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Por Ricardo Bordin, publicado pelo Instituto Liberal

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“Ben é o pai de seis crianças pequenas, que decide fugir da civilização e criar os filhos nas florestas selvagens do Pacífico Norte. Ele passa os seus dias dando lições às crianças, ensinando-os a praticar esportes e a combater inimigos. Um dia, no entanto, Ben é forçado a deixar o local e retornar à vida na cidade. Começa o aprendizado do pai, que deve se acostumar à vida moderna.”

E quem acreditar em uma linha sequer desta sinopse ou caiu no conto do vigário, ou deve estar chorando a morte de Fidel neste momento. Difícil imaginar alternativa diante da peça publicitária vermelha. A cor do terno do herói do filme não me deixa mentir.

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O real sumário desta película que mais parece uma fábula: um pai de seis filhos resolve tirá-los da civilização – a mais nova das meninas tem apenas oito anos de idade – e criá-los na floresta, submetendo-os constantemente à lavagem cerebral por meio de livros de cunho anticapitalista quase o dia inteiro.  No tempo que sobra, ensina-os a caçar e sobreviver sem depender dos cruéis empresários do mundo que abandonou, até o dia em que a realidade bate a porta – como costuma dar-se com todos os “progressistas”, por sinal.

Fica até difícil decidir por onde começar a apontar os indícios de doutrinação ideológica da mais desavergonhada, mas vamos primeiro ao mais hilário dos aspectos observados: a trupe do papai Ben está isolada do materialismo e do consumismo ocidentais, pero no mucho: periodicamente, o rapaz desencantado com a incessante busca humana pelo “vil metal” vai até a cidade para… sacar dinheiro! Sim, é óbvio que ele não teria como produzir todos os bens de que necessita para sobreviver, e precisa, vez por outra, engajar-se em trocas voluntárias – com exceção dos episódios em que ele resolve ensinar seus filhos a “libertar a comida” do supermercado. Furtar, no caso, mas temperado com eufemismo e uma boa causa, tudo fica mais divertido; para que usar palavras duras, certo?

O porém dessa história é que ele e seus filhos não produzem valor algum em suas vidas medíocres – como um ou outro esquerdista por aí. A origem desta grana que banca a aventura fantasiosa da turma permanece nebulosa, mas o fato é que ele a possui (como resultado do trabalho de estágios anteriores de sua vida, decorridos em meio aos gananciosos urbanos; ou foi colhida em árvores), guardada em um banco, e com ela compra roupas, livros e põe gasolina no ônibus que dirige nestas incursões à selva monetária – o qual, a propósito, não é movido a óleo de canola nem é feito de material reciclável, vejam vocês.

Bastante diferente, aliás, de como procedeu Henry David Thoreau, quando resolveu viver por mais de dois anos em florestas americanas, provendo seu sustento com o trabalho de suas mãos e dentro das limitações impostas pelo ambiente. É que isso deve dar um trabalho danado, rapaz…

Não tive como não lembrar-me do patético evento que costuma ocorrer em Nevada/USA, mas iniciou em São Francisco/Califórnia (onde mais poderia ser?), denominado Burning Man. Trata-se de um festival onde “onde não se pode pagar por nada” durante dez dias festivos – virando o rosto, claro, para o fato de que, antes de por o pé na Black Rock City, é necessário desembolsar em torno de US$400. Brincar de comunidade utópica logo após pagar essa importância ajuda a entender os socialistas de Iphone, ao menos. A possibilidade de recarregar as baterias para suportar mais um ano de “racionalidade e limitações impostas pela hipocrisia da sociedade faz-de-conta do lado de fora” justifica rumar para o oeste americano, sem dúvida. Ô saudade dos longínquos 1960!

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Mas porque, então, não esticar a folga e passar o ano inteiro livre do convívio com o “mundo careta e repressivo que sufoca a auto-expressão e embota a criatividade das pessoas mais espontâneas do planeta”, tal qual o uncle Ben faz? Seria porque os burners não tem dinheiro pra sacar ao seu bel prazer, e precisam trabalhar o resto do ano para pôr comida na mesa e comprar o ingresso do ano seguinte? É possível, creio.

Quando mencionei que livros são devorados no acampamento da família mais bicho-grilo do cinema atual, não tenha dúvida: todos seguem a linha editorial dos autores que sonham com o paraíso na terra. Não à toa, o filho mais velho se declara maoísta, apenas como exemplo bizarro. E menos por acaso ainda, esse adolescente, quando se depara com uma mulher atraente no decorrer da trama, paga um mico de padrões kingkonguianos, o que o leva a rezingar para o pai: “eu não sei nada da vida real”. Fique tranquilo, amigo: tens tudo para ser um grande intelectual no futuro. Solteiro, provavelmente.

