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Rodrigo Constantino

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Pirâmides prometem retornos irreais com bitcoin: cuidado com o canto da sereia!

Depois da engorda de bois que não nasceram nas Fazendas Reunidas Boi Gordo e dos telefones da Telexfree que não davam linha, uma nova onda de investimentos suspeitos de prática de pirâmide financeira cresce pelo Brasil. Os supostos esquemas, agora, envolvem as moedas virtuais, ou criptomoedas, como o bitcoin. As empresas prometem ganhos de até 50% ao mês sobre o capital aportado pelos investidores.

Essas empresas estão sob a mira do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e da Procuradoria da Fazenda Nacional. Nos últimos meses, as autoridades fecham o cerco sobre esses grupos que, segundo a polícia, apresentam-se disfarçados de empresas de investimentos. Supervisionado por essas autoridades, um grupo anônimo de hackers formado por integrantes do mercado de criptomoedas identificou mais de 50 empresas do gênero em atividade pelo Brasil no momento.

Com base em decisões recentes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), cruzando com investigações em curso pela Polícia Federal e denúncias do Ministério Público, a reportagem chegou a sete dessas empresas. Todas são tocadas por empresários já conhecidos pela polícia, com histórico de envolvimento em outras piramides financeiras.

Outro dia havia um anúncio desses na página principal de um conhecido jornal. Os picaretas são ousados! E sabem que contam com a fraqueza da natureza humana, com a parte mais sensível do nosso “corpo”: o bolso. Quem não é seduzido minimamente pelo sonho de enriquecimento fácil e imediato?

É o clássico “canto da sereia”, tentador demais, mas que costuma devorar suas vítimas depois do choque da realidade. Por isso é tão importante uma boa educação financeira e também alguém ao lado, independente e com interesses alinhados, para “travar” a ganância desmedida. Ulisses, na mitologia grega, soube reconhecer sua fraqueza e por isso amarrou as mãos ao mastro do barco, dando ordens aos tripulantes para não o soltarem de forma alguma. Melhor se precaver contra si mesmo.

Quem não lembra do Boi Gordo que o ator Antonio Fagundes recomendou em anúncios? Nada disso é novo, claro. Carlos Ponzi foi um dos precursores desses esquemas de pirâmides, e o italiano acabou condenado pela Justiça e foragido no Brasil. Madoff montou um bilionário esquema recentemente, e quando a maré baixou ficou evidente que ele nadava pelado. Está preso. O fundador da JJ Invest está foragido após dar golpe em vários clientes.

Sempre que o leitor se deparar com um “pacote” diferente do usual e com promessas de taxas de retorno muito acima do mercado ou “sem risco”, redobre os cuidados! Muito provavelmente estará diante de algum golpe. Não existe almoço grátis. Abaixo, um texto que escrevi há anos para o Valor, na coluna de gestão:

Evite as Trilhas para o Sucesso

“Eu acredito muito na sorte, e descubro que quanto mais duro eu trabalho, mas eu tenho dela.” (Thomas Jefferson)

Desconfie de todos os atalhos para o sucesso. Normalmente, seu caminho é árduo e longo, repleto de obstáculos. Demanda esforço, trabalho, coragem, tolerância ao risco, dedicação, paciência e humildade. Thomas Edison dizia que a genialidade era 1% de inspiração, e 99% de transpiração. As trilhas costumam levar a penhascos com freqüência.

Exemplos do cotidiano não faltam. Quem deseja emagrecer, pode tomar aquelas bolinhas para cortar caminho. Não sem graves seqüelas. A saúde cobra um elevado preço. O barato sai caro. O mesmo para quem deseja ficar forte num piscar de olhos. Os anabolizantes fazem o serviço parecer mais fácil, mas é tudo ilusão. O corpo vai contabilizando com juros o preço da aventura.

Quem deseja conhecimento passa pelo mesmo dilema. Aqueles livrinhos que fazem resumo do resumo para cada filósofo, prometendo aprendizado em apenas 90 minutos de leitura, atraem muita gente com preguiça de beber direto da fonte. Mas ninguém vai conhecer de fato a filosofia de Nietzsche ou Schopenhauer, lendo um livro desses. Para uma conversa de bar, esses livros podem ser úteis. Mas o conhecimento verdadeiro custa mais caro em termos de investimento do tempo disponível.

