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Rodrigo Constantino

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Patriotismo saudável: é preciso evitar os riscos de um nacionalismo coletivista

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Os “liberais” modernos normalmente se identificam como “cidadãos do mundo”, uma visão cosmopolita que rejeita o conceito de nação como sendo relevante. Pensemos em Obama, por exemplo, que nem sequer era capaz de admitir a excepcionalidade da América, o farol da liberdade no Ocidente. Ele desejava mudar “fundamentalmente” seu país, o que é atitude de quem não ama de verdade (basta pensar como reagiria a esposa se o marido declarasse que pretende mudá-la em sua essência).

Trump venceu com um discurso bem diferente, usando o famoso slogan “Make America Great Again”. Cada declaração sua exalava patriotismo, ou até mesmo nacionalismo. O magnata chegou a se declarar um nacionalista. A linha que separa o patriotismo do nacionalismo é bastante tênue às vezes. Defender a pátria é algo totalmente diferente de colocar a nação acima dos próprios indivíduos que a formam.

Mas muitos ignoram isso, confundindo patriotismo com nacionalismo. O último é uma forma nefasta de coletivismo, que transforma o indivíduo em meio sacrificável em prol dos “interesses nacionais”. Com frequência o nacionalismo desemboca na xenofobia, justamente por adotar o tribalismo do “nós contra eles”. Em vez de amor à pátria, o que sobra é ódio ao estrangeiro. O caso extremo, naturalmente, é o nazismo de Hitler.

O escritor alemão Thomas Mann foi um ferrenho inimigo do regime nazista, desde seu começo, tentando alertar o povo quanto ao perigo que ele representava. Mann demonstrava revolta com a manipulação que os nazistas faziam com todos os conceitos, incluindo o patriotismo. Ele chamava o nacional-socialismo de “avesso de Midas”: tudo que ele toca apodrece, em vez de virar ouro. E não poderia ser diferente com o patriotismo. Nas mãos do nazismo, ele vira “arrogância estúpida, furiosa insolência racial, autoendeusamento maníaco e assassino, ódio, violência e loucura”. Foi nisso tudo que o nazismo transformou o amor à pátria.

Os líderes nacionalistas são apenas egoístas que manipulam as massas em benefício próprio. Eles mesmos não costumam colocar a nação acima de seus próprios interesses. “Os nazistas não se importam com a Alemanha; eles estão preocupados é com a própria pele”, afirma Mann. O nacionalismo é uma arma poderosa de exploração nas mãos de oportunistas. O povo deverá se sacrificar pela nação, o que na verdade quer dizer que o povo será escravizado em prol dos interesses de seus governantes. Por isso, Mann acusa: “Nunca houve traidores mais ordinários de sua pátria do que esses nacionalistas”.

Em tempos de globalismo que atenta contra a soberania nacional, resgatar o saudável patriotismo é fundamental. Mas sempre tomando o devido cuidado para não escorregar rumo ao nacionalismo.

O historiador Sérgio Paulo Muniz Costa resumiu bem as diferenças: “O patriotismo é um pertencimento; o nacionalismo, uma frustração. Ser patriota é sentir-se vinculado à comunidade cultural, linguística, histórica e territorial identificada como pátria. Já o nacionalista se entende como portador de um destino não realizado, seja ele qual for, independência, desenvolvimento, poder ou autonomia. O patriotismo é aberto e inclusivo. O nacionalismo se fixa em conceitos e exclui tudo o que neles não se enquadre, desde pessoas até ideias. O patriotismo de um grande país é um imã de vontades, talentos e disposições, enquanto o nacionalismo, por vezes, dispersa o que de melhor existe em uma nação. O patriotismo é espontâneo, inspirando medidas e decisões em prol do bem comum. O nacionalismo, supostamente aplicado em prol da nação, termina sempre beneficiando uns em detrimento de outros. O patriotismo é uma continuidade; o nacionalismo, uma reação, com todos os riscos de exagero e desequilíbrio que esse impulso traz consigo. O nacionalismo é, por vários motivos e motivações, a gênese dos grandes desastres mundiais ao longo dos dois últimos séculos”.

Era essa, também, a posição de Carlos Lacerda, líder da UDN: “Direi logo que não sou nacionalista e não creio que o seja a UDN, ou não estaria nesse partido. (…) Nem admito que se pretenda trazer para dentro da UDN o dilema que os comunistas procuram armar fora dela, e contra ela, dilema segundo o qual quem não é nacionalista é entreguista, isto é, quem não coloca a nação acima de tudo coloca-a abaixo de outra nação. Eu não coloco a nação acima de tudo. E quero deixar de uma vez por todas bem claro o meu ponto de vista, que penso deva ser o de um partido democrático. Considero o nacionalismo, isto é, a ideologia que visa a colocar a nação acima de tudo, uma noção totalitária. A nação está abaixo da pátria e até esta, abaixo do homem. Tudo o que o homem criou, desde que foi ele próprio criado, destina-se a servir à sua liberdade de escolha, à sua razão, à sua vida natural e, para os crentes, à sobrenatural. A nação é uma dessas criações, e não a mais feliz nem definitiva. Não é preciso nos embrenharmos numa análise da origem do nacionalismo, que levaria muito longe embora fosse instrutiva, para afirmar que o nacionalismo é a doença do patriotismo, como ‘a demagogia é a doença da democracia’”.

O grande estadista Winston Churchill soube mobilizar o sentimento patriótico dos ingleses para defender, com sacrifício, o legado ocidental. O filósofo britânico conservador Roger Scruton trata do conceito de “oikofilia”, ou “amor ao lar”, para defender o Brexit, a soberania nacional do Reino Unido e o patriotismo. Tudo isso é positivo. Mas não precisa virar nacionalismo oportunista.

A transformação do patriotismo em nacionalismo está em seu auge quando o povo adere ao infantilismo e passa a encarar seu governante como uma figura paterna. Não se trata do respeito por um estadista, mas de uma forma de idolatria ao “pai do povo”, que não pretende governar, mas sim “cuidar” de sua prole. Outro sintoma é o ufanismo boboca, de quem sente “orgulho nacional” de tudo, sem qualquer razão lógica. O orgulho deve se sustentar em conquistas legítimas, não em fantasias tolas. O verdadeiro patriota não foge da realidade.

Que nesse 7 de setembro os brasileiros decentes resgatem um saudável patriotismo, justamente de quem quer melhorar o Brasil, mas rejeitando sempre o nacionalismo oportunista, coletivista, de quem quer explorar súditos em vez de respeitar cidadãos livres.

Texto originalmente publicado pela Gazeta impressa

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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