As pobres crianças repetem slogans de tom marxista à exaustão, como o bordão Johnleniano “power to the people”, chamam refrigerante de “água envenenada” (ao melhor estilo Che Guevara), dentre outros mantras e gritos de guerra. Pior: o pai os ensinou a comemorar o dia do nascimento de Noam Chomsky, em vez do Natal – “para que celebrar uma lenda?”, justifica ele.

Honestamente, o roteiro é paupérrimo no quesito honestidade. Pura alucinação, onde a vida rupestre dos personagens é repleta de exercícios matinais, ócio criativo, refeições extraídas direto da natureza, e quase nada dá errado. E quando algo vai mal, a culpa é do mundo exterior, ou seria muito pior nele (ao melhor estilo Chávez e sua metralhadora apontada para os “imperialistas Yankees”). Ou, quem sabe, a comparação pretendida pela produção seja com povos indígenas comumente retratados como seres totalmente integrados às florestas – sem considerar que eles ateavam fogo em largas extensões de mata para caçar e plantar, e otras cositas más.

Toda essa incompreensão do mundo capitalista é simbolizada pela figura do sogro do “protagonista”, o qual, munido de toda sua insensibilidade, não compreende o que se passa na cabeça do pobre rapaz que quer apenas criar seus rebentos afastados da poluição mental provocada pela prosperidade do livre mercado, e ameaça, pois, até mesmo mandá-lo prender por criar seus netos como bichos – os quais precisam, inclusive, aprender a matar animais e costurar suas vestimentas, já que conceitos como divisão do trabalho e comércio passaram a quilômetros do mato onde vivem. Convenhamos, todavia, que caçar pombos e cães de rua para matar a fome são habilidades fundamentais em lugarejos agraciados com “el socialismo del siglo XXI”; confirma, camarada Maduro?

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Não que o diretor não faça de tudo para convencer os espectadores de que, a partir de seu ponto de vista deturpado e delirante, the kids are alright, thanks. E, para isso, faz dos sobrinhos do Tarzan frustrado duas mulas estúpidas que só sabem jogar videogame, os quais, claro, quando confrontados intelectualmente com os filhos daquele, levam uma surra humilhante. Mas convenhamos que, aqui, a produção do filme tem um ponto: frequentar escolas (COM partido, e muito) e dominar competências e conhecimentos relevantes são conceitos cada vez mais apartados nos dias atuais. Difícil discordar neste caso.

E o preparo físico desses atletas mirins? Padrão Cuba de excelência no esporte – em todos os sentidos, inclusive nas tentativas desesperadas de fuga do regime ditatorial imposto de cima para baixo. Americanos obesos são chamados de hipopótamos, e um médico declara que os ratinhos de laboratório são “muito fortes para suas idades”, para orgulho de papai Ben. Acontecem um ou dois incidentes de percurso, sim, mas as “conquistas sociais” devem justificá-los, tal qual ocorre na ilha caribenha, imagino. Liberdade para comer o que quiser e até para ser um gordo sedentário são luxúrias hodiernas.

A sensação que fica após o último minuto de tortura cinematográfica certamente vai agradar aos frequentadores do festival de Sundance, enquanto esses comem tofu e choram abraçados a derrota de Hillary: Ben não é, nem de longe, uma má pessoa; trata-se apenas de uma idealista, que sonhou com um mundo igualitário e longe da opressão do capital. Nem tudo dá certo em seu louvável plano, mas a ganância de todos os demais humanos que acordam cedo para labutar é a grande responsável por seu fracasso. Pol Pot curtiu muito, lá do inferno comunista .

A “boa alma” do personagem principal, que não se digna sequer a respeitar rituais fúnebres e gosta de representar o “líder supremo” do partido em sua família, não pode, conforme a tosca narrativa, ser condenada pela aberração que seus filhos se tornam. Lembram aquele mais velho que não sabe o que fazer diante de uma bela mulher? Então: ele vai para Harvard! E como ele já está acostumado a safe spaces(viveu boa parte da vida em um, afinal), certamente tornar-se-á um vulto de destaque no meio acadêmico – ainda mais com uma história de vida dessas para relatar durante os fóruns sociais da vida ou oficinas realizadas durante “ocupações”.

Não vai ter golpe na selva, companheiros! Nem papel higiênico, mas isso faz parte de nosso processo de conquista da igualdade – para com os animais, no caso.

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