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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Por que simplicidade é qualidade em Mujica e motivo de escárnio em Bolsonaro?

Bolsonaro tem chamado a atenção do público e da mídia por conta de sua excessiva simplicidade, ou informalidade. Aquela coletiva de imprensa em sua casa usando uma prancha à guisa de mesa foi um caso claro, ou então quando fez a “live” logo após a notícia da vitória, expondo a precariedade de sua infraestrutura: uma bandeira colada na parede com fita, uma toalha velha, e o filho que bebe água direto da jarra.

Além disso, tivemos o momento em que Bolsonaro expôs a canela durante a entrevista na GloboNews, revelando que seu apelido era “Palmito”. Agora foi a vez de o presidente eleito demonstrar toda essa informalidade ao receber o consultor de Donald Trump, Bolton, em sua casa na Barra. Na mesa, bolinhos e Danoninho, como destacou em sua capa o jornal O GLOBO de hoje:

O que pensar disso tudo? Quem conhece Bolsonaro e seus filhos pessoalmente atesta que essa simplicidade é real, não fajuta. Mas claro que parte já virou figurino do personagem: Bolsonaro veio para quebrar tabus políticos, desafiar o sistema, enfrentar o establishment, e seu estilo direto, de “homem do povo”, tem tudo a ver com isso. É, enfim, uma estratégia de marketing também, que só funciona pois alicerçada na realidade: ele é um sujeito simples!

E isso incomoda muita gente. Particularmente, como um liberal-conservador que admira o legado britânico, sou mais afeito a cerimônias, e não acho que tudo seja fanfarra desnecessária. É a liturgia do cargo, e não acharia legal um presidente, no limite, receber a rainha da Inglaterra de sunga. Apelo ao reductio ad absurdum para fazer meu ponto: certas funções exigem certos modos e cerimônia. Não é questão de gosto pessoal, mas trato institucional.

Dito isso, Bolsonaro não chega a chocar, apenas adota comportamento mais informal e simples, mas mantendo a postura que o cargo lhe exigirá. Por que, então, a mídia tem tratado isso como defeito, e não qualidade? Mais importante para compreender a má vontade, fruto do preconceito ideológico: por que atitudes similares, ou bem mais extremas, do então presidente uruguaio Mujica não eram alvo do mesmo desdém?

Mujica aprecia com os pés de fora, ostentando unhas nojentas, e tudo isso era adorado pelos jornalistas, como prova de sua simplicidade, de que era um homem como qualquer outro, que não se deixava seduzir pelo poder. Morava em sua velha casa, tinha seu carro antigo, vestia roupas simples. E isso era amado pela esquerda! Mas se Bolsonaro demonstra simplicidade e informalidade, então é motivo de escárnio, é ridicularizado por oferecer Danoninho ao consultor de Trump?

Ora, aí está o duplo padrão eterno da esquerda…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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