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A demonização do contraditório e a confusão entre jornalismo independente e militância torcedora
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As eleições se aproximam, alguns candidatos colhem fracassos em articulações e alianças e o temor da derrota aumenta. O clima perfeito para a impaciência e a ansiedade. Será que tudo foi apenas um sonho?, questionam aqueles que cantavam vitória certa antes do tempo, sem compreender o funcionamento de uma eleição. Vai batendo desespero, até porque muitos depositaram toda a esperança num nome como salvador da Pátria, a alternativa sendo, em suas cabeças, a volta do Foro de São Paulo e a venezualização do Brasil, no caso dos seguidores de Bolsonaro, ou uma terrível guinada à direita, no caso dos seguidores de Ciro Gomes.

É nesse contexto de tensão crescente que o pior lado da militância mostra sua face. Ao longo do processo, confundindo pesquisas muito incipientes com o dia da eleição, essa gente mais aguerrida foi dinamitando pontes, atacando todo aquele que não se mostrou totalmente “leal” ao projeto de poder. Basta pensar no grau dos ataques dos bolsominions ao MBL e ao Novo. Apostaram todas as fichas no tudo ou nada, e como o risco do nada aumentou, entraram em parafuso.

Cada vez mais gente, conforme o previsto, mostra-se “traidor”, revela-se um “socialista fabiano” infiltrado, um Cavalo de Tróia. É porque ou cede completamente aos encantos do líder, ou então só pode ser um inimigo que não quer salvar o Brasil de fato. Felipe Moura Brasil, até “ontem” uma voz para essa turma, passou a fazer críticas a essa postura, explicando o papel de um jornalista e recusando o chapéu de militante torcedor:

Ele gravou um comentário com recado aos militantes também:

Felipe Moura Brasil é mais um a passar para “o outro lado”, na mente binária e tribal de certos militantes. Como ele, vários outros foram sendo detonados no caminho, pois hesitaram, fizeram críticas, mesmo que construtivas, ou se recusaram e endossar a campanha, até porque possuem funções distintas. Sei do que falo, pois sou cobrado o tempo todo por vários deles: “vai votar em quem?”

Outro que “rompeu” com a tribo foi Lobão, e já está sendo demonizado por isso. Tem usado seu Twitter para se defender, para justificar sua postura, seu direito de não votar em quem essa militância exige que ele vote para continuar sendo considerado uma pessoa do bem:

Lobão sentiu o gostinho de ser tratado como “inimigo mortal” da noite para o dia, depois de ser herói da tribo. A militância fanática é sempre assim: vai da idolatria ao ódio em questão de segundos, pois não suporta qualquer brecha, qualquer “escorregada”. É preciso ser como ela, agir como ela, colocar o líder num pedestal e repetir: “Ele tem sempre razão”.

Desde o início alertei que se Bolsonaro vencesse seria a despeito da militância, não por causa dela. Lotar aeroportos é legal, dá uma sensação de que o povo está todo do mesmo lado, gera algum engajamento voluntário. Mas é pouco, muito pouco para uma vitória majoritária com mais de cem milhões de eleitores. O mesmo vale para as redes sociais, que muitos confundem com o mundo real lá fora.

Ou o candidato iria moderar seu discurso e acenar para perfis diferentes e até contraditórios, para agregar mais à sua campanha, ou se fecharia na bolha dos bajuladores (muitos oportunistas) e deixaria a frota reacionária, inspirada pelo guru distante, dominar a cena. Não é possível ter e comer o bolo ao mesmo tempo. Quem elogia a frota não é capaz de atrair determinados tipos mais moderados.

A julgar pelo silêncio do próprio Jair Bolsonaro enquanto essa militância, bem próxima da família, fazia seu trabalho sujo, implodindo qualquer possibilidade de conversa e parceria, a escolha foi feita, e um elevado preço será cobrado. Como, para dar um exemplo, esperar que a garotada liberal do MBL vá apoiar sua candidatura depois de tudo que sofreu de ataques pérfidos? Como achar que o pessoal do Novo vai fechar com o líder de um movimento que só fez tripudiar do partido desde o começo?

A resposta da militância? Quem precisa desses liberais idiotas?! E o grupo dos “liberais idiotas” foi aumentando, pois cada vez mais gente foi percebendo a postura intransigente e fanática da turma e se afastando. Como já alertei antes, ou é Paulo Guedes ou Alexandre Frota. Ambos fica complicado. Ou é Janaina Paschoal ou Olavo de Carvalho. Ou é Lobão ou carteiros reaças e terças nada livres. Não dá para ter todos juntos, pois a ala fanática não sabe conviver com o contraditório e não é nada agregadora. Só sabe xingar e rotular.

A eleição passa, o Brasil fica. E o Brasil precisa de um legítimo movimento de direita, liberal e conservador. Independentemente de quem vencer o pleito, a luta continua. E é isso que, pelo visto, a militância ainda não compreendeu. Com sua postura de tudo ou nada em eterno segundo turno, cujo resultado é tido como binário – ou a salvação da Pátria ou o destino venezuelano – ela vai afastando mais e mais gente decente e moderada, que pode anular o voto ou cair no colo de um tucano vermelhinho, casado com pelegos. O picolé de chuchu, costurando pelas beiradas, agradece.

Às vezes ficamos até com a impressão de que é o Osho o Cavalo de Tróia que ele acusa nos outros, infiltrado na direita para impedir seu avanço. Afinal, ele precisa da constante e iminente ameaça de vitória comunista para sobreviver, para justificar sua revolução jacobina, sua seita, da qual é o líder infalível que, “dialeticamente”, jamais errou. E tem gente que cai nessa ladainha…

Rodrigo Constantino

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