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Rodrigo Constantino

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Não basta criticar em público: Bolsonaro precisa se afastar de olavismo

É treta! E a turma adora. Enquanto o Brasil segue com sua economia patinando, com mais de 12 milhões de desempregados e com uma urgente e necessária reforma previdenciária subindo no telhado, eis que o foco do debate é Olavo de Carvalho. Para a vaidade do “astrólogo”, isso é tudo que ele queria. Mas o Brasil tem outras prioridades.

Por que, então, perder tempo falando do assunto? Simples: porque não se trata apenas de um filósofo desbocado que fica atacando os militares e fazendo campanha contra o vice-presidente, mas sim de um “guru” de uma seita fanática que tem, entre seus membros, ninguém menos do que dois filhos do próprio presidente, sem falar que ele mesmo colocou em destaque o livro de Olavo quando venceu as eleições.

Bolsonaro declarou, certamente após pressão dos militares cansados do silêncio cúmplice do chefe, que Olavo de Carvalho está atrapalhando o governo. Em nota lida pelo porta-voz, general Rêgo Barros, Bolsonaro reconheceu que as “recentes declarações” de Olavo “não contribuem para a unicidade de esforços e consequente atingimento de objetivos propostos” no “projeto de governo”. O comunicado do presidente tenta cessar os ataques do escritor que têm provocado divisões na base bolsonarista e no núcleo central do governo.

A nota veio logo depois de nova trapalhada nas redes sociais: a conta oficial do presidente postou um vídeo em que Olavo atacava novamente os militares, supostamente culpados pelo avanço comunista no país. O vídeo foi apagado depois, mas o estrago estava feito. Carlos Bolsonaro também publicou em seu canal, e após a confusão, publicou novo elogio (bajulação) ao “bruxo de Virgínia”.

Eis o ponto importante nisso tudo: há uma clara disputa por espaço e poder dentro do governo, dividido entre as alas liberal (economia), militar e olavista. Os liberais tentam fazer seu trabalho em paz, com foco e pragmatismo, sob a liderança de Paulo Guedes. Os militares ocupam vários ministérios e adotam visão mais tecnocrática e moderada. Já a ala olavista é a turma ideológica e radical, que fala em “revolução” (Marco Feliciano embarcou nessa, trocando Jesus por Olavo).

Há uma clara rivalidade entre militares e olavistas, que se sentem os templários numa cruzada para “limpar o país do comunismo”, sendo que comunistas são todos aqueles que não são reacionários. O principal guru é Steve Bannon, um nacional-populista autoritário que Trump colocou para escanteio. Olavo seria uma espécie de Bannon tupiniquim, e Filipe G. Martins, chamado de “Robespirralho” por alguns, uma espécie de preposto de Olavo no governo.

Martins acusou o golpe, e passou a reagir esperneando nas redes sociais, inclusive com expressões em inglês. O jovem tem uma missão “nobre”, e se aproximou bastante de Eduardo Bolsonaro, que por sua vez colou em Bannon. É a patota “revolucionária” que gostaria de enviar um “cabo e um soldado” para fechar o STF, e se possível outro cabo e outro soldado para fechar logo o Congresso também. Seus fins “nobres” justificariam quaisquer meios, e eles não têm tempo a perder com esses liberais “otários”, que se preocupam com “baboseiras” como instituições republicanas. Eles têm uma revolução para tocar!

A tática dos reacionários é casar Olavo de Carvalho com a preocupação cultural, como se fossem uma só coisa. Balela! O novo livro do Ben Shapiro é todo sobre a importância do resgate de valores ocidentais, e isso não o impede de detestar a alt-right nacional-populista e atacar figuras autoritárias como Steve Bannon. Olavistas não possuem o monopólio da preocupação com questões culturais. Ao contrário: seus métodos jogam contra qualquer possibilidade de efetivamente preservar (conservar) o legado ocidental. Jacobinismo revolucionário não tem qualquer ligação com conservadorismo burkeano (de boa estirpe).

Daí a importância dessa “treta”. Bolsonaro, ao publicamente “passar um pito” no guru dos seus rebentos, tenta finalmente reforçar o peso da ala militar, dos seus ministros e do vice-presidente que ele mesmo escolheu (e quem votou em Bolsonaro também votou em Mourão, não vamos esquecer de Dilma e Temer). Mas muitos mantêm o ceticismo: é só uma crítica para inglês ver, ou é mesmo uma mudança de postura?

Carlos Andreazza comentou: “Nota do presidente decerto responde a pressões do setor militar. Na prática, duvido que mude algo. Quem influencia continuará influenciando. Quem manda continuará mandando. E o governo continuará operando sob a lógica revolucionária da campanha – do choque – permanente”. E é isso que interessa, isso que está em jogo aqui. Essa mentalidade vai mudar ou não?

Os olavistas querem confronto. Eles precisam de confronto, pois são tribais, adotam a visão de guerra constante de nós contra eles, enxergam inimigos mortais por todo canto. Já Bolsonaro, como presidente, precisa governar, contemporizar, articular, agregar. Não há alternativa. O que está em disputa, portanto, é fundamental para o sucesso ou fracasso do governo Bolsonaro. Se ele não afastar seus filhos radicais e os companheiros de ideologia olavista, não haverá chance de aprovar as reformas necessárias e entregar bons resultados.

Trump, que parece inspirar tanto Bolsonaro, soube se livrar de Bannon na hora certa. Bolsonaro precisa se livrar do Bannon tupiniquim. Ou isso, ou está perdido.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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