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A adesão à arte moderna como bandeira contra a burguesia
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Li nessa sexta um livrinho divertido de Tom Wolfe, autor de Radical Chic Fogueira das Vaidades. Trata-se de A Palavra Pintada, escrito em 1975, uma análise dos caminhos que arte tomava naquela época.

Wolfe não poupa críticas aos burgueses que simulam profundo interesse pela arte moderna como forma de posar como antiburguês. Tampouco alivia os próprios artistas, divididos entre o estilo da boêmia e o interesse naquilo que só o capitalismo burguês pode oferecer: riqueza.

Antes de falar sobre o assunto, um caveat: não sou um entendido de artes. Na verdade, meu conhecimento sobre o tema é bastante limitado. Porém, como o juiz americano diante da pornografia, posso não saber definir bem uma “obra de arte” que é puro lixo, mas sei quando estou diante de uma.

A tese de Wolfe é que a arte moderna se tornou inteiramente literária: “as pinturas e outras obras só existem para ilustrar o texto”. Inverte, assim, a ordem natural de “ver é crer”, e passa a ser “crer é ver”, ou seja, você antes adota uma crença ideológica qualquer, e depois procura confirmação dela na obra de arte.

Tom Wolfe começa logo espinafrando os próprios artistas que aceitam esse jogo de olho em sua rentabilidade: “Especialistas em imitações, dinheiro, publicidade, grã-finos, e Le Chic não devem ser levados em conta na história da arte, todos sabemos disso – mas, graças aos próprios artistas, eles são”. Tal peso dado aos endinheirados, porém, vai contra o próprio ideal do artista moderno:

[…] o espírito pobre porém livre, o plebeu que aspira a não pertencer a classe alguma, a se libertar para sempre das peias da burguesia ambiciosa e hipócrita, a ser o que burgueses obesos mais temiam, a ultrapassar quaisquer limites que estes estabelecessem, a olhar o mundo de uma forma que eles não conseguissem ver, andar alto, viver modestamente, manter-se sempre jovem – em suma, ser o boêmio.

Como preservar esse espírito e, ao mesmo tempo, não sucumbir às tentações da própria burguesia? Tem-se início a “dança” do lá e cá, segundo Wolfe. O artista faz jus ao que Freud diz serem os objetivos do artista: fama, dinheiro e belas amantes. E os membros sociais da alta burguesia, que Wolfe chama de le monde, os culturati, têm como recompensa pela montanha de dinheiro que torram com tais artistas o status de Benfeitor das Artes, além da sensação de que estão desvinculados e distantes da burguesia, da classe média.

É um passaporte para deixar a classe média para trás, apesar de ser oriundo dela, demonstrar que já não se encontra mais nela. Nas palavras de Wolfe, “a sensação de que é um camarada-soldado, ou ao menos um ajudante de ordens ou um guerrilheiro-honorário na marcha da vanguarda pela terra dos filisteus”. Elite culpada. Basta lembrar como a Arte Moderna chegou aos Estados Unidos na década de 1920: pelas mãos da Standard Oil (Rockefeller).

Quanto mais constrangido o burguês estiver com seu sucesso comercial, mais ele será tentado a colecionar arte contemporânea, a última moda, a mais recente inovação, para poder dizer: “Estão vendo? Não sou igual a eles… esse pessoal que gosta de novela e futebol, membros do Rotary Club, jovens executivos, etc. Sou como aqueles artistas descolados, que pairam acima da burguesia, que não ligam para os bens materiais…”

Não ligam? Essa é a deliciosa hipocrisia que Tom Wolfe tão bem disseca, nesse e em outros livros, e que foi o tema do meu Esquerda Caviar também. Outra contradição é que todos eles falam em nome do público, mas o público, como diz Wolfe, “não desempenha qualquer papel nesse processo”. Não está convidado: apenas é instado a aplaudir depois que a elite apontou os escolhidos do vanguardismo.

A adesão a cada novo movimento, cada novo ismo da Arte Moderna, representava uma declaração dos artistas e seus seguidores de que “possuíam uma nova forma de ver que o resto do mundo (leia-se: a burguesia) não podia compreender”. Admirar a mais nova invenção era apartar-se do rebanho burguês.

Diante do espanto inicial frente a muitas dessas novas “obras de arte” horrorosas, a senha do modernismo foi dada por Greenberg: “toda a obra profundamente original parece feia a princípio”. Palavras mágicas para os artistas medíocres! Era o começo do “vale-tudo”. E ai de quem ousasse criticar alguma porcaria: não entendeu nada, é reacionário, conservador, ultrapassado.

“Para os colecionadores, curadores e mesmo alguns marchands“, diz Wolfe, “as obras novas que pareciam genuinamente feias… começaram a adquirir uma aura estranha e nova…” Daí em diante foi cada vez mais acelerada a destruição da verdadeira arte. Como não podemos cansar de dizer, se tudo é arte, nada é arte. Não havia mais limite ao absurdo, pois toda crítica era vista como fruto de uma inclinação burguesa reacionária, o que ninguém desejava demonstrar.

Chegou-se ao paradoxo total quando foi constatado, pela lógica vigente, que se você odiava uma obra de arte num primeiro momento, provavelmente estava diante de algo maravilhoso. Eis que arte era tudo aquilo que chocava, nada mais. Qualquer resquício de tradição deveria ser apagado, pois remetia ao gosto burguês. A ideia de pendurar quadros era burguesa! Paredes e exteriores das galerias viravam obras de arte, formas geométricas desbotadas viravam obra de arte. Veio o minimalismo, a Arte Ecológica, etc. Não tem onde parar:

E o que dizer da própria ideia de uma obra de arte permanente, ou mesmo visível? Não era esse o pressuposto mais básico da Velha Ordem? – de que a arte era eterna e composta de objetos que podiam ser legados de uma geração a outra, como os ossos de Colombo? Dessa objeção surgiu a Arte Conceitual.

Foi assim que o esterco virou obra de arte. Era a arte literalmente na merda! Dessa maneira, a Arte Moderna virava cada vez mais simples literatura, nada mais. Ou seja, era a morte da verdadeira arte.

Foi interessante ler o livro na sexta, e hoje verificar, na Veja, a exposição que ocorre no MAM. Eis duas “obras de arte” da amostra:

arte 1

arte 2

Quem quiser chamar isso de “obra de arte”, fique à vontade. Quem quiser pagar os olhos da cara por essas porcarias, fique mais à vontade ainda. Eu prefiro apontar e dizer: o rei está nu!

Rodrigo Constantino

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