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