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Por Sergio Renato de Mello, publicado pelo Instituto Liberal

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Tomei conhecimento da entrevista que Camille Paglia deu no programa Roda Viva Internacional do dia 22.10.2015. Acho o seu trabalho esclarecedor e dignificante para as mulheres que preferem não usar o rótulo de feministas, pois ela faz parte de um grupo, nos dias de hoje, mais que seleto de mulheres que lutam por seus direitos sem qualquer pretensão de excluir o do outro, de diminuir ou menosprezar o que é alheio, no caso, o homem e o que vem dele. No caso, sem a pretensão de excluir o macho, como querem as feministas radicais, fundamentalistas ou ortodoxas, que levam tudo a ferro e fogo e sem o mínimo desvio das barbaridades que são ensinadas ou propagadas por aí de uma forma mais ou menos difusa. Em palavras mais sucintas, o que Camille Paglia defende, quando nega a abortização do humano, é a defesa da dignidade da pessoa humana.

Vamos a trechos da entrevista, para provar que Camille Paglia é defensora sim dos direitos humanos à preservação da identidade de cada um, bem como do livre arbítrio a prestar consentimento. Com ênfase principalmente em crianças e adolescentes, ainda sem desenvolvimento psicológico para entender o que seja sexo e dar consentimento para investidas criminosas em seus corpos.

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Na pergunta de Paulo Werneck aos 13 minutos e 32 segundos da gravação (agora disponível no youtube), com relação ao que ela achava da cultura transgênero, respondeu magistralmente a entrevistada o que segue abaixo.

A definição de sexo é por meio do critério biológico, havendo no DNA de cada indivíduo a sua essência definitiva, muito embora haja casos que sejam ambíguos. Tem ela certeza de que, biologicamente, ou se é homem ou se é mulher (13 min e 46 seg). Muitas mentiras são propagadas atualmente (14 min e 05 seg), tendo ela preocupação com a divulgação dessas mentiras, ou seja, de que o sexo das pessoas não é definido biologicamente e as levando a cirurgias indiscriminadas (14 min e 30 seg). Pais estão sendo encorajados a submeterem seus filhos e cirurgias hormonais e outras manipulações cirúrgicas, o que acredita ser um abuso infantil (14 min e 36 seg). O certo seria esperar a idade correta para o devido consentimento (14 min e 52 seg).

E o mais importante para o presente texto vem em seguida.

Nas fases mais avançadas ou decadentes da cultura é que começa a ter a fase do transgênero, indicando o colapso de uma cultura (15 min e 44 seg) e da civilização ocidental (16 min e 07 seg). Como Roma caiu o ocidente também cairá (17 min e 53 seg). O que nos restará? Dependeremos dos homens de novo (17 min e 55 seg). Ao fim de tudo, como a história é cíclica, os sexos se unem para haver nova separação (20 min e 13 seg).

Para Camille Paglia e boa parte de seus seguidores ferrenhos e com um certo bom senso aliás, o que se vê hoje sob a bandeira feminista não chega perto do que a defesa das mulheres era como um instrumental à dignidade humana. Infelizmente, o vocábulo é eterno mas o coração humano é corruptível e enganoso.

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Para mim, é louvável o trabalho que mulheres, feministas ou não, vêm fazendo e os resultados alcançados no combate ao preconceito, bandeira sempre por elas utilizada desde quando o tratamento literário a elas dispensado, nas palavras de Chesterton, era a de sufragistas. Muito embora naquela ocasião, idos de 1910, quando o renomado pensador tinha escrito a tal obra, as sufragistas eram mulheres que defendiam boas condições cívicas para elas mesmas, como o voto. Por isso o nome, sufragistas. E, olhando a condição cívica de hoje, como não poderia deixar de ser, logicamente, o voto é universal, não distinguindo sexo, inteligência ou fortuna.

Assim, o radicalismo de hoje em dia, propagado como meio em massa de se produzir ódio e rancor contra a testosterona, partiu para um lugar muito, mas muito distante da defesa essencial da mulher e de seus direitos na sociedade. É natural que a massa seja manipulada por ideais, já que se interrompe todo um pensamento crítico (William Powers, citado por Suzanne Venker e Phyllis Schlafly, em O outro lado do feminismo).

