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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Messianismo não combina com política – nem com procuradores

Cheguei de um jantar ontem e liguei a TV. Estava na Globo Internacional, passando a minissérie daquela simpatizante do PSOL sobre os tempos do regime militar, aquela mesmo, com total inversão de fatos. Em poucos minutos, vi a emissora, de certa forma, enaltecer a pichação de muros e a invasão de uma cerimônia com apitos, faixas e gestos obscenos. Para quem já enalteceu até o terrorismo, isso é fichinha.

Fiquei pensando: como essa esquerda se recusa a sair dos anos 1960! Está aprisionada nessa época, idealizando o socialismo ainda, a “justiça social”, a “igualdade”. Não conseguiu fazer o luto desse sonho equivocado, que levou o pesadelo a milhões onde vingou. Precisa dos inimigos para sobreviver, e goza ao resgatar, agora, a posição de vítima de um “golpe”, ainda que tendo de colocar Temer, o vice de Dilma eleito pelos petistas, como o novo tirano implacável.

A visão estética domina todo o resto. São como crianças bobocas incapazes de amadurecer. Buscam orgasmos na imagem de libertadores dos oprimidos, ainda que suas fantasias esquerdistas sejam a maior causa de opressão no planeta. São messiânicos, e transformaram a política em seita religiosa, criaram uma teologia política salvacionista. E para tal nobre fim, como se importar com os meios, não é mesmo?

Assim é a extrema-esquerda. Mas claro que há, na direita, os messiânicos também, aqueles que buscam salvadores da Pátria, seja na política, seja no Ministério Público. Só que a maturidade não combina com tal postura. A democracia não cai bem com messianismo, e os jacobinos são sempre uma ameaça. Não aceitam as imperfeições da realidade, querem expurgar todos os pecados da noite para o dia, querem “zerar a pedra”. E nesse processo purificador, vale tudo.

Houve uma ala da direita, como sabemos, “janotista”, disposta a fechar os olhos para quem era Rodrigo Janot em busca dessa “limpeza geral”. Temer era o próximo da fila a ser detonado, então não importa como isso seria feito. Dava até para se unir ao PT e ao PSOL no “Fora, Temer”, e fechar os olhos para os abusos de poder dos “purificadores”. Mas isso não é compatível com a verdadeira meta de liberais e conservadores de boa estirpe: a construção de instituições republicanas sólidas.

Como essa ala da direita não quer saber disso, e como para alguns ali mais fanáticos até eu já virei um “socialista fabiano”, então estou livre para apresentar os argumentos de um pensador esquerdista que respeito, apesar de muitas vezes divergir de suas ideias. Em sua coluna de hoje, Demétrio Magnoli ataca justamente o messianismo de procuradores, cuja senha foi dada pelo próprio Janot. Diz ele:

Janot escreveu que o “foco do debate” sobre o acordo com Joesley deve ser “o estado de putrefação de nosso sistema de representação política”. A sentença é uma senha de combate entre procuradores messiânicos, que a repetem obstinadamente. Na minha avaliação (que está longe de ser consensual), nosso sistema político entrou, realmente, em decomposição. Mas tal diagnóstico pertence ao universo de referências do analista político, não podendo servir como bússola para o Ministério Público. A diferença é que, ao contrário dos procuradores, não possuo as prerrogativas de investigar, acusar e pedir prisões.

O Ministério Público tem poderes que me são vedados. Em contrapartida, tem a obrigação de se nortear, exclusivamente, pela letra da lei. A mobilização de uma análise política em defesa da imunidade judicial de Joesley evidencia que, nesse episódio, a lei foi jogada na célebre “lata de lixo da História”. Sugiro que Raquel Dodge, procuradora-geral indicada, reserve dois minutos para ler a postagem de Carlos Fernando no Facebook. Ela ilumina as raízes da deriva de Janot rumo aos mares revoltos da política.

Registrei, na coluna, as inclinações jacobinas de uma ala do Ministério Público –e apontei o risco de uma reação termidoriana destinada a cercear a Lava Jato. Carlos Fernando replicou com uma exaltada apologia da Revolução Francesa (cujos “ideais prevaleceram”, “apesar do Termidor”) que a identifica, implicitamente, ao Terror jacobino. O procurador ainda não aprendeu que um dos legados da experiência revolucionária francesa é a disjunção entre justiça e Terror (termidoriano ou jacobino). Por isso, escolheu Danton, um dos criadores do Tribunal Revolucionário, para citar em epígrafe, esquecendo-se de que seu herói morreu na guilhotina jacobina, condenado sob a acusação de enriquecimento ilícito num processo farsesco.

A Revolução Francesa foi um lixo em todos os aspectos, ao contrário da Revolução Americana. Por que, então, é a Francesa que continua despertando tantas emoções? A resposta está acima, no começo do meu texto: porque muitos colocam a estética acima da verdade, e a Revolução Francesa foi sem dúvida mais dramática, mais romântica, mais ambiciosa. Queria nada menos do que criar um novo mundo, do zero, detonando tudo que havia antes, que era podre. Deu nisso: o Terror, a guilhotina, que degolou o próprio Robespierre, o “incorruptível”.

É questão de tempo até que os jacobinos comecem a degolar a si próprios. Se o objetivo é nada menos do que a purificação plena do “sistema”, então o conjunto de alvos potenciais é 100%. Messias deve ser um conceito para a Cidade de Deus, jamais para a Cidade dos Homens. O messianismo definitivamente não se encaixa bem com o funcionamento da democracia, obra sempre imperfeita, pois lida com seres humanos reais, também imperfeitos.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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