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“A liberdade de pensamento termina ali onde começa o dogma.” (Goerge Orwell)

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Vocês lembram de Saturnino Braga? Quem é do Rio terá mais dificuldade de esquecer: sua gestão foi terrível. Mas Saturnino era considerado um sujeito honesto por quase todos. Alguns chegaram a afirmar justamente que ele “desmoralizou a honestidade”. Pois é: quando a única bandeira de um político é a “vassoura contra a corrupção” (Jânio Quadros), a “caça aos marajás” (Collor), sabemos do perigo.

Há um novo “faxineiro” no local. Chama-se Jair Bolsonaro. A honestidade é praticamente sua única bandeira, já que não consegue participar de um só debate construtivo sobre ideias de gestão, economia, propostas concretas (é contra a reforma da previdência). Tanto que, em seu sétimo mandato como deputado (um “outsider” da política exatamente como Trump, claro), só apresentou dois projetos de lei, que não vingaram. Vive de slogans contra os comunistas, uma luta louvável, mas adequada para o Congresso, que não o qualifica para o executivo.

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Quando o assunto é economia, sai de baixo! Sobra nióbio, falta entendimento básico do assunto. E não foi por falta de vontade minha em ajudar. Mandei de presente para o deputado meu curso online “Bases da Economia“, e também cheguei a enviar um email para seu filho Flavio, com o título “Bolsonaro e a economia”, em 8 de abril deste ano, onde dizia:

Apesar das divergências com Jair Bolsonaro, e mais ainda com alguns de seus seguidores mais fanáticos, acho muito importante que ele tenha uma candidatura competitiva em 2018, para reforçar um chamado à direita no país. Mas, para tanto, e para que eu mesmo não tenha que “meter bala” nele, será preciso acertar o tom na área econômica.

[…]

O que podemos fazer a respeito? Já ofereci meu curso de economia. O que mais? Podemos marcar um hangout com ele para conversar sobre o assunto, talvez. Podemos mostrar que não é bem assim, que ele evoluiu muito na questão da economia. Mas, antes de mais nada, preciso perguntar: evoluiu mesmo? 

Enfim, estou aqui para ajudar no que for possível. Mas se esses arroubos nacional-desenvolvimentistas continuarem, terei que criticá-lo, em nome da minha honestidade intelectual e do liberalismo.

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Pois é, os arroubos continuaram. Em entrevista recente, ele parecia até o Ciro Gomes ou a Dilma criticando os juros altos como se bastasse “vontade política” para reduzi-los, na marra. Não parece interessado em se aprofundar nos temas econômicos, pois já tem sua bandeira – a ética – e sua militância fanática, disposta a detonar qualquer um que ouse tecer uma crítica ao “mito”.

Com tal postura de seita fechada, cercando-se dos idiotas radicais, e adotando discurso jacobino contra “tudo e todos que estão aí”, contra a política em si, Bolsonaro conseguiu afastar número cada vez maior de potenciais aliados, de liberais e mesmo conservadores que tinham tudo para lhe dar base intelectual numa eventual candidatura, fora apoio como formadores de opinião. Preferiu se cercar dos bajuladores, fomentar a militância burra, tosca, gente como o responsável pelo irresponsável canal Terça Livre, que fez essa acusação canalha contra o editor Carlos Andreazza:

Ora, Carlos Andreazza é um funcionário da editora, não seu sócio, menos ainda proprietário. Insinuar, digo, acusar um funcionário por algo que cabe aos acionistas decidir é coisa de cafajeste. No mais, Andreazza defende abertamente o fim do BNDES, assim como a privatização das estatais, que são o maior incentivo à corrupção na prática, para além de discursos. Como Bolsonaro se posiciona sobre isso? Quer privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa, e fechar o BNDES? Não o vemos falando disso por aí.

Quem quer que já tenha criticado Bolsonaro e tenha alguma exposição pública conhece bem a reação da turma: parece coisa de bicho acuado, raivoso. E claro: os defensores de Bolsonaro podem fazer como os defensores dos black blocs ou do Islã, alegando que são apenas parte de uma minoria mais violenta e agressiva, que não falam em nome do líder, do grupo, do todo. Podem até repetir que “deturparam Ustra”. Mas o fato inegável é que o próprio Jair e seus filhos incentivam tal postura, jamais se pronunciam contra essas agressões desonestas. Alimentam os trolls. Por isso se fala em “bolsominions”, aliás.

