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Voo das Bets com parlamentares amplia debate sobre laços entre autoridades e investigados

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) durante sessão no plenário. (Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados)

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A presença do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do presidente do PP, Ciro Nogueira (PP-PI), e outros parlamentares um jatinho pertencente a um empresário que foi investigado na Comissão Parlamentar de Inquérito das Bets, está levantando questionamentos sobre isonomia, imparcialidade e possíveis conflitos de interesse.

A viagem ocorreu no auge das investigações sobre o setor de apostas no país, ainda em 2025. Mas só veio à tona na semana passada com a evolução de uma investigação policial sobre o fato de malas embarcadas no voo não terem sido inspecionadas pela Receita Federal ao entrar no Brasil.

“A ausência de informações detalhadas sobre a agenda dos parlamentares durante a estadia na ilha [de São Martinho, no Caribe] intensifica as dúvidas”, avalia o sociólogo Murilo Carvalho. O período coincidiu com a fase final da CPI das Bets, que funcionou de novembro de 2024 a junho de 2025. Naquele período ainda havia coleta de informações e articulações sobre o relatório final estavam em andamento.

A comissão investigava o mercado de apostas online, incluindo a atuação de empresas, plataformas digitais e influenciadores. Entre os investigados estava o dono do avião, um empresário que retratado como figura central no mercado de apostas online.

O empresário das Bets disse na época da CPI que sua empresa estava autorizada a operar no país e cumpria as normas impostas pelo governo. A reportagem não conseguiu localizar o empresário ou seus representantes para comentar o caso.

O relatório da CPI, que chegou a propor o indiciamento de 16 pessoas, entre elas o próprio empresário, acabou rejeitado, encerrando os trabalhos sem aprovação de medidas formais.

Além de Motta e de Ciro Nogueira, estavam no voo os deputados federais Dr. Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).

Para especialistas, o episódio vai além de uma simples viagem internacional. “O principal questionamento é: o que quatro parlamentares faziam a bordo de uma aeronave que pertence a ele [o empresário citado na CPI]? O que foram fazer na ilha caribenha? As malas deles passaram pelo raio-X?”, questiona a doutora em direito público Clarisse Andrade.

A ilha de São Martinho é um destino conhecido no Caribe pela intensa vida noturna, cassinos e turismo de luxo, frequentemente apelidado de “Las Vegas do Caribe” e classificado como paraíso fiscal por autoridades brasileiras. Procurados, os parlamentares não responderam aos questionamentos da Gazeta do Povo.

O questionamento amplia a discussão do escândalo do Banco Master, no qual a Polícia Federal investiga o ex-banqueiro Daniel Vorcaro pela possível compra de influência de autoridades dos três poderes da República.

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A viagem teve início em 13 de abril, com saída do Aeroporto Executivo Catarina, em São Paulo, e retorno no dia 20, totalizando cerca de uma semana fora do país.

Ao todo, 16 pessoas estavam a bordo, segundo registros da Polícia Federal. Embora não haja confirmação oficial sobre a presença do próprio empresário no voo, a utilização de sua aeronave por parlamentares com influência direta sobre pautas legislativas sensíveis ampliou a repercussão do caso.

Nos últimos anos, o empresário passou a ser associado a discussões no Congresso sobre possíveis irregularidades envolvendo plataformas de jogos online, embora sua defesa tenha com frequência reiterado que o ele atua de forma legal. Segundo a CPI, havia suspeitas de movimentações financeiras destinadas a ocultar a origem de recursos, o que é negado por sua defesa.

O retorno ao Brasil adicionou novos elementos ao caso. O voo pousou no Aeroporto Catarina na noite de 20 de abril de 2025. Pouco depois, Hugo Motta deixou o local em uma aeronave da Força Aérea Brasileira com destino a Brasília. O presidente da Câmara confirmou à Folha de S. Paulo presença no voo e afirmou ter cumprido os procedimentos legais no desembarque, mas não esclareceu se a viagem tinha caráter oficial. Os demais parlamentares não se manifestaram.

“Essa situação reforça discussões sobre conflito de interesses e transparência. Existem muitas lacunas que precisam ser esclarecidas”, completa Murilo Carvalho. Mesmo sem comprovação de irregularidades diretas, analistas apontam que o simbolismo do episódio, parlamentares em um destino associado a jogos, a bordo de aeronave de um empresário investigado, gera desgaste político inevitável.

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Investigação sobre bagagens amplia suspeitas

Paralelamente à viagem, a Polícia Federal investiga a entrada no país de cinco bagagens que não teriam passado pelo raio-X no desembarque. O caso foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal e está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

A apuração envolve possíveis crimes como facilitação de contrabando, descaminho e prevaricação. Segundo os investigadores, ainda não é possível determinar a origem ou o conteúdo das bagagens, tampouco a quem pertenciam. No entanto, a hipótese de envolvimento de autoridades com foro privilegiado não foi descartada, o que levou o caso ao STF.

Além da investigação técnica, especialistas destacam que o ponto central permanece político: quem estava no voo, em que contexto e quais eram os vínculos entre os participantes e o empresário responsável pela aeronave.

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