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Gilmar Mendes resolveu dar aula de moral na sessão histórica do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça. Não qualquer moral: a ética da máfia. O decano, que há décadas trata o Supremo como feudo particular, acusou André Mendonça de conduta “covarde e vil”, defendeu a omertà e disparou a frase que vai entrar para o hall da infâmia institucional: “Até a máfia tem ética”. Quem ouviu sem conhecer o personagem poderia até achar que se tratava de um momento de lucidez tardia. Quem conhece sabe que era apenas o capo defendendo o próprio clã.
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O alvo era óbvio. Mendonça ousou levar ao plenário o relatório da Polícia Federal sobre as conversas de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, o banqueiro picareta do Master. Gilmar viu nisso um “inequívoco viés político-eleitoral”, um “pixuleco”, um “boneco eleitoral”. Em outras palavras: investigar o amigo é golpe. Investigar os outros, quando convém, é justiça. A seletividade que ele denuncia no relator é exatamente a que ele pratica há anos. Gilmar acusa diante de um espelho.
Enquanto discursava sobre decência, já circulavam as mensagens que o próprio Gilmar enviou a Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Ao primeiro, o recado foi direto: “Assumam que estão ferrados e saiam dos processos. Abram as contas”. Depois veio o xingamento, a cobrança para que deixasse a presidência do TSE e a alfinetada na família. Kassio bloqueou o colega e pediu respeito. Ironia do destino, Gilmar teria disparado essa mensagem ainda da Itália, onde estava num casamento. A terra da máfia.
Para Gilmar, o problema não é Moraes ter recebido milhões de Vorcaro, mas sim Mendonça querer investigá-lo por isso. Daí que Moraes deve ser protegido e Mendonça fritado
Ao segundo, Gilmar cobrou “postura institucional”. Fux, sem rodeios, mandou ele não encher o saco. Eis a ética da máfia em estado puro: o capo manda recado no WhatsApp para os colegas se alinharem ou sumirem. É pura intimidação. Esqueceu que Fux luta jiu-jitsu e é juiz de verdade. Não se curva facilmente a recados mafiosos.
A contradição é tão escancarada que chega a ser cômica, se não fosse trágica para o país. Gilmar fala em “relação de máfia” porque Mendonça teria retido informações que atingiam outros ministros. Mas o mesmo Gilmar pressiona colegas para que se declarem suspeitos, ameaça e exige abertura de contas como se fosse dono do tribunal. Quem detém o poder de constranger os pares e o exerce em privado, depois pede o microfone para denunciar o constrangimento alheio. Isso não é ética. É o código de honra dos que se acham intocáveis.
O decano ainda teve o desplante de invocar Deus. “Em nome de Deus já se fez muita patifaria”, disse, mirando o pastor Mendonça. Como se o Supremo, sob sua influência e a de Moraes, não tivesse transformado a Constituição em instrumento de perseguição seletiva, censura e ativismo descarado. A patifaria, ministro, não começou ontem. Ela tem nome, sobrenome e toga. E o senhor é um dos seus principais operadores. São todos admiradores do regime chinês, lembra?
O que se viu ontem não foi um debate jurídico. Foi a exposição da podridão que corrói a Corte. De um lado, o relator tentando – ainda que tardiamente e com seus próprios pecados – jogar luz sobre um escândalo financeiro de proporções inéditas. Do outro, o grupo que protege Moraes a qualquer custo, porque sabe que o fio puxado no Master pode chegar longe demais. Gilmar não defendeu a colegialidade. Defendeu o esquema.
A frase sobre a máfia é reveladora precisamente porque parte de quem a conhece por dentro. Na máfia de verdade, pelo menos existe um código: não se entrega o próprio. No STF de Gilmar, o código é outro: não se entrega o aliado, mesmo que o país inteiro veja o constrangimento, as mensagens vazadas e o desespero para adiar o julgamento para depois das eleições. Ética? Sobrou apenas o cinismo.
O Brasil assiste a mais um capítulo dessa novela degradante e já sabe o final. Enquanto o Supremo se comporta como organização que decide internamente quem pode e quem não pode ser investigado, a confiança na instituição despenca. Gilmar Mendes não falou como juiz. Falou como mafioso ferido no orgulho. Para Gilmar, o problema não é Moraes ter recebido milhões de Vorcaro, mas sim Mendonça querer investigá-lo por isso. Daí que Moraes deve ser protegido e Mendonça fritado. E a frase que ele soltou serve, no fundo, como diagnóstico involuntário: até a máfia tem ética. O problema é quando o Supremo demonstra ter menos.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Rodrigo Constantino é economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja, O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




