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Rodrigo Constantino

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Banco Central deve mirar apenas na taxa de inflação, não no nível de emprego

Em seu editorial de hoje, o jornal O GLOBO defende que o Banco Central tenha como meta apenas a taxa de inflação, não o nível de emprego, argumentando que o país, em especial a classe política, não teria maturidade suficiente para ter as duas metas, como ocorre nos Estados Unidos com o Federal Reserve. Diz o jornal:

Há nisso a intenção política de reduzir resistências no Congresso à maior liberdade de trabalho para a diretoria do BC, que compõe o Conselho de Política Monetária (Copom), responsável pelos juros. Acabaria, ou reduziria o temor primário, de fundamentação ideológica, de que os bancos centrais tenderiam sempre a elevar os juros, para ajudar “rentistas” e o setor financeiro.

É citado como exemplo o banco central americano, o Federal Reserve (Fed), que opera com mandato duplo (inflação e emprego). Mas, na prática, vale o controle da inflação. A autonomia do Fed também permite sua diretoria abandonar as preocupações com o crescimento econômico e, por decorrência, o nível de emprego, se concluir que a inflação ameaça a economia.

[…]

O ponto-chave é que não se devem criar falsas expectativas quanto à inflação, que tem de ser combatida sempre. Há, ainda, o exemplo de Dilma Rousseff, com sua intervenção no BC, para levá-lo a cortar os juros de 14,25% para 7,25%, a fim de tentar acelerar a economia e gerar mais empregos. Acelerou foi a inflação e colocou a economia na rota da recessão.

A classe política e dirigente brasileira, em sentido amplo, não demonstra ter maturidade para que o Banco Central opere com esse mandato duplo. O populismo, um dos traços nacionais, sempre forçará pela repetição do desastre patrocinado por Dilma. O país usufrui um momento raro de inflação baixa para os padrões nacionais. Precisa conviver com esta situação mais tempo, para criar uma cultura de defesa da estabilidade.

Acho que o jornal tem um ponto, mas não chega a ser uma questão de maturidade: é impossível servir a dois mestres ao mesmo tempo! Se o foco for o nível de emprego, a autoridade monetária poderá relaxar na missão de manter a taxa de inflação controlada e dentro da meta, o que pode ser fatal.

A inflação, como dizia Milton Friedman, é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário. O que isso quer dizer, basicamente, é que a alta generalizada de preços é causada pelo aumento da oferta monetária e creditícia, fazendo com que mais moeda procure a mesma quantidade de bens e serviços. Portanto, a inflação será sempre resultado de uma política deliberada de quem controla a emissão de moeda e o crédito dos bancos.

Ora, esta é justamente a função dos bancos centrais. No site do Banco Central do Brasil, por exemplo, consta em destaque sua missão: “Assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda e um sistema financeiro sólido e eficiente”. Se a meta for também mirar no nível de emprego, então isso pode ser a desculpa perfeita para que o Banco Central não lute para manter a inflação controlada.

Quando leigos no assunto olham apenas o efeito imediato e criticam a política de juros para conter a inflação, podemos dar um desconto. Mas quando economistas e empresários caem na mesma falácia da miopia, levantando a falsa dicotomia de mais inflação e mais crescimento, aí temos muito o que temer. Afinal, a estabilidade dos preços e a maior previsibilidade advinda dela são fundamentais para o crescimento sustentável da economia.

Essa confiança é o pilar que sustenta o crescimento a longo prazo, favorecendo o crédito e, acima de tudo, os investimentos produtivos. Eis os pilares que muitos querem derrubar, pedindo menor controle inflacionário para ter mais crescimento imediato. Os países desenvolvidos entendem melhor isso e possuem metas inflacionárias reduzidas.

A Zona do Euro, por exemplo, conta com uma meta implícita de 2% para a inflação, e a independência do banco central é garantida, nas tradições do Bundesbank. Os Estados Unidos possuem o Federal Reserve, banco central independente e que trabalha com meta implícita de 2% também. A Suíça vai na mesma linha, com meta implícita de 2%. O Canadá possui uma meta oficial de 2%, assim como a Inglaterra e a Suécia. Entre os países menos desenvolvidos, o Chile possui uma meta oficial de 3%, a mesma da Hungria, Coréia e México. A Noruega trabalha com metas oficiais de 2,5% para a inflação, a mesma da Islândia e Polônia.

O Brasil, que ainda não tem, por lei, um banco central independente do governo, utiliza uma meta inflacionária de 4,5%, e uma banda entre 2,5% e 6,5%. Como podemos ver, os principais países do mundo objetivam uma inflação perto dos 2%, e garantem autonomia para seus bancos centrais buscarem tal meta. No Brasil, que já possui uma meta maior e não conta com a independência do banco central, ainda há uma pressão enorme para menor controle, permitindo mais inflação, na falsa crença de que isso gera maior crescimento. Estamos muito atrasados no debate econômico!

Alguns temem que essa meta, no Brasil, vá significar sempre aumento exagerado nas taxas de juros. Como diz o economista Paulo Guedes, atacar a inflação com um único instrumento é como fazer cirurgia de córnea usando uma britadeira. O Banco Central Brasileiro, sem independência legal mas com algum grau de autonomia na prática, vem fazendo o dever de casa, mesmo contra todo o barulho contra. O problema é que ele não deveria ser o único instrumento de combate à inflação.

Em vez de os empresários e esquerdistas condenarem a entidade, deveriam voltar suas energias para o ataque aos gastos excessivos do governo, principal fonte da inflação. Já passamos da fase de acreditar em contos de fada, como se a caneta milagrosa do governo fosse capaz de criar riqueza, como se fosse possível gerar crescimento marretando a taxa de juros para baixo, como vive demandando Benjamin Steinbruch e demais representantes da Fiesp. O juro é um preço e não pode ser manipulado ao bel prazer do governo sem graves conseqüências, como ficou claro no governo Dilma.

Muitos preferem usar a taxa de juros historicamente elevada como bode expiatório para nossos males, em vez de focar no cerne da questão. O dilema não é aceitar mais inflação para ter maior crescimento. O dilema é entre um crescimento sustentável ou um voo de galinha. Para seguir pelo primeiro caminho, faz-se necessário um rígido controle da inflação, por meio de uma meta baixa a ser obtida com um banco central independente.

A taxa de juros mais baixa será resultado de um governo responsável, que gasta menos do que arrecada e não atrapalha tanto a iniciativa privada. Ou seguimos essa trajetória racional, ou ficaremos sempre reféns das maluquices de economistas que acham que riqueza se cria por decreto estatal. Paulo Guedes tem um plano ousado, liberal e correto: privatizar as estatais e usar os recursos para abater dívida pública, além de aprovar reformas estruturais que reduzam as despesas do governo. Eis aí a verdadeira rota para ter menos inflação e maior crescimento.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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