O trabalho de Camille Paglia lembra muito, em alguma parte, o que Chesterton já deixou dito em seu O que há de errado com o mundo, publicado pela Editora Ecclesiae. Esse feminismo anarquista de hoje, vertente radical de algo digno quando exercido com bom senso e equilíbrio, ainda está no parabrisas e no retrovisor de quem corre em alta velocidade e é diferenciado, apenas, na visão das feministas, por um pênis menos avantajado.

Em A sufragista amilitar Chesterton ensaia que o problema das feministas é que elas são amilitares ou não são militares o suficiente. Ou seja, parece que elas não querem a paz, destino natural e necessário de qualquer guerra, porque essa militância não é uma autêntica revolução, e sim uma anarquia. “Elas não geram uma revolução, o que geram é anarquia; e a diferença entre essas duas coisas não é uma questão de violência, mas de fecundidade e finalidade. A revolução, por sua natureza, gera um governo; a anarquia só gera mais anarquia.” Na minha concepção, como ainda não há autêntica revolução, e sim anarquia, não haverá paz, que é a bonança depois da tempestade.

No afã de implementarem os seus desejos, interesses ou direitos, as feministas ortodoxas deixaram passar em branco o período de reflexão necessária para a conquista de seus direitos, de modo que hoje se defende da conquista de simples direitos à igualdade à eliminação do macho, autêntico fenômeno que vai da misandria ao expurgo da própria testosterona em laboratório, uma experiência vidual de quase ficção científica para uma pauta do além do pós-modernismo ou no pós-feminismo. A pretensão é eliminar não apenas o par e ficar viúva, abdicando da herança ou se auto deserdando ao desaviso de sua manutenção; é exterminar de vez o sêmen, o verbo, enfim, mais ainda num princípio de todas as coisas, o próprio fôlego da vida (Gênesis 2,7).

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É patente a negação da personalidade das criancinhas de jardim aos marmanjos de universidade, com o poder belicoso desarmado mas mais ainda mortal porque diretamente na consciência e na alma, último reduto, esconderijo protegido, casulo de quem ainda pode buscar matar a fome pelo divino. A eliminação dessa fome, no último estágio de desespero, é o alvo. O problema é que querem matar essa fome com guloseimas que só trazem mais fome ainda, e sede, além disso. Isso é abuso e crime contra os infantes, onde a intelligentsia assume como mentora com o domínio do fato e os pais negligentes como executores.

Reclamam de homens brutos e insensíveis ao afeto, mas usam das mesmas armas que eles, valendo-se de sexo desafetante e angustiante como instrumental. No além da pós-modernidade ou mais ainda à frente, só Deus sabe, do jeito que a coisa anda, um mísero copo de água será negado mesmo por quem ainda está com o seu reservatório cheio. A negação do amor total é consequência do esfriamento espiritual já profetizado.

Querem capturar a presa no presente para criar um futuro e novo, porém ainda igual, predador, que cace, pesque e ainda faça o serviço brutal, de músculos, sem deixar de arrumar a casa, obviamente.

Debater não querem, posto que sabem que vão perder nesse embate filosófico ou científico, preferindo a superficialidade de seus mimos e o recôndito de seus ressentimentos mais profundos; partem para a militância desarmada, ou melhor, para uma anarquia despeitada e despudorada, cientes de que, na visão quase profética de Chesterton, deliciantes do abuso de direito e da esfera do privado alheios, a paz não chegará de fato, não dessa forma.

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Infelizmente, não sendo cético mas um realista preparado, é cenário de um palco de um ser, um prognóstico, e não de um dever ser. Assim como no início era apenas o verbo e a terra era sem forma e vazia e agora temos o que temos em razão de um construído a partir de um nada, o futuro será a volta da testosterona para a caça, pesca e arrumo de casa, talvez vendida a um custo muito caro, nesse caminho de pureza originária no acerto e desacerto em nosso Contrato Social.