Os saltos discretos normalmente não ocorrem no progresso da mente ou do corpo. Não há porque ser diferente quando se trata do bolso. Claro que existem exceções. Alguém pode ficar rico de repente, por ter tido alguma idéia brilhante ou ganhado na loteria. Mas contar com isso é mais que arriscado: é irresponsável. O gradualismo quase sempre faz parte do sucesso, principalmente daquele sustentável. O campeão não se torna campeão no ringue; ali ele apenas é reconhecido, colhendo o que foi plantado ao longo de um período de árduo treinamento. Na vida, colhemos aquilo que plantamos, não o que sonhamos. Os golpes de sorte ou os raros casos de genialidade existem, justamente para comprovar a regra. Portanto, uma boa dose de ceticismo diante de promessas fantásticas é sempre saudável. Aquilo que parece bom demais para ser verdade, normalmente não é verdade!

Como gestor de recursos, sempre olho com desconfiança redobrada para aqueles gestores com desempenho exageradamente positivo. Conseguir dobrar o capital em um ano pode acontecer uma vez, por mérito do gestor ou mesmo sorte. Mas quando alguém apresenta retornos incríveis por três, quatro anos seguidos, uma luz amarela acende automaticamente. Pode acontecer, sem dúvida, como pode acontecer de alguém ganhar na loteria. Mas eu prefiro não arriscar o patrimônio dos clientes em um produto desses. Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Essa sabedoria popular com freqüência é ignorada no mercado financeiro. A tentação de ficar rico num curto espaço de tempo é sedutora demais. 

O melhor exemplo desse risco foi a derrocada do LTCM em 1998. O fundo apresentou retornos incríveis por três anos seguidos, até que tudo veio abaixo em poucos dias, como um castelo de cartas. Descobriu-se que o excesso de alavancagem e o risco de liquidez podem custar caro demais: a própria sobrevivência do negócio. No Brasil, o caso do GWI reforça a lição de que um desempenho bom demais pode ocultar por algum tempo um risco elevado demais também. Quando os ventos mudam de direção, a realidade fica exposta. A observação de Warren Buffett vai direto ao ponto: “Quando baixa a maré é que a gente vê quem estava nadando pelado”. 

Voltando à analogia com o corpo, todos sabem no fundo o que deve ser feito para emagrecer: fechar a boca e fazer exercício físico. Mas é mais fácil falar do que fazer. Esforço contínuo, perseverança e paciência são ingredientes necessários numa dieta saudável. E nem todos conseguem seguir essa trajetória. No caminho, os atalhos poderão ser tentadores demais, como o canto das sereias em Odisséia. E como Ulisses teria feito, amarrando-se no mastro, devemos criar mecanismos próprios de controle contra tais tentações. Elas podem ser fatais.

O mesmo costuma ocorrer quando se trata de riqueza. Como dizia novamente Warren Buffett, não importa quão grande seja o talento ou esforço, algumas coisas simplesmente demandam tempo: não é possível produzir um bebê em um mês engravidando nove mulheres. Evite as trilhas para o sucesso. Se fosse fácil chegar lá, todos já teriam chegado. E anotem em local de destaque a seguinte lição de David Starr Jordan: “Sabedoria é saber o que fazer; virtude é fazer”.  

Não tenha vergonha de admitir suas limitações, prezado leitor, pois todos nós as temos. O primeiro passo é buscar mais informação e preparo, uma verdadeira educação financeira. O segundo passo é desconfiar de ofertas muito atraentes, lembrando do que vovó dizia: quando a esmola é demais o santo desconfia. Por fim, não se sinta melindrado de buscar ajuda exterior, de preferência de profissionais com histórico e experiência e, acima de tudo, alinhamento de interesses, ou seja, que esteja de fato do mesmo lado que você.

PS: Faço um disclaimer de que me tornei sócio de uma empresa que presta esse tipo de consultoria independente, justamente por acreditar na importância desse serviço que maximiza o alinhamento de interesses entre cliente e consultor.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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