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Rodrigo Constantino

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A disciplina escolar funciona. Ou: Menos Paulo Freire e mais Dom Lourenço!

Fonte: GLOBO

Uma reportagem do GLOBO de hoje mostra como a gestão de uma escola em Manaus, transferida para a polícia, gerou excelentes resultados. Especialmente nas periferias mais pobres, a violência representa um grande impeditivo ao aprendizado. A disciplina imposta pela PM pode representar, portanto, a única alternativa nesses locais mais abandonados. Mas a mensagem é válida para todas as escolas: um pouco mais de disciplina não fere ninguém. Ao contrário: talvez seja a única solução para o caos instalado pelos revolucionários de 1968. Vejamos o caso em Manaus:

Pintados de branco e azul, os muros da Escola Estadual Professor Waldocke Fricke de Lyra, na zona oeste de Manaus, em nada lembram as pichações que antes estampavam as paredes. Os alunos só saíam para o intervalo com a mochila nas costas, por medo de serem roubados pelos próprios colegas. Nos banheiros, vasos entupidos com o descarte das carteiras de dinheiro furtadas. Brigas no pátio, armas brancas circulando e uso de drogas completavam o cenário.

A violência que sempre marcou o bairro Tarumã, fruto de invasões e considerado hoje uma “área vermelha” da capital amazonense devido aos altos índices de criminalidade, havia ultrapassado os muros do colégio. Em 2012, a pedido do governo estadual, a Polícia Militar assumiu o controle da escola, que passou a se chamar 3° Colégio Militar da PM Professor Waldocke Fricke de Lyra, que atende cerca de 2 mil alunos dos ensinos fundamental e médio.

A mudança veio acompanhada de uma reforma na estrutura física e de uma gestão “linha dura”. Farda e horário rígido para entrar. Para sair, só quando todas as tarefas forem finalizadas. A ordem é tirar a bateria do celular depois de entrar na escola. Se flagrado usando o aparelho, o aluno terá que esperar até o bimestre seguinte para reavê-lo. O coronel aposentado Rudnei Caldas, responsável pela implantação das regras, diz que pais e professores chiaram no início, mas ele não arredou pé.

Hoje, ao passarem pelos policiais armados que atuam como inspetores nos corredores, estudantes endireitam a coluna e batem continência. A rotina nos rígidos moldes militares inclui gritos de guerra antes de iniciar a jornada, além de distribuição de distintivos e de patentes para quem tem notas de destaque. Indisciplinas reiteradas levam à expulsão. Só nos cinco primeiros meses de 2015, cinco foram desligados por não se adequarem. O corpo docente também mudou, e a maioria dos professores antigos deixou a escola.

— Sei que há uma corrente na educação resistente ao nosso modelo, mas acho que, para o nosso público, vindo de uma desestrutura familiar e carência social muito grande, ele faz a diferença — diz o coronel.

De 2011 para 2013, a escola deu um salto no Ideb. Nos anos iniciais do ensino fundamental, a média passou de 3,3 para 6,1. Nos finais, foi de de 3,1 para 5,8. O índice de reprovação, de 15,2% em 2012, foi zerado no ano passado.

A melhoria no desempenho apareceu também nas Olimpíadas de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Órfã de pai desde os 8 anos e filha de uma motorista de ônibus, Jennyfer da Silva Veloso, de 16 anos, levou o bronze e uma menção honrosa na competição. Ela foi aprovada em primeiro lugar no vestibular da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), onde começou a cursar matemática este ano.

Ela conta a dificuldade de se adaptar na transição da escola para o regime militar e lembra do primeiro dia da mudança.

— Eu estava com o cabelo pintado, usava piercing no nariz, tinha franja. Fomos levados para a quadra, nos explicaram tudo. Tive que tirar esmalte, prender a franja. Com o tempo, me acostumei e percebi que, aqui, realmente o que importa é o conhecimento, e não a aparência. A escola melhorou muito no novo modelo.

[…]

Parte da equipe de aproximadamente 60 professores efetivos que atua nos três turnos, Maria do Rosário de Almeida Braga, de 54 anos, diz que é uma das poucas educadoras que continuaram no colégio depois que a PM assumiu o controle.

