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Guerra comercial não fará a América grande novamente
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O ponto fraco de Trump é mesmo sua visão mercantilista, que leva ao protecionismo comercial. O presidente encara a “guerra comercial” como algo necessário para resgatar a grandeza americana, para revitalizar sua indústria, enfraquecer a China, reduzir o déficit comercial. Por essa ótica, importação seria algo basicamente ruim. O aço deve ser produzido na América, ainda que mais caro! Ignora-se que o aço é insumo para vários outros setores, que estariam pagando mais pelo produto.

Reduzir as regulações, diminuir os impostos corporativos, cortar burocracia, tudo isso que Trump fez até aqui é louvável e merece aplausos dos liberais. Mas quando o assunto é comércio externo, lá vem o ranço protecionista, que beneficia produtores locais, à custa dos consumidores. Alguns argumentam que se trata de uma brilhante estratégia geopolítica para conter o avanço chinês, mas seria no mínimo arriscado demais, e pode prejudicar bastante os próprios americanos.

Quando um país entre em guerra com outro, uma das primeiras medidas é dificultar o acesso do inimigo aos bens que vêm de fora. Impedir a passagem de navios, derrubar pontes, criar, enfim, barreiras que dificultam o comércio desse país com o resto do mundo. Quando o próprio governo faz isso em tempos de paz, ele age como um inimigo em tempos de guerra: por trás do discurso de proteção está uma medida que favorece poucas indústrias com forte lobby, e pune o restante do país.

A política de substituição de importações não funciona. E atiçar uma guerra comercial está longe, bem longe dos interesses nacionais dos americanos. Seria o caso de resgatar as lições da Grande Depressão, e as reações equivocadas dos governantes da época, que depositaram no estado um papel preponderante na reconstrução da infraestrutura e da economia, fechando-se para a globalização.

Smoot-Hawley Tariff Act. National Credit Corporation. Reconstruction Finance Corporation. Farm Credit Act. Banking Act. National Industry Recovery Act. Farm Mortgage Refinancing Act. Export-Import Bank. Home Owners Loan Act. Securities and Exchange Act. Communications Act. National Housing Act. Emergency Relief Appropriation Act. Works Progress Administration. Rural Electrification Administration. Wagner Act. Fair Labor Standards Act. Social Security Act. Revenue Act. Essas são apenas algumas medidas adotadas por Roosevelt (à exceção das duas primeiras, de Hoover) durante a Grande Depressão. O New Deal foi um programa de enorme hiperatividade e crescimento do papel do governo na economia. O resultado, ao contrário do que muitos acreditam, foi péssimo.

O livro The Forgotten Man, de Amity Shlaes, relata com detalhes a história dessa complicada fase americana. Resgatar na história os erros do passado pode servir para evitá-los no presente. A arrogância dos políticos em Washington, confiantes de que poderiam resolver a crise com canetadas e aumento de gastos públicos, ajudou muito a postergar a recuperação da economia. Havia uma sensação bastante disseminada de que somente enormes intervenções estatais poderiam reanimar a economia. No mundo, a Itália de Mussolini e a União Soviética de Stalin conquistavam muitos adeptos do dirigismo estatal, intelectuais e economistas que acreditavam no planejamento central do governo como locomotiva do desenvolvimento. Eles estavam errados, naturalmente.

A retórica de Roosevelt era bastante populista, e seus constantes ataques aos negócios privados geraram um clima de insegurança generalizada. As medidas do New Deal dificultaram a vida das empresas ainda mais do que a crise já fazia. Os impostos aumentaram, o império da lei foi trocado pela arbitrariedade do governo, e as greves e salários maiores, resultados do Wagner Act, aumentaram os custos numa época em que era fundamental reduzi-los para a sobrevivência. O governo de Roosevelt sistematizou as políticas de grupos de interesse, e a menor minoria de todas – o indivíduo – era o “homem esquecido” que pagaria a conta.

Roosevelt focava apenas naquilo que se vê, ignorando tudo aquilo que não se vê, para usar os termos de Bastiat. Os defensores do New Deal, muitos deles simpatizantes do modelo soviético, criaram um clima de hostilidade aos empresários, assim como um ambiente de polarização no país. Os duros ataques aos “ricos” – lembrando que FDR era um homem rico – serviam para alimentar a revolta dos pobres, mas não para reduzir a pobreza.

O protecionismo comercial, sempre tentador para políticos em épocas de crise, jogou a economia americana numa depressão ainda maior. Hoover assinou o Smoot-Hawley Tariff Act, mesmo com mais de mil economistas escrevendo uma carta aberta onde tal medida era duramente condenada. A medida se mostrou catastrófica, e retaliações ocorreram no mundo todo. As importações americanas caíram mais de 40%.

Claro que Trump não é nenhum Roosevelt, não demoniza a iniciativa privada (ao contrário), não aumentou impostos (ao contrário). Mas compartilha de duas visões equivocadas de Hoover e FDR: a ideia de que o estado tem um papel fundamental no investimento em infraestrutura, e a noção de que dificultar as importações seria do interesse da América.

Trump tem feito um bom governo até aqui, do ponto de vista liberal. Podemos até lhe conceder o benefício da dúvida quanto a essas medidas, dentro de uma estratégia maior geopolítica. Mas são medidas que um Ciro Gomes assinaria embaixo, que uma Dilma aplaudiria de pé, e isso já é motivo suficiente para total alerta.

Patriotismo não pode ser confundido com nacionalismo, muito menos com um nacionalismo protecionista que trata produtos importados como ameaças. Uma guerra comercial não é do interesse do povo americano. Que Trump possa ter em mente as lições da Grande Depressão.

Rodrigo Constantino

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