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João Pereira Coutinho, em sua coluna de hoje na Folha online, resgata Nelson Rodrigues para falar da covardia dos adultos que querem se mostrar “compreensivos” demais com os mais jovens, muitas vezes enaltecendo a juventude como depositária de uma sabedoria ímpar. O resultado dessa postura são jovens cada vez mais mimados e aprisionados numa bolha, sem contato com o mundo real.

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Os “lugares seguros” (“safe places”) nas universidades de hoje, a ideia de que todos possuem infindáveis “direitos”, mas nenhum dever, a noção de que ninguém pode se sentir “ofendido” por nada, tudo isso derivaria dessa covardia dos adultos que se recusam a educar os jovens para a realidade. Diz Coutinho:

Não direi, como Nelson Rodrigues dizia, que o “jovem” só tem dois caminhos: ser um Rimbaud ou um idiota. Como professor, conheço vários exemplares da espécie bem mais inteligentes e civilizados do que muitos adultos.

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Mas entendo a observação: atribuir à “juventude” uma virtude particular é uma rendição moral e intelectual de adultos covardes —os “compreensivos”, como escrevia Nelson Rodrigues com sarcástico desdém.

Infelizmente, essa “compreensão” tem consequências. Uma delas, que escapou ao sábio Nelson, encontra-se hoje nas pobres sociedades democráticas do Ocidente. Melhor dizendo: na forma arrogante e cega como uma (falsa) “elite” intelectual é incapaz de entender as inquietações mais básicas de pessoas reais. Talvez porque essas inquietações provocam “desconforto” no mundo seguro e higienizado dos “compreensivos” e seus discípulos.

O medo do terrorismo islâmico; da imigração irrestrita; da mera criminalidade quotidiana —tudo isso é desprezado pela agenda dos “compreensivos”. E as massas, que insistem em falar dos assuntos, são metralhadas com as munições conhecidas: racistas, atrasadas, iletradas.

Claro, o fato de essa jovem elite se fechar numa bolha não faz com que a realidade mude. Você pode ignorar o esgoto ao seu lado, mas a paisagem continua a mesma; é só você que não quer vê-la. E esses seres “compreensivos” caem, naturalmente, em constante contradição, pois veem preconceito e autoritarismo em todos, menos neles mesmos. Mas são os primeiros a não tolerar certas diferenças, a detonar as tribos distintas.

Coutinho se mostra preocupado com o futuro da Europa, com o novo populismo de direita que pode dominar a Itália, a França, a Holanda, a exemplo do fenômeno Trump nos Estados Unidos. E conclui: “Mas é importante dizer que o triunfo do novo populismo só foi possível pela ignorância dos jovens idiotas e pela compreensão dos adultos covardes”. Quanto mais a elite fechar os olhos para a realidade, mais ela irá retornar com força para assombrá-la.

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Rodrigo Constantino