Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
Análise de “Lacerda: A Virtude da Polêmica”
| Foto:

Por Liberalismo Brazuca, publicado pelo Instituto Liberal

Quando eu me deparei com o autor Lucas Berlanza explicando que seu livro sobre Carlos Lacerda era uma biografia intelectual, diferente de uma biografia tradicional, eu fui tomado de curiosidade sobre a natureza de seu livro Lacerda: A Virtude da Polêmica.

Uma biografia tradicional, tal qual John Dulles fez sobre Lacerda, contava com os mais sórdidos detalhes, todos os momentos de sua vida, desde o nascimento até a sua morte, levantando documentos, relatando fatos e momentos.

Já a biografia intelectual é uma análise sobre as obras publicadas pelos autores, suas influências de pensamento em vida, a sua evolução com o tempo e suas ações e o que motivou as mesmas. Esta definição fui descobrindo a cada página que lia a respeito da obra intelectual de Lacerda.

Berlanza começa o livro explicando brevemente o contexto do Brasil onde Lacerda viveu e também uma síntese de sua vida pública. Em seguida, passa para sua obra intelectual, o objetivo do livro, retratando a doutrina lacerdista e sua visão para a UDN, seu partido. Nesse contexto, ele a via como um partido que não poderia ser materialista, economicista e nem nacionalista. Nesta última parte, cabem parênteses sobre ele diferenciar nacionalismo de patriotismo; ele considerava o primeiro uma degeneração espiritual do segundo. Há espaço também para ressaltar a herança de Rui Barbosa, que Lacerda julgava ser primordial para o pensamento da UDN, visto que Rui Barbosa fora um combativo opositor dos governos republicanos.

No terceiro capítulo, Berlanza discorre sobre o pensamento de Lacerda em relação à imprensa nacional, cujo exercício ele interpretava como uma missão para a garantia da liberdade, e que foi devidamente catalogado em seu pequeno livro A Missão da Imprensa, catalogado em 1950. Para ele, o jornalista deveria ser um zelador da comunidade, aquele que é designado para o cuidado de preservar os interesses da mesma.

O livro não segue uma ordem cronológica exata, mas seleciona posições relevantes sobre os mais diversos assuntos durante sua trajetória – como no capítulo 5, onde irá discorrer sobre a interpretação econômica lacerdista da economia social de mercado, derivada da escola de Friburgo, que pauta até hoje a doutrina do ordoliberalismo da CDU, partido alemão de centro-direita. Ele registra seu histórico debate com Roberto Campos, de que, embora não tenham sido salvos os arquivos televisivos, há registro textual no livro Brasil: Entre a Verdade e a Mentira, em que ele utiliza estudos de Eugênio Gudin para confrontar o PAEG de Roberto Campos e Otávio Bulhões.

O livro também apresenta uma das maiores influências intelectuais contemporâneas de Lacerda, vinda do bispo americano Fulton Sheen, considerado o primeiro televangelista da história, que utilizou a TV por anos para exibir o seu programa Life is Worth Living, onde pregava seu pensamento de uma igreja católica mais liberal, defendia uma forte luta anticomunista e foi um dos bispos mais influentes da igreja católica americana. Sua luta foi referenciada até entre não católicos, algo que causava imensa admiração em Lacerda, a ponto de este tornar o bispo americano um correspondente internacional de seu jornal Tribuna da Imprensa.

A obra ainda trata dos tópicos sobre sua visão nas relações exteriores, suas lutas como parlamentar líder da oposição, as suas realizações como governador da Guanabara – relatadas no excelente livro Lacerda na Guanabara, com fartos dados sobre seu governo e realizações -, as suas lutas contra o varguismo, a crise de agosto de 54, as oposições aos governos JK e João Goulart, além do período da Frente Ampla, na qual Berlanza acusa, usando como base o manifesto da mesma, a presença de retrocessos no pensamento de Lacerda, provavelmente concedidos para a união com JK e Jango contra a armação da ditadura militar.

No livro também constam análises sobre suas posições mais polêmicas, com abordagens sóbrias, como compreensões de que algumas ideias possivelmente se excederam na forma, apesar de algumas exibirem necessidade de fato para uma mudança sólida.

Além de abordar as obras de Lacerda, o livro também fala sobre a personalidade de Lacerda, para podermos conhecer mais sobre suas diferentes faces.

*Artigo publicado originalmente na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]