— Aqui só fica professor que quer trabalhar. Há exigências para o aluno e para o professor também. Mas o retorno é muito grande, inclusive financeiro — diz Maria do Rosário.

Já havia comentado aqui um caso similar ocorrido em Goiás, e vale a pena repetir os argumentos usados:

Claro que há críticas legítimas. O medo da repressão dos policiais ao fazer críticas é uma delas. Mas algumas reclamações parecem infundadas, e mostram justamente a distância entre a elite dos “especialistas” e a real necessidade dos alunos. Uma professora, por exemplo, reclama que experiências exitosas no mundo foram à contramão dessa verticalização, partindo para uma horizontalização que reduzia as relações hierárquicas.

Discordo. Ainda mais para a realidade brasileira. Acredito que essa mentalidade que rejeita e abomina qualquer hierarquia nas escolas e universidades está no epicentro de nossos problemas educacionais. Basta ver que alunos em universidades públicas invadem até a reitoria ou impedem professores de dar aulas se discordarem de sua mensagem. Isso é absurdo, demonstra que esses jovens chegam nas faculdades sem respeito pela autoridade, pelas regras, achando-se os donos do universo.

A disciplina funciona. Claro que o excesso de repressão pode sair pela tangente, pode ser um tiro no pé, gerando revolta. Encontrar um equilíbrio será o desafio constante. Mas não resta dúvida de que, atualmente, o pêndulo foi em demasia para o lado do afrouxamento das regras, do “vale tudo”, do desrespeito aos professores e às normas escolares.

escrevi aqui também uma resenha do livro da professora Kátia Simone Benedetti, que faz um desabafo sobre a indisciplina escolar no país. Repito alguns argumentos aqui, por julgá-los pertinentes ao caso:

Exercer a autoridade necessária não é o mesmo que autoritarismo. Claro que alguns vão abusar desse direito, mas o abuso de alguns não deve tolher o uso dos demais. Para combater os excessos, as falhas de alguns por conta inclusive da natureza humana, os pós-modernos acabaram jogando o bebê junto com a água suja do banho, e destruíram a autoridade legítima. O caminho ficou livre para a baderna.

Não são poucos os casos em que a hierarquia se encontra invertida, com os protagonistas trocados: a autoridade dentro das salas de aula deixou de ser exercida pelo professor e passou a ser exercida pelos alunos. Como apostar em uma boa instrução assim? Como achar que esses jovens sairão das escolas não só com boa formação, mas com respeito aos outros? Essa horizontalização passou dos limites.

Hoje, damos trela demais para um Foucault da vida, e pouca para os estudiosos sérios da natureza humana. Damos muita bola para um Paulo Freire da vida, que levou Marx para dentro das salas de aula, e pouca para um grande educador como Dom Lourenço de Almeida Prado, que foi reitor do prestigiado Colégio São Bento, o melhor do Rio nos principais rankings nacionais. Dom Lourenço compreendia a importância de se adotar um modelo com disciplina, pois escola não é parque de diversão.

Foucault e seus seguidores ficavam horrorizados com a padronização das instituições “opressoras” que eliminavam a individualidade. Achavam que por trás disso tudo havia a “microfísica do poder”. A solução seria uma espécie de “liberar geral”, abolindo-se as regras “opressoras”. Na realidade brasileira, especialmente nas periferias, isso significa deixar verdadeiros marginais tomarem conta das escolas. O resultado é caótico.

Ninguém precisa endossar a gestão policial nas escolas para compreender a importância da mensagem explícita nesses casos de sucesso: a libertinagem foi longe demais no ensino, e há necessidade clara do resgate de certa disciplina, sem a qual os jovens simplesmente ficam sem freios e limites. Os “libertários” inspirados em Foucault têm ojeriza à “uniformização”, mas a falta de uniformes e de regras básicas de conduta têm levado a ambientes “anárquicos” no pior sentido do termo, onde não há espaço para o aprendizado.

Vamos escutar menos os “pedagogos” esquerdistas e resgatar o velho bom senso: escolas sem disciplina e regras são territórios hostis aos alunos que efetivamente desejam aprender e estudar. A quem interessa esses ambiente caótico?

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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