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Rodrigo Constantino

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Saber delegar e respeitar autonomia dos outros não é ser um “presidente banana”

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira, 16, que “ficou sabendo” que quem assumirá a chefia da Polícia Federal no Rio de Janeiro será o chefe da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Silva Saraiva. A afirmação vem um dia depois de a PF divulgar que o superintendente da corporação em Pernambuco, Carlos Henrique Oliveira Sousa, é quem substituiria o chefe da PF no Rio, Ricardo Saadi. 

“O que eu fiquei sabendo… Se ele resolver mudar, vai ter que falar comigo. Quem manda sou eu… deixar bem claro”, afirmou Bolsonaro. “Eu dou liberdade para os ministros todos. Mas quem manda sou eu”, reforçou. “Está pré-acertado que seria lá o de Manaus”, afirmou, sem esclarecer a quem se referia. 

Na quinta, Bolsonaro alegou “questões de produtividade” e “um sentimento” para tirar Saadi do comando da PF no Rio. Questionado se havia partido dele mesmo a decisão, Bolsonaro afirmou apenas que “não interessa o motivo”.

“Pergunta para o (ministro da Justiça, Sergio) Moro. Já estava há três, quatro meses para sair o cara de lá. Quando vão nomear alguém, falam comigo. Eu tenho poder de veto ou vou ser um presidente banana agora, cada um faz o que bem entende e tudo bem? Não.”

Bolsonaro também afirmou que Saadi “vai produzir melhor em outro lugar” e disse que não questionou a “falta de produtividade” do delegado. “Eu falei sobre produtividade e não falta de produtividade”, disse.

A Polícia Federal afirmou, em nota divulgada na quinta, que a saída do delegado Ricardo Saadi da Superintendência do órgão no Estado do Rio de Janeiro não tem qualquer relação com desempenho. A PF informou que a mudança já vinha sendo planejada há alguns meses e o motivo principal é o desejo do superintendente atual de ir para Brasília, além de ser uma troca normal no cenário de um novo governo que assumiu. Não foi informado oficialmente que cargo ele ocuparia na capital federal. 

A definição dos superintendentes regionais é de responsabilidade apenas do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. O órgão é vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, chefiado por Sergio Moro.

Bolsonaro confunde as coisas, não se sabe se propositadamente ou por ignorância. Deixa transparecer uma visão centralista incompatível com a boa gestão e até mesmo com o republicanismo. Pensa que, por ter sido ele o eleito, por ter levado a facada, “ralado” por anos para chegar ao poder, tem uma espécie de carta branca para se imiscuir em todos os assuntos e todas as esferas do poder, como um tirano absolutista.

O fato de a mudança em questão ter se dado na Polícia Federal do Rio, onde seu filho senador é investigado por suspeita de corrupção, gera mais apreensão, assim como a forma como o presidente deu a notícia, e depois a justificou. Bolsonaro acha que seria um presidente banana se não decidisse cada indicação nos mínimos detalhes? Não faz sentido.

Entre o presidente e o superintendente exonerado há duas camadas: o diretor-geral da PF e o ministro da Justiça, Sergio Moro. Bolsonaro se sente confortável ao atropelar eles para se meter em cada escolha? Conheço um CEO que tinha que autorizar cada mínimo gasto na empresa, que nada acontecia sem seu sinal verde. Um estilo questionável, mas no caso ele era o dono da empresa. Bolsonaro não é o dono do estado.

Ele quer ser técnico, capitão, zagueiro, atacante e também líder de torcida, mobilizando a militância virtual. Mas não dá para fazer tudo, e respeitar a autonomia dos órgãos de estado é fundamental. Podemos entender a desconfiança do presidente com o establishment, o “deep state”, o “sistema”, mas nada justifica avançar sobre cada decisão ou escolha dos seus subalternos.

Só falta agora Bolsonaro desejar indicar, pessoalmente, cada um dos milhares de cargos disponíveis na estrutura federal. Os puxa-sacos de olho em cargos vão vibrar, pois acham mesmo que o “mito” tem que dominar geral a máquina e apontar apenas gente “leal”, capachos como eles mesmos. Mas não é assim que funciona. Muito menos se valorizamos o republicanismo e a meritocracia.

Os traços autoritários do presidente ficam cada vez mais evidentes. Só não enxerga quem não quer…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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