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Carlos Andreazza, editor da Record, está de volta às páginas do GLOBO, que há tempos não tinha um colunista tão bom nesse espaço de terças-feiras. Em sua coluna de hoje, Andreazza fala das “greves” dos alunos, tendo como base um vídeo que circulou bastante pelas redes sociais em que um rapaz dança ao som de samba enquanto impedia a aula do professor. O caso serve como pano de fundo para algo maior, pior: a cultura da intimidação, que tem se espalhado pelo país, ironicamente por aqueles que se dizem democratas e tolerantes, mas não sabem dialogar. Diz o autor:

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Protestar no Brasil, hoje, é ocupar — um eufemismo para invadir, tomar, interditar. O diálogo e o respeito ao próximo são ignorados no ato, mas se travestem de democratas os atores, de guardiões da liberdade. E não importa se — na sala do professor Popov, por exemplo — ao menos um aluno estivesse disposto a estudar. Não importa. Os democratas estão acima dessa coisa ultrapassada de indivíduo. São corajosos também, incensados como novidade, manifestantes românticos e radicais de uma nobre causa — contra a qual, aliás, não há quem esteja. (Ou alguém se opõe a melhores condições para o exercício da docência e da discência?)

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Esta é a medida da falência política e educacional do país. Perdemos de todo a noção de individualidade — logo, de responsabilidade. Funcionamos sob a lógica do bando. Acomodamo-nos desta forma, tratando por peças respeitáveis no tabuleiro do jogo político aqueles que nos assaltam o direito de ir e vir. Tomam-se ruas, escolas, repartições e empresas tal e qual elevado exercício da liberdade de expressão — como se assim, num só golpe, não se sustasse igualmente o debate público. Lembremo-nos: a ocupação das ideias — o sequestro da palavra, da linguagem — sempre precede. O Brasil, faz tempo, é gerido pelo norte ideológico da guilda, pelos interesses de classe, pelo modelo black bloc de negociação — e esses gestores tomaram e corromperam também o sentido do que seja direito, liberdade, democracia.

Os estudantes são a massa de manobra perfeita para os “intelectuais” românticos, niilistas ou simplesmente canalhas. Jovem idealista, incapaz de arrumar o próprio quarto, mas já pronto para “salvar a humanidade”: esse perfil de aluno sucumbe à tentação de agir como revolucionário, pensando ser consciente politicamente, enquanto não passa de um idiota útil dos velhos radicais. Pensem em Bernie Sanders e seu séquito de apoiadores juvenis bobocas, incapazes de entender o que é o socialismo. O “novo revolucionário” sempre tem a idade de um “intelectual” senil.

Como lembra Andreazza, há método nisso tudo. A esquerda revolucionária adoraria, inclusive, ter um mártir para incendiar sua revolução. Um aluno que morresse em confronto com a polícia seria algo celebrado por esses esquerdistas, que já não enxergam mais indivíduos de carne e osso, mas sim apenas instrumentos da revolução. É tudo bem orquestrado, pensado, consciente, enquanto o único inconsciente de tudo é o jovem peão, usado como meio sacrificável no processo. Amanhã, será o novo “intelectual”, o professor dos seus filhos a doutrinar outros jovens.

E tais métodos têm se alastrado pelo país. Se o taxista não gosta do Uber, fecha as vias da cidade. Se os artistas não gostam da mudança de status do MinC, ocupam os teatros. São os “coletivos” em ação, falando em nome do povo, da democracia, da “justiça social”, da tolerância, enquanto só agem em bando, de forma autoritária, totalitária, violenta, intolerante. E acabam impondo uma adesão quase involuntária, devido ao grau de poder e influência que possuem, intimidando e perseguindo quem não fizer parte de seu bando. Artista de direita, ou mesmo independente, costuma ser vítima do ostracismo pelos pares.

“Num futuro não distante, todo mundo será manifestante — se quiser prosperar. Será abaixo-assinado — se quiser pertencer. Terá de ser militante — se quiser ter existência reconhecida”, conclui Andreazza. A filósofa russa Ayn Rand já sabia que “o argumento pela intimidação é uma confissão da impotência intelectual”. Essa gente é impotente, não pensa por conta própria. Por isso precisa do bando. Por isso precisa intimidar. Por isso tem de ocupar, já que não sabe debater ou dialogar. Infelizmente, esse tipo de imbecil pulula em nosso país.

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Rodrigo Constantino