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Rodrigo Constantino

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Alguns sinais de que uma nova bolha especulativa pode estar em curso no mundo

Illustration of open currency source money Bitcoin

A “nova normal” é um mundo com reduzidas taxas de juros, próximas de zero nos países desenvolvidos. Após a crise de tecnologia em 2000, os bancos centrais jogaram as taxas para baixo, para “estimular a economia”. Economistas keynesianos como Paul Krugman vibraram, e chegaram a pedir uma bolha imobiliária para “curar” a recessão. Cuidado com o que deseja…

Veio a bolha, que estourou em 2008. O que fizeram os bancos centrais? Ora, para quem tem apenas um martelo tudo se parece com prego. Reduziram as taxas novamente, com rodadas brutais de estímulo monetário, injetando liquidez farta nos mercados. Veio o QE1, QE2, QE3… era tanto “quantitative easing” que perdemos a conta.

Mas os economistas austríacos alertaram: essa liquidez toda vai encontrar seu destino, e não necessariamente será produtivo. Novas bolhas especulativas serão formadas. Uma má alocação de capital será uma consequência inevitável disso. Vai “dar ruim” lá na frente.

E eis que temos, em 2017 apenas, vários sinais de possíveis bolhas se formando mundo afora, já que os bancos centrais podem controlar a liquidez, mas jamais para onde o excesso de “recursos” vai respingar. Seguem alguns indícios de que a coisa pode estar saindo de controle:

  • Um quadro supostamente de Leonardo Da Vinci foi vendido pela impressionante quantia de $450 milhões;
  • O Bitcoin, criptomoeda que caiu nas graças não só dos libertários geeks, mas do povo em geral, multiplicou-se por quase dez e bateu em $10 mil;
  • O Bank of Japan e o Banco Central Europeu compraram $2 trilhões em ativos (sim, trilhões);
  • A dívida global subiu para mais de $225 trilhões, ou acima de 320% do PIB global;
  • Empresas americanas venderam um recorde de $1,75 trilhão em bonds;
  • Os bonds de high yield europeus negociaram abaixo de 2% ao ano;
  • A Argentina, com histórico de caloteira, vendeu bonds de cem anos (sim, um século!) em uma oferta que foi bastante demandada;
  • Illinois, que está insolvente, vendeu bonds a 3,75% ao ano para compradores que tiveram de disputar alocação;
  • O valor de mercado das ações globais subiu $15 trilhões e atingiu $85 trilhões, um recorde em relação ao PIB, de 113%;
  • A volatilidade do S&P 500 caiu para mínimas de 50 anos e a volatilidade do Treasury foi para um mínimo de 30 anos;
  • A Tesla, que perde dinheiro, vendeu bonds a 5% ao ano sem garantias, enquanto queima mais de $4 bilhões em caixa produzindo poucos carros;
  • A Apple está chegando perto de $1 trilhão de valor de mercado.

A lista me foi enviada por um amigo do mercado financeiro, e é assustadora. Tem mais coisa que podemos incluir, mas o leitor, mesmo o leigo, já pode pegar o jeito da coisa. Num mundo sem retorno, em que os poupadores são penalizados pela prudência e os devedores são constantemente resgatados pelas autoridades, temos a “eutanásia do rentier”, ou seja, os que possuem poupança são forçados a fazer loucuras em busca de algum yield qualquer.

É análogo a uma festa em que o dono distribui bebida grátis há horas. Depois de tanta liquidez, os presentes relaxam o critério de julgamento e passam a chamar urubu de “meu loiro”, enxergando top model onde só há mocreia. São levados a acreditar que o Bitcoin só tem uma direção possível: conquistar o mundo das moedas e desbancar o dólar. Ou fingir que a Argentina é um país sério. Ou então imaginar um mundo futuro – e em breve – onde todos terão carros elétricos da Tesla, já que o combustível fóssil – usado para gerar energia também aos carregadores elétricos da Tesla – está ultrapassado e já era.

Enfim, quando o dinheiro passa a arder na mão, quando o poupador perde dinheiro se tiver uma poupança conservadora, todos acabam sendo levados a fazer loucuras, a especular feito doidos, a crer nas mais bizarras promessas. Agradeça aos bancos centrais por essa realidade instável. Quem não entende a teoria austríaca dos ciclos econômicos pode muito bem tomar a bolha pelo normal, e depois não adianta chorar…

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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