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Rodrigo Constantino

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Contra extremistas de ambos os lados, Trump tenta trazer bom senso ao debate sobre massacres em escolas

O mais recente massacre na escola de Parkland, aqui perto, reacendeu com força o debate sobre controle de armas no país. Ambos os lados apelam para o radicalismo. A esquerda, que no fundo se aproveita desses momentos para impor sua agenda desarmamentista, quer proibir armas em geral, ainda que disfarce essa meta. Por outro lado, os conservadores mais fanáticos se agarram à Segunda Emenda como se não pudesse haver qualquer limite ou restrição, o que é absurdo.

Os “founding fathers” viveram numa época diferente, que não tinha armas com o mesmo poder de fogo disponíveis como hoje. No mais, o direito de ter “rifles” já é limitado. Uma criança de 12 anos não pode. O potencial das armas também é limitado: um sujeito não pode ter uma ogiva nuclear. Logo, o debate passa a ser onde traçar a linha divisória, quais as restrições que o governo deve impor aos cidadãos.

Entendo o receio da NRA e seus defensores: temem abrir qualquer brecha, pois conhecem seu adversário, sabem que os democratas não vão parar na proibição dos “bump stocks” ou algo do tipo, pois sonham em retirar todas as armas de todos os cidadãos, tornando a nação refém do estado. Mas mesmo com essa preocupação legítima, não faz sentido ser contra qualquer aumento de restrição ou controle, em minha opinião.

E, ao que tudo indica, para o presidente Trump também. Apesar do apoio da NRA à sua campanha, Trump tem ousado desafiar o status quo e pregar mudanças nas leis, aumentando o grau de controle e de “background check”. Não faz o menor sentido um garoto de 19 com claros problemas mentais conseguir comprar um fuzil AR-15 legalmente. Usando sua principal “arma”, Trump escreveu vários tuítes sobre o assunto:

Em linhas gerais, eis o que o presidente está dizendo:

  • É preciso ter um teste mais rigoroso para permitir a compra de armas (se para tirar uma carteira de motorista é preciso passar no teste, parece natural que seja ao menos mais difícil conseguir comprar uma arma, especialmente um “rifle de assalto”);
  • A idade mínima deve aumentar (não faz sentido o garoto ser proibido de beber cerveja, mas poder comprar um fuzil numa loja);
  • Alguns professores ou funcionários das escolas, após testes psicológicos e muito treinamento, poderiam portar armas no local, o que certamente teria um forte impacto de dissuasão nos potenciais atiradores, sabendo que haverá reação imediata (a polícia não tem tempo hábil para chegar ao local do crime, assim como o bombeiro leva algum tempo para chegar ao local de incêndio, e por isso há extintores);

Como se pode ver, são pontos moderados, até evidentes, que qualquer pessoa de bom senso pode concordar. Aumentar a idade, ter uma checagem melhor, e armar parte do efetivo escolar, com bom treinamento e com filtro psicológico: eis o que pode mitigar o estrago causado por malucos que resolvem sair matando por aí.

Infelizmente, as duas primeiras opções parecem tabu para os mais fanáticos da direita, enquanto a última é inaceitável para a esquerda. E por isso ficamos na mesma, sem qualquer mudança. Espero que Trump, um moderado, consiga avançar com essa pauta, que traria maior segurança para os alunos.

PS: Quem quer vetar qualquer cidadão de ter um fuzil não está sendo moderado, ao menos não para os padrões americanos (ou israelenses, ou suíços). O argumento de que ninguém precisa de uma AR-15 para combater o crime erra o alvo. Pessoas têm fuzis como hobby, para caçar, ou, no limite, como proteção contra o próprio estado, num caso extremo de tirania. Não há como os americanos abrirem mão desse direito, e eu acho que estão certos. Mas isso não quer dizer que não podemos falar em maiores restrições ao direito de comprar tais armas.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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