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Rodrigo Constantino

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Bolsonaro queimaria o soldado Flavio para se blindar?

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Fonte: Gazeta

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse nesta quarta-feira (23) em entrevista à agência Bloomberg, em Davos (Suíça), que eventuais irregularidades cometidas por seu filho, o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), terão de ser punidas. “Se por acaso ele errou e isso for provado, lamento como pai, mas ele terá de pagar o preço por esses atos que não podemos aceitar”, afirmou Bolsonaro.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) considerou suspeitos 48 depósitos em dinheiro na conta do deputado estadual e atual senador eleito. Os depósitos, sempre no valor de R$ 2.000, totalizando R$ 96 mil, foram feitos entre junho e julho de 2017 no autoatendimento da agência bancária que fica dentro da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) – Flávio é deputado estadual.

A fala de Bolsonaro faz todo sentido e não precisa ter segundas intenções. Seria apenas coerência de quem defendeu a vida toda a importância da honestidade na vida pública e a punição aos que cometeram delitos. Por essa ótica, o presidente estaria sendo firme em suas convicções. Renan Santos, do MBL, parece ter enxergado a fala por esse prisma:

Isso aqui é posicionamento sério — e não chamar de “Ronaldinho” (como Lula e a esquerda) ou levantar hashtag “FlavioPresidente”, como setores da direita. Mandou mto bem e falou como estadista.

A alfinetada em ala da direita é merecida. Há quem, por “pragmatismo”, já aderiu ao mesmo método do inimigo: é o “nosso” senador, então devemos defende-lo sempre, não importa o que aconteça. A imprensa será sempre culpada e os políticos ligados a Bolsonaro serão sempre inocentes. Não parece uma postura decente ou adequada, nem mesmo inteligente a longo prazo. E pensar que são os mesmos que ontem adotavam discurso jacobino purista apontando o dedo para todos os demais, corruptos incorrigíveis.

Claro, existe o outro lado da moeda: o “isentão” que precisa cobrar mais do que o necessário, que vê em indícios as provas definitivas de um crime horrendo e pede a cabeça imediatamente, atropelando inclusive o devido processo legal e o “inocente até prova em contrário”, valores liberais. Tem que mostrar o quanto é diferente do inimigo, mais puro, comprometido apenas com seus princípios. E nem liga para o fato de que um petista poderia assumir como senador se Flavio resolvesse renunciar de forma prematura, como alguns chegaram a exigir.

No meio do caminho, creio, fica a maioria. Querem que as investigações continuem, mesmo que desvelem um rolo enorme envolvendo o clã Bolsonaro. Sabem dos riscos disso para a agenda de reformas e lamentam profundamente, se for o caso, que a imagem de honestidade da família vá por água abaixo.

Mas defendem os valores e princípios mesmo assim, doa a quem doer. Só que o fazem de forma prudente, com cautela, respeitando o direito de defesa de qualquer réu, e com um mínimo de pragmatismo político para não levantar bola gratuita para os verdadeiros bandidos que destruíram nosso país, oportunistas que farejam sangue e exploram o caso sem qualquer grau de proporção.

Me coloco nesse grupo. Quero que as investigações continuem, sinto cheiro de podridão no ar, acho que coisas ilegais foram cometidas ali. Mas não sou idiota, não vou fazer coro ao lado de petistas safados pedindo a cabeça de alguém cuja culpa não está nem perto de ser provada. O que existem são suspeitas, e por isso a postura correta é cobrar investigações, sem cair no jogo sujo da esquerda radical.

E, tendo como pano de fundo isso, o que pensar sobre a fala do presidente? Novamente, pode ser apenas coerência. Mas quando lembramos que Flavio passou um dia com o pai neste fim de semana, surge uma dúvida: seria o caso de Jair ter conhecimento de que vem chumbo grosso aí, e por isso estaria já queimando seu soldado para se blindar? Combatentes costumam aceitar melhor o sacrifício pessoal em prol da “causa”. O pai joga o filho na cova dos leões para se salvar. Será? Afinal, que soa estranho um pai não garantir sua total confiança na inocência do filho, isso soa! Tenho certeza de que seria a postura do meu pai caso eu estivesse sendo acusado de algum crime.

Existe outra opção, claro: ele sabe que o filho nada fez e lançou esse discurso para colher os dividendos políticos: “viram como sou intransigente com a corrupção? Eu estava disposto a punir até meu próprio filho?!” Essa alternativa, porém, parece-me menos provável. Há indícios fortes de sujeira nesse caso todo do Queiroz, do gabinete do Flavio. Acho mais crível que Bolsonaro esteja preparando o terreno, a narrativa, para quando tiver que queimar seu soldado mesmo, e assim tentar proteger o restante da família.

O desgaste, contudo, já é real e bem grande. Não só o caso Queiroz, como agora parentes de miliciano. Flavio poderia não saber de nada? Claro! Mas a defesa dos bolsonaristas nas redes sociais pode ser exagerada. É como Trump: vários assessores se voltaram contra ele, ao menos um foi preso, e Trump segue atacando a todos como traidores ou incompetentes, sem ligar para o fato de que a incompetência também é sua: quem, afinal, escolheu esses funcionários? No mínimo podemos questionar a capacidade deles de escolher bons assessores, certo?

Enfim, espero que essa confusão toda envolvendo Flavio seja logo esclarecida, pois cada dia que passa é mais desgaste para o governo. E mesmo que não aceitemos fazer o jogo da esquerda, agir como idiotas úteis, temos um compromisso com a ética que é nosso maior diferencial em relação a essa mesma esquerda. Não é purismo jacobino, coisa que os próprios bolsonaristas ajudaram a fomentar e que agora volta para assombra-los. É coerência e rigor com nossos princípios, ainda que ajustados para algum pragmatismo político.

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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