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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Adam Smith e o massacre de Suzano

Por João Luiz Mauad, publicado pelo Instituto Liberal

Explicações absurdas e tolices irrefletidas foram a tônica depois do atentado em Suzano. Uns culparam as armas, outros a falta delas. Houve quem apontasse o dedo para os videogames, as armas de brinquedo, o cinema, a TV, o bullying. Mais próximos da realidade estiveram aqueles que miraram em problemas psíquicos, como sociopatia e outros.

Coincidentemente, deparei-me hoje com um ótimo artigo (do qual esse texto é um breve resumo) do economista Russ Roberts, sobre a Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smith, que pode jogar um pouco de luz sobre um tema tão complexo quanto sem respostas prontas.

Pessoas bem informadas sabem que Adam Smith escreveu A Riqueza das Nações, livro que o elevou ao honroso lugar de “Pai da ciência econômica”, mas poucos já ouviram falar de seu primeiro livro: The Theory of Moral Sentiments. Neste livro, ele discorre sobre a moralidade e sobre os porquês de as pessoas se comportarem da maneira como se comportam, quando interagem umas com as outras.

Smith argumenta que a maioria de nós deseja o respeito daqueles que nos rodeiam e queremos ganhar esse respeito honestamente, pela forma como realmente nos comportamos, e não apenas como somos percebidos. Queremos que nosso verdadeiro eu seja a fonte de nossa reputação. Uma única frase resume a visão de Smith sobre nossa motivação: “o homem naturalmente deseja, não apenas ser amado, mas ser admirável”.

Por amado, Smith não quer dizer apenas amor romântico ou amizade profunda. Ele quer dizer honrado, respeitado, elogiado, notado. Queremos importar aos olhos dos outros. Por admirável, Smith quer dizer digno de honra, digno de respeito, louvável. Nós, naturalmente, desejamos ser amados e admirados. O que Smith está dizendo é que nos preocupamos profundamente em não apenas sermos respeitados e elogiados. Mas também queremos merecer esse respeito honestamente, sendo realmente pessoas admiráveis.

Smith faz uma afirmação mais ousada, segundo a qual esse desejo de respeito dos outros é a fonte de nosso bem-estar. Ele escreve: “A parte principal da felicidade humana surge da consciência de ser amado”.

Então considere o seguinte. Se Smith está certo e se a parte principal da felicidade humana surge da consciência de ser amado, então o que acontece com pessoas que não são amadas, não são respeitadas, não são honradas ou admiradas? O que acontece com pessoas a quem ninguém dá atenção, embora lutem para encontrar respeito, honra, amor? O que acontece com as pessoas que se sentem como se ninguém se importasse com elas?

Quando ocorrem dramas como os de Suzano, nós debatemos sobre muita coisa, exceto o que acontece na mente de alguém, a ponto de levá-lo a matar estranhos, aparentemente sem nenhuma razão. Então, nós debatemos o controle de armas. Debatemos se deveríamos armar professores, ou intensificar nossa segurança em igrejas, shows ou lugares onde multidões se reúnem.

Nós nos concentramos nas armas, nos esquecendo de que as armas, sozinhas, são incapazes de ferir alguém. Não é uma coincidência que quase todos esses massacres sejam cometidos por homens, a maioria homens solitários, descontentes, alienados da vida moderna, alienados do padrão de sucesso a que nossa cultura aspira, desconectados daqueles que os rodeiam. Ninguém presta muita atenção a eles até que já tenham feito dezenas de vítimas. Ninguém presta muita atenção até as manchetes gritarem que esses homens solitários finalmente fizeram algo que as pessoas terão de notar.

Tentamos não pensar no fato de que, apesar de a legislação restringir a posse de armas, essas tragédias continuam acontecendo. Nós gostamos de pensar que só precisamos de mais do mesmo. Se pudéssemos aprovar leis de armas mais duras, ou treinar professores para usar armas ou algo assim, o problema seria resolvido.

Mas nenhuma dessas políticas chega ao problema de fundo – uma perda de conexão e um desejo insatisfeito de pertencimento, de que Adam Smith nos fala com maestria. Esse desafio não é facilmente quantificado, por isso, é improvável que consiga a atenção de muitos ou seja o foco de um projeto de pesquisa. Nenhuma lei ou política governamental conseguirá incutir nas pessoas que precisamos prestar mais atenção às pessoas ao nosso redor que não são amadas e tentam se conectar conosco. Isso requer uma mudança de comportamento em relação ao outro. Uma mudança cultural nada trivial.

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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