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O ex-banqueiro Daniel Vorcaro tem revelado que está se afastando da possibilidade de apresentar uma terceira proposta de colaboração premiada.
Essa foi a impressão deixada a investigadores após depoimento prestado à Polícia Federal, na quarta-feira (30), em uma das frentes do Caso Master que envolve o grupo que ficou conhecido como “A Turma”.
Na avaliação de investigadores, Vorcaro não demonstrou disposição para indicar autoridades ou detalhar quem deu sustentação ao suposto esquema bilionário. Também não houve sinais de que ele pretenda expor possíveis relações com integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, incluindo ministros do STF.
Outro sinal foi dado pela defesa. Após o depoimento, o advogado do ex-banqueiro, Daniel Bialski, afirmou que a prioridade é contestar a legalidade da prisão. Vorcaro está custodiado há quase sete meses sem que tenha sido apresentada denúncia formal nem pedido de indiciamento. Segundo o advogado, a equipe jurídica não trabalha atualmente com negociações para uma delação premiada, mas uma informação da banca chamou a atenção.
Os advogados alertaram que havia informações consistentes e de elevado interesse público nas duas primeiras delações rejeitadas. Eles também disseram que se acontecer uma próxima proposta, os advogados não pretendem se manifestar sobre elas.
Na PF e na PGR prevalece o entendimento de que não há clima nem requisitos de confiabilidade para levar uma terceira proposta adiante, não no contexto atual e da forma como Vorcaro tem se portado.
Isso ficou claro durante a oitiva do dia 30. Vorcaro insistiu que não cometeu crimes, que não praticou atos de corrupção e que não existia grupo organizado para monitorar, intimidar ou perseguir autoridades, figuras públicas e jornalistas que fizeram denúncias contra o Master. Segundo sua versão, “A Turma” não realizou qualquer ação violenta nem planejou ataques.
A principal tese de Vorcaro e de sua equipe jurídica é a de que não foram cometidos crimes financeiros, atos de corrupção ou ações de organização criminosa que justificassem a busca por benefícios penais em troca de acusações em uma delação. A mudança ocorre depois de duas tentativas de negociação que não avançaram com a PF e com a PGR.
Essa terceira proposta chegou a ser cogitada nos últimos meses, mas o novo depoimento praticamente retirou essa possibilidade do radar. A estratégia atual da defesa do ex-banqueiro é concentrar todos os esforços na contestação da prisão. Em seguida, apresentar pedidos de nulidade de atos processuais que a defesa considera irregulares.
Na avaliação dos advogados, insistir em uma colaboração poderia criar uma falsa impressão de culpa sobre fatos que Vorcaro afirma não terem ocorrido ou não haver evidências suficientes para comprová-los. Ao deixar de lado essa alternativa, a defesa passou a cobrar do Ministério Público Federal e do Judiciário a definição das acusações contra o empresário.
A intenção é encerrar o que os defensores classificam como um ambiente de especulações, vazamentos seletivos e interpretações parciais sobre o caso.
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Caso Master já tem quase 250 mil páginas
Pelo menos cinco inquéritos do Caso Master somam quase 250 mil páginas nos autos. A defesa afirma que ainda não teve acesso integral ao material, principalmente documentos e informações divulgados em vazamentos.
Há cerca de duas semanas, Vorcaro teria sinalizado, de dentro da prisão, que poderia falar “tudo” sobre a rede de apoio e sustentação do Master caso seu pai, Henrique Vorcaro, não fosse transferido para prisão domiciliar. Seu pai está preso em Minas Gerais desde março no âmbito da Operação Compliance Zero e, segundo a defesa, enfrenta problemas graves de saúde. Nesta semana, essa possibilidade perdeu força.
Ministros do STF seguem protegidos
Entre os pontos de atenção estão as supostas ligações ou aproximações do ex-banqueiro com ao menos seis dos dez ministros do STF.
Documentos, mensagens do celular de Vorcaro e outros elementos reunidos nas investigações mencionam ou indicam relações ou algum tipo de aproximação com Nunes Marques, André Mendonça, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luiz Fux e Dias Toffoli.
No caso de Nunes Marques, mensagens apontariam pagamentos mensais de R$ 500 mil ao advogado Kevin Marques, filho do ministro. Os registros também fariam referência a conversas relacionadas a um julgamento de interesse do Master, além de supostos benefícios recebidos pelo magistrado, pagos por Vorcaro. O ministro e seu filho negam qualquer irregularidade.
Em relação a André Mendonça, há indicativos de um encontro com Vorcaro em março de 2025. O ministro confirmou que esteve com o ex-banqueiro e afirmou que os dois trataram de precatórios. Mendonça negou que tenha ocorrido qualquer irregularidade ou agido em favor do empresário.
Quanto a Gilmar Mendes haveria a contratação de Francisco Feitosa, seu ex-cunhado, por uma empresa ligada a Vorcaro. Também há referências a uma advogada associada a um instituto criado pelo ministro. O ministro nega ter tratado de interesses do Master e afirma que nunca atuou em favor de Vorcaro votando, inclusive, contra pautas de interesse do grupo como nos precatórios do setor sucroalcooleiro.
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Moraes tem a situação mais crítica
A situação que mais chama atenção envolve Alexandre de Moraes. O ministro aparece em diálogos identificados pela PF no celular do ex-banqueiro. Esse material deu origem a uma petição no STF, que pode levar à abertura de uma investigação contra Moraes. Até o momento não houve julgamento definitivo sobre o caso.
Também existe um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro. O escritório confirmou o contrato, mas negou irregularidade. Segundo a banca, os serviços não envolviam demandas no STF.
