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Homo politicus
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“A política é supostamente a segunda profissão mais antiga; Eu acabei notando que ela possui próxima semelhança com a primeira.” (Ronald Reagan)

Costuma ser muito comum a crítica de que o mercado é imperfeito e que é desejável grande intervenção estatal para resolver tal imperfeição. Alguns economistas falam até mesmo em coisas como a “ditadura” do mercado, que deve ser evitada a todo custo. A solução proposta é sempre a mesma: delegar poder ao Estado. Existem apenas três causas claras que tornam essa postura possível, em minha opinião. Ou estamos lidando com falta de conhecimento, ou cegueira ideológica ou apenas uma busca de interesses particulares pelas vias políticas, e não econômicas.

O mercado é somente um palco para a livre interação de indivíduos com diferentes objetivos e preferências subjetivas. Dele participa quem quer. Ninguém é obrigado a comprar nada, nem a produzir nada. Os preços de mercado serão obtidos pelo encontro entre as curvas de oferta e demanda, nesse ambiente de liberdade de escolhas. Fica evidente, portanto, que quando alguém fala de “ditadura” do mercado está assinando um atestado de ignorância sobre o assunto.

Já escutei até mesmo o “argumento” de que não há liberdade em escolher entre a cerveja Skol ou Brahma. Ignorando que o livre mercado trouxe milhares de opções de cervejas, para todos os gostos e bolsos, vejamos quais as opções que este sujeito possui: ele pode simplesmente optar por não consumir cerveja alguma, já que é livre para não participar do mercado, ou ele pode produzir a sua própria cerveja, já que também é livre para isso. A única alternativa ao mercado é o Estado, e basta ver quantas opções de cerveja existem em Cuba para se ter idéia do que acontece quando fugimos da “ditadura” do mercado. Aliás, quem quiser ficar livre de vez de todas as mazelas do “mercado capitalista”, pode simplesmente ir morar na selva, sem indústrias, sem “imposição” de produtos, sem carros, computador, remédios etc. Estará livre do mercado!

No segundo ponto, sobre as falhas do mercado, existe uma clara falta de lógica também. Ninguém defende que o mercado é perfeito. Perfeição não existe entre os humanos. E o mercado é apenas a livre interação entre homens. Portanto, parece evidente que o mercado terá falhas. Curioso é quando essas pessoas defendem a concentração de poder em burocratas do governo para “consertar” tais falhas. Como o homo politicus é o mesmo que o homo economicus, as falhas apenas serão agravadas. As “correções” do governo para as “imperfeições” do mercado causam, no longo prazo, mais mal que bem, além de tirarem a liberdade de escolha dos indivíduos. Será que a eleição de 500 representantes políticos, também com seus interesses particulares, é capaz de assegurar a satisfação das escolhas individuais de milhões? Apontar supostas falhas do mercado e concluir que a concentração de poder no Estado é o caminho, trata-se de um caso de non sequitur, uma falha lógica grave.

Os defensores do maior poder estatal comparam uma realidade imperfeita com uma utopia, um Estado sobrehumano, clarividente, iluminado. Em um supermercado, as pessoas compram produtos que beneficiam a si mesmos. No entanto, quando alguém se torna político, presume-se que se transforme e adquira uma perspectiva mais ampla, que o induza a tomar decisões moralmente corretas, em lugar de simplesmente beneficiar os grupos de seu interesse, que permitiram sua eleição. Claro que isso não acontece na realidade. Políticos são humanos, e a própria lógica política inviabiliza a concretização dessa visão ingênua e romântica. A maioria das pessoas entende isso, principalmente analisando a conduta de qualquer político isoladamente. Mas quando vão julgar em linhas mais gerais, condenam o “mercado” e pedem mais poder ao Estado. Contradição pura, normalmente por fatores ideológicos.

Em uma democracia, políticos ganham a vida vencendo eleições. Para ser um grande senador, primeiro tem que ser um senador. Portanto, da mesma forma que um empresário projeta um produto para atrair os consumidores, o político escolhe suas medidas para ser recompensado pelo voto de sua base nas próximas eleições. No mercado, diferente da política, o “plebiscito” é ininterrupto, e a qualquer momento o consumidor pode trocar de fornecedor do produto. No mercado competitivo, trocam-se produtos desejáveis, colocando a prioridade na satisfação do cliente, enquanto na política trocam-se favores entre grupos poderosos.

Além disso, a preocupação na análise ao comprar algo desejado para si será infinitamente maior que no processo de eleição, onde um voto praticamente não faz diferença no resultado. Os indivíduos sempre irão se esforçar menos para tomar uma decisão correta na eleição do que fariam ao comprar um carro ou qualquer outro produto no mercado livre.

Em resumo, os funcionários públicos são humanos também, imperfeitos, e estão sempre buscando maximizar seus próprios interesses. Pela lógica da política, isso leva ao foco nos grupos que possibilitam sua eleição. Por isso que, em política, os benefícios são sempre concentrados, enquanto os custos são dispersos entre o restante. Grupos organizados ganham, pela troca de favores, enquanto indivíduos independentes pagam a conta. Para “consertar” as imperfeições do mercado, as pessoas concentram ainda mais poder nesse homo politicus, que buscará sempre garantir novos privilégios para seus aliados. E a liberdade de escolha existente no mercado vai cedendo lugar para o autoritarismo dos políticos. Eis o resultado concreto da fé cega e ideológica na “divindade” do homo politicus.

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

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