Presidente eleito da Argentina, Javier Milei, teve apoio da direita brasileira. Deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) esteve na Argentina para acompanhar a votação neste domingo (19)| Foto: Reprodução/X/Eduardo Bolsonaro
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As reações de políticos de direita e de eleitores alinhados à oposição ao governo de Luís Inácio Lula da Silva (PT) diante da eleição de Javier Milei para a Presidência da Argentina revelam a esperança de uma reviravolta semelhante no Brasil em 2026. Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o impacto na política brasileira da vitória do libertário argentino nas urnas do último domingo (19) ainda é simbólico, alimentando o ânimo do público conservador, a começar com as eleições municipais do próximo ano. Também traz o potencial de favorecer a volta das manifestações nas ruas.

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A avaliação geral é que a chegada do opositor antissistema à Casa Rosada trará importantes desafios à gestão petista, considerando as duras críticas do presidente eleito da Argentina ao Mercosul e à figura de Lula. Além disso, a oposição brasileira usará o exemplo de Milei como uma reação da sociedade contra o populismo de esquerda. A derrota do seu adversário Sergio Massa, ministro da Economia, em meio ao descontrole da inflação, das finanças públicas e da pobreza, trarão subsídios, bem como o apoio que o governista argentino recebeu do PT e do Planalto.

“A princípio, a oposição tentará se agarrar à imagem de Milei, sobretudo durante o clima de lua de mel que todo recém-eleito desfruta. A estratégia buscará maximizar a relevância do papel dele, mas ela também embute riscos, caso o desempenho do novo presidente argentino decepcione”, avaliou André Felipe Rosa, professor de Ciência Política da UDF. Por outro lado, se o libertário argentino conseguir imprimir um outro rumo aos indicadores econômicos do país vizinho, hoje todos crescentemente negativos, “a imagem da direita ressurge junto com a adesão social”.

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Oposição do Brasil acompanha de perto os movimentos de Milei

Apesar da campanha do medo, que contou com a ajuda de marqueteiros do PT, Milei teve 56% dos votos, e Massa 44%. O governista sequer esperou o resultado oficial para reconhecer a derrota e parabenizar o adversário do libertário. Milei já iniciou nesta segunda-feira (20) a transição de governo que inaugurará no próximo mês.

Ele adiantou no discurso da vitória que o país precisa de medidas drásticas, “sem gradualismo e tibieza”. Restou a Lula elogiar o processo democrático argentino, mas sem citar o nome do presidente eleito.

A oposição brasileira, por sua vez, acompanha de perto cada movimento do libertário, desde o primeiro turno das eleições. Dentre os parlamentares que foram à Argentina acompanhar o processo, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) é o que mantém contato mais permanente.

Diante do fracasso dos partidos tradicionais em estabilizar a economia, a Argentina rompe pela primeira vez com a política tradicional, associada a vícios e corrupção, após 40 anos de redemocratização. Para analistas, as propostas tidas como extravagantes de Milei, como acabar com o Banco Central e o peso argentino, dolarizando a economia de um país que não tem reservas cambiais suficientes, mas cujo povo faz poupança em moeda americana, terão desdobramentos imprevisíveis.

Onda favorável ainda pode ser reforçada por vitória de Trump

Natália Fingermann, professora de relações internacionais do Ibmec-SP, destacou a vitória expressiva de Milei em províncias que elegeram Massa no primeiro turno a prova do cansaço da população com a política tradicional. “A reviravolta não é fruto apenas da retórica, que inclui ameaças de rompimentos com Brasil e China. É algo bem maior”, disse. Diante da necessidade de ter apoio congressual para fazer mudanças, ela considera inevitável a composição do novo governo com a direita tradicional e não vê chance de rompimento de relações econômicas com o Brasil, devido à dependência mútua, sobretudo na indústria automotiva.

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De toda maneira, há, na sua visão, novo ambiente a ser explorado pela oposição brasileira, que pode significativamente ser reforçado com uma eventual vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2024. Não por acaso, o próprio ex-presidente americano comemorou a vitória de Milei, bem como a direita no Brasil.

Nas redes sociais, políticos mencionaram a “derrota do Foro de São Paulo” e fizeram suas apostas de uma nova onda contra os governos esquerdistas nas Américas. “A esperança volta a brilhar na América do Sul. Que esses bons ventos alcancem os Estados Unidos e o Brasil para que a honestidade, o progresso e a liberdade voltem para todos nós”, manifestou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas redes sociais. Ele deverá estar presente à posse do presidente argentino, no próximo dia 10.

Parlamentares, como os senadores Sergio Moro (União-PR), Ciro Nogueira (PP-PI) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os deputados Marcel Van Hattem (Novo-RS), Ricardo Salles (PL-SP), Nikolas Ferreira (PL-MG), Carol de Toni (PL-SC), Júlia Zanatta (PL-SC) e Bia Kicis (PL-DF), além do advogado do ex-presidente Bolsonaro, Fabio Wajngarten, expressaram euforia com a eleição de Milei.

Wajngarten até previu o retorno da direita ao Planalto em 2026, destacando os “ensinamentos” das eleições na Argentina. Em sua análise, ressaltou que a autenticidade de Milei e seu discurso alinhado com os desejos da maioria da população foram determinantes para a vitória, relegando a importância de recursos financeiros e apoio midiático e governamental. Além disso, observou que a decisão da população de participar ativamente nas urnas, em vez de se abster, teve papel crucial.

Vitória de Milei pode favorecer a volta das manifestações nas ruas

O cientista político argentino Leandro Gambiati, diretor da Dominium Consultoria, avalia que a vitória de Milei já proporcionou mais equilíbrio ao mapa ideológico dos governos da América do Sul, antes mais inclinado à esquerda. Ele acha natural que os líderes da direita do Brasil e sobretudo Bolsonaro e seus aliados comemorem a vitória da oposição na Argentina, buscando explorar seus aspectos imediatos.

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“Esse resultado serve como combustível para que o grupo político afetado pela derrota nas eleições presidenciais e pela repercussão negativa dos atos de 8 de janeiro retome seu poder de mobilização”, disse. Gambiati acredita que os primeiros sinais de recuperação já começaram antes, com a volta “aos poucos” das manifestações de rua, tal qual o último 15 de novembro e 12 de outubro.

“O simbolismo das urnas argentinas é forte, mas é bom lembrar que cada eleição reflete o sentimento da população em determinado momento. Lá, a revolta contra o empobrecimento e a corrupção pesou contra o governo. Aqui, precisamos ainda avaliar as reais expectativas de poder”, concluiu.