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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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O povo tem direito de comemorar mudança de postura de governo em relação a bandidagem

Um marginal sequestra um ônibus, amarra reféns e ameaça com gasolina. Sniper percebe a oportunidade e mata sequestrador. Dezenas de pessoas saem ilesas. Operação é um sucesso. Governador vibra de forma eufórica. E surge o debate: devemos festejar tudo? O que exatamente se está comemorando?

O PSOL publicou: “Quando um governador pousa comemorando no local de uma tragédia, é um sintoma grave da crise humanitária que vivemos. E foi isso que fez Wilson Witzel. Solidariedade ao povo carioca em mais uma manhã difícil”. Mas tragédia mesmo seria o sequestrador ter machucado ou matado as vítimas inocentes, não?

Eis o ponto: o que a imensa maioria está comemorando é não só o resultado positivo dessa operação específica, mas a mudança de postura do governo. Acabou justamente essa mentalidade psolista que trata marginal como vítima da sociedade. A turma dos “direitos humanos” não tem mais vez. Mas há risco nessa guinada?

Há sim, e é aqui que divirjo de alguns à direita. A premissa que jamais podemos perder de vista é a de que toda vida humana importa. Claro que entre o marginal e os reféns não tem nem que pensar. Claro que todo bandido, de certa forma, escolheu esse caminho. Mas, ainda assim, foi um ser humano que acabou morto, e isso não é motivo para regozijo em si.

Entendo o contexto: o brasileiro em geral e o carioca em particular estão saturados, indignados, cheios de raiva após décadas submetidos a essa anomia, a esse caos social, a toda essa violência, em que o cidadão ordeiro é refém dos marginais. E ainda tinham que aturar a narrativa esquerdista que inverte todos os valores!

Compreender o fenômeno, porém, não é desejar encoraja-lo. O ressentimento sempre foi combustível da barbárie e de regimes totalitários. A esquerda radical produz, como reação, essa gente cada vez mais esgotada, que aplaude não só o combate à criminalidade, mas a morte dos bandidos em si. “Bandido bom é bandido morto”, diz o slogan. O ponto é que alguns passam a ter satisfação na morte em si, o que é preocupante e sinal de desumanidade.

Vejam: eu acho que tem que abater marginal mesmo! É sua vida ou a dos outros, e a escolha é clara para quem não perdeu o bom senso. Isso não quer dizer, porém, que a sua morte será alimento para deleite. É aqui que devemos traçar a linha divisória entre barbárie e civilização.

É o argumento que traz Madeleine Lacsko nesse texto, cuja principal mensagem está resumida nesse trecho: “Um sniper deu um tiro certeiro no sequestrador que ameaçava incendiar o ônibus, cessando a ação criminosa e salvando os reféns. Mas vivemos num clima tão violento que há pessoas comemorando mais um assassinato do que 37 vidas salvas”. Ela tem um ponto.

Se alguém invadir minha casa e colocar minha família em perigo, não vou pensar duas vezes: usarei minha arma para proteger aqueles que amo. Ficarei aliviado se o desfecho for o invasor morto e minha família ilesa. Mas eis o xis da questão: isso não quer dizer que eu vá festejar o fato de ter matado um ser humano!

Mesmo em guerra precisamos manter a humanidade. A narrativa de desumanização de inimigos não é útil somente para o fascismo: os militares também lançam mão desse método para facilitar o trabalho dos soldados. Atirar em “ratos” é mais fácil do que em gente. Não obstante, o lado humano permanece, o que explica tanto trauma pós-guerra.

Há relatos de soldados que não conseguiram atirar ao ver situações constrangedores de seus alvos, como uma calça caindo durante a corrida em fuga. É porque a comicidade da situação remete ao que temos de humano, lembra que, do outro lado, é uma pessoa, não um animal.

Vamos acrescentar camadas de nuances para fazer melhor meu ponto: suponhamos que o invasor da minha casa seja um adolescente com problemas com drogas, ou alguém que sofre de doença mental. Ainda assim eu teria o direito de mata-lo para me defender, e poderia ficar aliviado com o resultado. Mas feliz? Contente? Deveria ir para um bar brindar com os amigos porque matei “mais um vagabundo”?

Acho que o leitor já entendeu meu ponto. Uma coisa é celebrar o desfecho que teve como fatalidade somente o bandido, preservando a vida dos inocentes. Outra, bem diferente, é ficar empolgado com o fato de que mais um bandido morreu e já foi tarde. Acho que a grande maioria está no primeiro grupo, celebrando também essa mudança importante de postura do governo, o que é legítimo.

Mas a minoria barulhenta acaba ofuscando a maioria, usando as redes sociais para destilar todo seu ressentimento, soltar aquele grito preso na garganta após tanto descaso das autoridades e abuso dos marginais. É um fenômeno compreensível, o que não quer dizer que deva ser incentivado. O tecido social está esgarçado, e não é recomendável esticar mais a corda.

Diante dessa reação, temos que escolher se vamos jogar mais lenha na fogueira, reagir de forma passional também, atiçar os ânimos à flor da pele como faria um populista, ou se vamos recuar um pouco, buscar trazer reflexões serenas, evitar o simplismo binário de quem enxerga tudo com base em tribos.

Fico com o segundo grupo. Não quero jogar para a plateia, beber do ressentimento e da raiva alheias para ter curtidas. Não pretendo reduzir o debate a gritos de guerra, e temo quem tudo justifica com base no argumento do contexto de guerra. Se para derrotar um monstro temos que nos transformar noutro, então já perdemos a guerra. Não podemos vulgarizar ainda mais as discussões. Resistir à pressão das redes sociais é um imperativo para quem quer preservar a decência.

A alternativa é cair de vez na barbárie em nome do “resgate da civilização”. Há quem vibre até com linchamento público de pivete, um sinal de decadência civilizacional, como já comentei aqui. Situações diferentes, eu sei, mas fruto do mesmo fenômeno: cada vez mais gente, revoltada com a esquerda e com o caos, abandona a civilidade para dar vazão ao ódio.

Com mais de 60 mil homicídios por ano, o brasileiro tem direito à sua revolta. Com a postura dessa turma “progressista”, que inverte todos os valores, a revolta fica muito maior. Mas – e aqui vem o grande desafio – vamos nos pautar por eles, sendo apenas uma reação mais emotiva do que fazem e dizem, ou vamos supera-los, mirando sempre num norte melhor, tendo como parâmetros o que há de  mais decente na civilização?

Movimentos reacionários costumam sair pela tangente, exagerar na dose, extrapolar o pêndulo para o outro lado. O brasileiro está como uma panela de pressão, e as redes sociais ajudam a colocar mais pressão ainda. O que se vê de baixaria, xingamento, ódio, ressentimento e agressão é algo impressionante. Não contem comigo para alimentar esse tipo de reação. Estou convencido de que ela nos afasta em vez de aproximar da civilização.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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