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Sempre que um texto crítico desses é escrito, três coisas acontecem: algumas centenas de seguidores deixam de me seguir (tudo bem, faz parte e não quero leitores fanáticos de seitas fechadas, incapazes de debater de forma civilizada); uma turba de militantes invade meus canais para me atacar, xingar, me acusar de “vendido” ou simplesmente repetir que Bolsonaro é uma espécie de Deus; e os mais moderados, a turma do “deixa disso”, vem criticar que estou desunindo a direita, como se a única forma de uni-la fosse abaixar a cabeça e se curvar para todas as baboseiras de Bolsonaro, e engolir calado todos os ataques estúpidos de sua militância, até mesmo ameaças de morte, como esta que o Andreazza recebeu:

Claro, pode-se alegar que é um caso isolado, um “fake” de algum maluco qualquer. Mas quem critica abertamente Bolsonaro sabe bem que há uma legião de malucos ali, que pode não chegar a esse limite, mas vai perto, ataca de forma abjeta qualquer detrator do ídolo. Para os “bolsominions”, só há uma razão para se criticar Jair: ter se vendido para o “socialismo fabiano”. É de uma falta de imaginação ímpar, talvez projetando nos outros seu próprio caráter frágil.

Discordar de Bolsonaro é legítimo. É mais do que isso: é sensato! Focar no longo prazo, na construção de um movimento cultural de direita, é algo que deve estar acima da campanha de um político em uma eleição, e até Olavo de Carvalho bate nessa tecla com frequência. Quem escolhe gurus e endeusa políticos passou longe do verdadeiro conservadorismo, sempre cético para com a política, que não é bala de prata, que não deve contar com um messias salvador. Eu trato políticos como meus servidores, não como meus ídolos.

Quando Andreazza, que tanto fez por esse movimento cultural da direita, inclusive lançando o bestseller de Olavo de Carvalho, repete que tem cultura e lastro para se dizer conservador, é isso que ele tem em mente. Não basta ser anticomunista para ser conservador. Hitler era supostamente anticomunista, ainda que saibamos que adotava os mesmos métodos. E isso não é um argumentum ad Hitlerum, apenas a constatação de que atacar comunistas é muito pouco para tornar alguém conservador.

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A militância fanática, a patrulha, a mente binária, o tom agressivo, a idolatria ao guru, essas todas são características que nos remetem aos petistas e seu líder Lula. Fica parecendo que muitos ali simplesmente trocaram de messias e de ideologia, sem conseguir se livrar da necessidade de tê-los. Falta amadurecimento. Uma postura que tem se espalhado, infelizmente, no mundo todo na era das redes sociais, como aponta Kim R. Holmes em The Closing of the Liberal Mind: How Groupthink and Intolerance Define the Left, sobre o caso americano em particular, e focando na esquerda (mas reconhecendo que o fenômeno também existe na direita):

Os americanos não são pessoas ruins. Na verdade, a maioria é decente e quer apenas viver suas vidas em paz. Mas o problema é que a cultura popular está trabalhando contra eles. Ensina todos os dias que ‘qualquer coisa serve’, desde que não seja chata. Intolerância e bullying podem ser excitantes, se você tiver a mentalidade de um filho de treze anos. Mas para um adulto, chamar as pessoas por adjetivos e se comportar como adolescentes é cansativo e antissocial. Se desejamos ser sérios em consertar o que aflige o nosso país, precisamos pensar e agir mais como adultos. Só então podemos dizer a diferença entre um charlatão e um estadista. Só então o líder será separado do tolo. 

Bolsonaro deveria dar um puxão de orelha em seus “filhos de treze anos”, naqueles que vibram nas redes sociais com cada ataque infantil, cada xingamento e adjetivo usado para demonizar qualquer crítico, mesmo que conservador, mesmo que potencialmente um eleitor do próprio Jair.

Mas se todos que divergirem uma vírgula do “mito”, ou criticarem sua falta de embasamento, especialmente para um cargo executivo, principalmente na economia, forem acusados de “vendidos”, aí o universo dos “incorruptíveis” será cada vez menor mesmo, restando apenas a própria família e os seguidores mais boçais, dispostos a repetir “amém” para qualquer besteira dita pelo líder.

Como o universo dos incorruptíveis é imaginário e, portanto, nulo, conclui-se que o universo dos corruptos abrange a totalidade dos homens. Exceto, naturalmente, os próprios “incorruptíveis”, ou aqueles que nisso acreditam. Os jacobinos radicais, os seguidores de Robespierre. Esses são as verdadeiras ameaças. Mais até do que alguns “corruptos”.

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Até porque, como sabemos, a corrupção, ainda que gigantesca, sem precedentes e institucionalizada, foi o menor dos problemas na era lulopetista, em que o Brasil flertou de vez com um regime totalitário e quase virou a Venezuela, depois de ter quebrado a economia e colocado 15 milhões no desemprego. A ideologia dos fanáticos é ainda mais perigosa do que a corrupção, que deve ser sempre combatida, mas de preferência com a compreensão de quais são suas principais causas.

Não basta colocar um sujeito honesto no poder. Isso é condição necessária, mas jamais suficiente.

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal