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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Duplo padrão: articulação política e entrevista para a Globo já estão liberadas?

Quem quer que ouse criticar publicamente a postura de seita de bolsonaristas e olavistas conhecerá a fúria dos fanáticos. Janaina Paschoal resumiu bem quando falou em petistas com sinal trocado. É exatamente igual. Ou até pior. A idolatria ao “guru” ou “mito”, a bajulação constante e constrangedora, a necessidade de considerar que eles – filósofo e “rei” – estão sempre certos, eis o repertório da turma. E se você aponta para essas características pouco saudáveis e incompatíveis com qualquer pensamento independente, então você é um traidor, um vendido, um comunista!

Pois bem: a ala madura e democrática da direita vem tentando, faz tempo, mostrar que a campanha terminou, Bolsonaro venceu e agora precisa governar. Há um país com pressa, com mais de 13 milhões de desempregados, um estado falido e uma economia estagnada. É hora de deixar as redes sociais um pouco de lado, não jogar tantos confetes para a militância, e focar nos resultados concretos. Aprovar a reforma previdenciária – sem muita desidratação – deve ser a meta número um, dois e três do governo. E, para tanto, é preciso fazer política, articular com o Congresso.

Porém, embalados pela narrativa jacobina purista, a horda militante passou a disseminar nas redes sociais que articulação seria sinônimo de corrupção, de mensalão. Quem quer que usasse o termo seria automaticamente colocado no rol dos defensores de corruptos. Sei, porque fui. Mas como o mundo dá voltas e o tempo é amigo da razão, e até mesmo os Bolsonaro eventualmente percebem que “mitar” no Twitter não faz o Brasil avançar, o que é necessário para o sucesso de seu governo, eis que agora o uso da palavra está novamente liberado. Foi Dudu, afinal, quem a usou:

Pois é: articulação! Agora, pelo visto, pode. Não significa, então, levar malas de dinheiro para deputados ladrões? Não é o mesmo que comprar votos? Interessante. Alexandre Borges comemorou a mudança de postura do governo em seu comentário na Jovem Pan hoje:

E não é apenas a articulação política que está novamente liberada. A “extrema-imprensa” passou a ser demonizada pela ala jacobina. Não só apontar o claro viés ideológico de esquerda, pois isso eu faço há anos. Não só mostrar que há, de fato, perseguição e má vontade contra Bolsonaro, o que faço sempre. É colocar a mídia, toda a mídia, como “inimiga do Brasil”, como vendida, como coordenada por forças terríveis para derrubar o governo. Nada que vem da imprensa presta! Da Globolixo, então, nem se fala!

Só há um problema: quando o “guru” da seita resolve… dar entrevista para a mesma Globo! “O Pedro Bial esteve aqui no último fim de semana, gravando comigo uma entrevista que irá ao ar pela Globo no dia 9”, confessou Olavo de Carvalho. Pergunto, por curiosidade: a Globo passou a ser confiável ou tudo que vem dela é lixo? A mídia mainstream deve ser tratada como inimiga mortal da nação ou como instrumento legítimo para expor ideias? Isso seria “articulação” com golpistas? Tudo que vem da Globo é… lixo? Ou há exceções? Ou temos que separar o joio do trigo, avaliar cada caso, ainda que seja legítimo apontar um viés predominante?

Perguntas retóricas, claro. Qualquer pessoa sensata sabe que é isso que deve ser feito: reconhecer o viés ideológico, mas entender que é preciso olhar caso a caso, pois há gente séria e coisa boa sendo publicada ou produzida pela imprensa. Há jornalistas e “jornalistas”. E o mais importante: não devemos aderir à tática de atacar o mensageiro para não ter de rebater a mensagem. Ou seja, não é porque algo vem da grande imprensa que automaticamente deve ser descartado como “fake news”. Foi essa mesma imprensa que, afinal, trouxe várias denúncias importantes contra o PT. E o governo atual deve explicações quando fatos incômodos são trazidos à tona.

Enfim, a postura de qualquer ser racional e independente é criticar quando acha que é devido, e elogiar quando acha que é merecido. Avaliar cada caso e tirar suas próprias conclusões. Entender que um governo pode articular sem necessariamente praticar mensalão. Aceitar que, apesar do viés ideológico, há coisa séria na imprensa. Essa seria a postura de pessoas normais. Sabemos que minions e olavetes, porém, não são normais nesse sentido. Quem precisa ter “guru” e “mito” sacrifica a independência de julgamento. Quem tem que dizer “amém” a tudo que um líder diz ou faz, pois ele “está sempre com a razão”, saiu da seara do raciocínio e entrou na adoração de seita.

Para finalizar, fica um recado do “pai do conservadorismo” Edmund Burke para a turba ensandecida, que acha que pode intimidar os analistas independentes:

Porque meia-dúzia de gafanhotos sob uma samambaia faz o campo tinir com seu inoportuno zumbido, ao passo que milhares de cabeças de gado repousando à sombra do carvalho inglês ruminam em silêncio, por favor, não vá imaginar que aqueles que fazem barulho são os únicos habitantes do campo; ou que logicamente são maiores em número; ou, ainda, que signifiquem mais do que um pequeno grupo de insetos efêmeros, secos, magros, saltitantes, espalhafatosos e inoportunos.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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