No caso de Luiz Fux, mensagens indicariam proximidade entre Vorcaro e o filho do ministro que é advogado. Os registros também fariam referência a despesas relacionadas a uma viagem e uma homenagem a Fux. O ministro nega ter mantido relação com o ex-banqueiro.
Dias Toffoli aparece no caso por meio de uma empresa familiar ligada ao resort Tayayá, que foi vendida a Vorcaro. Depois que seu nome surgiu em mensagens apreendidas pela PF, Toffoli deixou a relatoria do caso e declarou suspeição para votar em processos relacionados à investigação.
As circunstâncias e as possíveis responsabilidades dos ministros sequer são investigadas pelas autoridades. Investigações contra ministros precisam ser autorizadas pela própria Corte, portanto, nenhum deles é investigado.
A batalha contra a prisão de Vorcaro
O principal objetivo da ofensiva jurídica de Vorcaro passou a ser a revogação imediata da prisão preventiva ou substituição por medidas cautelares alternativas. Entre as possibilidades estão prisão domiciliar, uso de tornozeleira eletrônica e obrigação de permanecer em casa.
De acordo com o Daniel Bialski, o período de prisão ultrapassaria os limites considerados razoáveis pelo Código de Processo Penal. A defesa destaca que Vorcaro continua preso sem que a PGR tenha apresentado denúncia formal. A PF ainda não concluiu as frentes de investigação e não pediu formalmente o indiciamento do empresário.
Na visão dos advogados, o tempo excessivo sem o encerramento dos inquéritos ou o início de uma ação penal contraria decisões anteriores do STF. Também violaria os princípios constitucionais da duração razoável do processo e da presunção de inocência.
Há cerca de duas semanas, os advogados de Vorcaro e de outros investigados solicitaram a liberação dos clientes. O argumento é que os períodos previstos em lei teriam sido ultrapassados.
Outro ponto levantado é que os motivos usados inicialmente para justificar a prisão, como risco de interferência nas investigações ou ameaça à ordem pública, teriam perdido força com o avanço das diligências.
A defesa afirma que pessoas investigadas por crimes semelhantes ou relacionados ao sistema financeiro respondem em liberdade, embora submetidas a medidas restritivas. Por isso, os advogados pedem tratamento semelhante para Vorcaro, permitindo que ele aguarde em casa a conclusão das investigações e, eventualmente, do processo.
“A Turma é uma fantasia”, diz defesa
O tema da oitiva no dia 30 foi a existência de um grupo chamado “A Turma”. Segundo a investigação, ele teria sido criado para monitorar, intimidar, pressionar e perseguir autoridades públicas, magistrados e jornalistas.
Vorcaro negou que o grupo existisse e rejeitou acusação de violência ou constrangimento. A defesa classificou a hipótese como “uma fantasia”, afirmando que, mesmo após quebras de sigilo, perícias e diligências, não teria sido identificada vítima concreta que afirmasse ter sido ameaçada, perseguida ou coagida pelo empresário ou por seus interlocutores.
O ex-banqueiro negou que tivesse intenção real de agredir alguém e as medidas tomadas contra desafetos foram exclusivamente judiciais.
A defesa pediu ao delegado que fossem lidas as mensagens completas e os diálogos encontrados nos celulares apreendidos, criticando o uso de trechos isolados e afirmou que as conversas precisam ser analisadas dentro do contexto em que foram escritas.
Na versão apresentada pela defesa, mesmo nos momentos de maior irritação com reportagens ou investigações, Vorcaro teria orientado interlocutores a adotar medidas legais. Entre elas estavam acionamento de advogados, envio de notificações extrajudiciais, abertura de ações cíveis e registro de boletins de ocorrência.
Para os advogados, a fala sobre “quebrar os dentes” de um jornalista teria sido apenas um desabafo emocional de um pai diante de uma reportagem que expunha sua filha de maneira constrangedora e desnecessária.
A defesa sustentou que não houve preparação, contratação de terceiros ou execução de qualquer ato de violência contra profissionais da imprensa. Por isso, pediu o arquivamento das apurações relacionadas aos crimes de ameaça, coação no curso do processo, constrangimento ilegal e organização criminosa.
Pai de Vorcaro reforça inexistência de grupo clandestino
A versão de que “A Turma” nunca existiu também foi apresentada por Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro. Ele também prestou depoimento às autoridades na quarta-feira e manteve linha semelhante à do filho.
Henrique negou ter conhecimento ou participação em qualquer grupo criado para monitorar ou intimidar figuras públicas. Afirmou que as atividades familiares e empresariais sempre estiveram ligadas ao mercado financeiro e à busca de soluções jurídicas para resolver conflitos.
Ele também rejeitou a acusação de que a família integrasse uma estrutura clandestina de vigilância, pressão ou perseguição.
Para fontes que acompanham as investigações, a proximidade entre depoimentos do pai e do filho pode fortalecer a estratégia da defesa. A intenção seria demonstrar coerência entre as versões e questionar a existência de provas capazes de sustentar acusações de associação ou organização criminosa no núcleo familiar. Para investigadores, a movimentação indica mudança na estratégia de defesa.
Antes, a possibilidade de delação poderia abrir caminho para acordos e revelações sobre o funcionamento do Master. Agora, a prioridade seria recuperar a liberdade e buscar nulidades, sem comprometimentos do próprio Vorcaro, seu núcleo familiar e autoridades. O próximo depoimento de Vorcaro está agendado à PF para o dia 15 deste mês.








