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Rodrigo Constantino

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O governo Bolsonaro está em crise?

Por Rafael Valladão, publicado pelo Instituto Liberal

Jair Bolsonaro foi deputado federal por quase trinta anos. Sua longa passagem na Câmara foi apagada e só despontou da obscuridade quando o deputado do baixo clero decidiu engrossar a voz contra o governo de Dilma Rousseff. Sem nenhuma experiência no poder executivo, o capitão da reserva chegou à presidência da República com o desafio de aprender, tão rápido quanto possível, a governar uma nação continental. É fácil concluir que estrear no Executivo, nesse contexto, não seria nada fácil.

Isso porque a governança exige conhecimentos práticos tais como a capacidade de negociar acordos, administrar conflitos, gerenciar recursos, liderar ministérios e secretarias, comunicar-se satisfatoriamente com os cidadãos, etc. Esses conhecimentos são adquiridos na prática executiva mais que na legislativa, por meio da continuada experiência de governo. Sendo assim, a vitória de Bolsonaro na corrida pelo Planalto levantou a pergunta: será que ele saberá governar?

Recentemente, o governo deu preocupantes mostras de fragilidade. Três delas merecem nossa atenção: as falas desastradas do vice-presidente General Mourão; as denúncias de uso ilícito do dinheiro público pelo senador Flávio Bolsonaro e o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno. São questões relevantes que expõem em que medida Jair Bolsonaro se ajustou às exigências práticas da presidência da República.

No entanto, é importante frisar que ainda é cedo demais para afirmar que o governo enfrenta uma crise. A nova gestão ainda não completou um semestre. O que temos são pequenas mostras de fragilidade que explicitam o desarranjo interno do governo, mas não necessariamente uma crise. Podemos dizer que um governo em crise é um náufrago no Atlântico; um governo desarranjado é, no máximo, um bêbado na rua. É necessário não cair no conto oposicionista da crise moral do governo Bolsonaro, sem perder de vista, no entanto, as trapalhadas que, se não corrigidas, podem comprometer o futuro do país.

Já respondemos à pergunta-título do artigo, resta agora avaliar as três questões problemáticas a ser superadas pelo governo. A primeira delas se refere às declarações polêmicas de Hamilton Mourão, general representante do núcleo militar no Planalto e importante peça de comunicação entre os civis e as eminências fardadas. Mourão deseja ampliar sua influência na Presidência, mas tem se utilizado de meios duvidosos para tanto. Depois de insistir na nomeação do próprio filho ao cargo de assessor especial do Banco do Brasil, Mourão disparou declarações contrárias às ideias dominantes no governo, criou mal-estar entre secretários e ministros, atacou Olavo de Carvalho e já atiçou os ânimos de parlamentares do PSL.

É natural que um general recém-empossado na vice-presidência da República deseje ampliar seu poder de influência. Trata-se de um oficial acostumado a mandar e a ser obedecido, de repente eleito na chapa encabeçada por um mero capitão. Não seria nenhum absurdo concluir que Mourão está enciumado do poder delegado a seu subordinado no Exército, desejoso de não viver à sombra de Bolsonaro, disposto a desagradar meia dúzia de parlamentares da base para obter o apoio de setores do governo menos simpáticos ao presidente.

Mourão não tem a sutileza e a discrição de Michel Temer e, para deixar a posição incômoda de vice decorativo, talvez entre em franca oposição ao presidente. É uma possibilidade que não pode ser simplesmente descartada como teoria da conspiração. Bolsonaro deve tomar as atitudes necessárias ao controle do vice, o que importa em mantê-lo inofensivo e útil ao governo, mantendo, por meio de Mourão, o canal de comunicação com a alta oficialidade do Exército.

Outra pedra no sapato do governo é a questão das denúncias contra o filho do presidente e o secretário-geral da Presidência. O caso Queiroz continua sem explicações satisfatórias. Como já foi amplamente noticiado, Flávio Bolsonaro é suspeito de ter recebido parte do salário de seu ex-assessor na Assembleia fluminense, Fabrício Queiroz. Além disso, a Folha de S. Paulopublicou recentemente uma matéria sobre os laranjas do PSL, em que Gustavo Bebianno figurava como o coordenador de um esquema de uso ilícito de dinheiro público.

Segundo a denúncia, Bebianno teria repassado quantias consideráveis do Fundo Eleitoral a candidatas inexpressivas. A suspeita é plausível, dada a desproporção entre os supostos gastos de campanha e os votos recebidos pelas candidatas. Também segundo a Folha, Bolsonaro teria se aborrecido com o comportamento de Bebianno. Nos bastidores, o secretário-geral da Presidência estaria sendo pressionado a deixar o cargo para evitar maior desgaste no governo.

É verdade que as investigações posteriores podem revelar a inocência de Flávio e Bebianno, mas as atitudes públicas dos dois denunciam um nervosismo exagerado, próprio de quem é pego com a boca na botija. Em política, um escândalo é um caso julgado pela opinião pública antes de ser julgado pelos autos. Nesse sentido, Flávio Bolsonaro já recorreu ao foro privilegiado para se blindar da investigação no Rio de Janeiro, atitude suspeita que só agravou a suspeita sobre o caso. Para piorar, Flávio insiste na retórica da perseguição ao governo do pai, no que se assemelha ao petista que pretende desmoralizar a Justiça para fugir dela.

Já Bebianno tentou disfarçar a suspeição em que foi colocado afirmando que “não há crise no governo”, que já havia conversado pessoalmente com o presidente Bolsonaro a respeito. Mas Bebianno foi desmentido por Carlos Bolsonaro, segundo quem essa conversa jamais ocorreu. A renúncia ou a demissão de Bebianno devem sinalizar a fragilidade do núcleo duro do governo, já abalada pelo estrelismo do vice-presidente e agora às voltas com denúncias constrangedoras. Eleito para expurgar o fantasma da corrupção, Bolsonaro pode cair na aprovação popular se não souber punir quem deva ser punido, ainda que a punição signifique exonerar bons amigos e aprofundar o clima de tensão no interior do Planalto.

O caso Bebianno levanta outra questão problemática, embora menos grave. Trata-se da ação familiar de Carlos, Eduardo e Flávio Bolsonaro. Vários analistas já perceberam o problema da relação familiar misturada à relação institucional. Mesmo antes de Bolsonaro oficializar sua candidatura à presidência, seus filhos já apareciam como possíveis cães de guarda do governo. Dito e feito: Eduardo na Câmara, Flávio no Senado, Carlos na Câmara carioca.

O parentesco com o presidente pode fazê-los pensar que estão autorizados a emitir opiniões sobre o que quer que seja, sem passar antes pelo crivo do governo. Foi assim que Eduardo Bolsonaro afirmou que a mudança da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém “não era questão de se, mas de quando”. Agora, porém, nota-se que a mudança da embaixada não é questão fechada e ainda depende de negociações a portas fechadas. O presidente nunca deixará de ser pai dos moleques, mas, à frente da presidência, deve discipliná-los e colocá-los abaixo da autoridade pública.

O governo não está em crise; por enquanto. “Quem está de pé, cuide para que não caia”, já nos alertava o Evangelho. Cair em pecado ou em desgraça – a máxima vale para todos e cada um.

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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