Blog / 

Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

Sem categoria

Submissão: o avanço islâmico em uma Europa decadente

O livro Submissão, de Michel Houellebecq, foi divulgado no Brasil como “o mais polêmico do ano”. De fato, mexer com o Islã, mesmo que em ficção, é mexer num vespeiro. Salman Rushdie sabe bem disso, pois foi jurado de morte após Os Versos Satânicos. O escritor francês está tendo que andar cercado de seguranças também. Mas, como bem colocou João Pereira Coutinho em sua coluna na Folha, não dá para compreender muito bem o motivo. Afinal, seu livro é uma espécie de distopia que imagina um futuro próximo (2022) em que os muçulmanos chegaram ao poder na França, mas o que se segue nem é retratado pelo autor como algo caótico.

Pelo contrário: há alguma aceitação resignada ou quase satisfeita nessa “submissão”. O narrador, um professor universitário de meia-idade especializado em Huysmans, acaba encontrando na conversão uma fuga para seu quase niilismo, que o levava a flertar com o suicídio com alguma frequência. Claro, há uma crítica velada no ar, as adesões dos professores são vistas como oportunistas, as possibilidades de se ganhar o triplo de salário e casar com até quatro mulheres, incluindo adolescentes de 15 anos, demonstram o lado podre da coisa. Mas se essa descrição irritou tanto assim os muçulmanos, então é porque não aceitam a visão de um espelho. No mais, como diz Coutinho, o que emerge nessa “distopia” não é tão assustador assim:

O desemprego cai (as mulheres, relembro, saem do mercado de trabalho para lides domésticas). As famílias, preocupadas com a correta formação espiritual das crianças, sentem-se tranquilas com a “decência” promovida pelo governo. E a sociedade descobre, apesar da Revolução de 1789, que a verdadeira liberdade só vem com a “submissão” às leis divinas, não com o laicismo militante.

O próprio narrador de Houellebecq resume tudo na mais gélida sentença do livro. Acontece quando Myriam, a namorada judia, deixa a França em busca da salvação em Israel. “Não há um Israel para mim”, conclui o professor.

E, não havendo esse Israel, que caminho resta a um homem solitário, com “o coração ressequido e endurecido pela farra” (palavras do seu herói Huysmans), que teme o envelhecimento e a morte –e já ficaria feliz com uma mulher (ou, corrigindo, duas) para os prazeres do palato e da glande? Obviamente, colaborar.

Lendo nas entrelinhas, porém, o autor sem dúvida está cutucando seus concidadãos em relação à sua passividade diante do avanço islâmico na Europa. E não apenas isso. No fundo, como resume Coutinho, seu livro “é mais uma meditação irônica e brilhante sobre o esgotamento espiritual do Ocidente”. A ausência de crenças mais sólidas, a riqueza possibilitando um modelo de estado de bem-estar social que “cuida” de todos do berço ao túmulo, o “humanismo” laico que acaba por retirar qualquer sentido mais profundo da vida, tudo isso contribui para esse vácuo que será ocupado por algum fanatismo qualquer, algo que preencha o espaço vazio com uma explicação de “tudo”, que aplaque as angústias: uma submissão plena.

Essa decadência europeia leva ao fortalecimento de correntes “opostas”, mas similares em seus objetivos: de um lado, os ultra-nacionalistas xenófobos de direita, representados por Le Pen; do outro, os muçulmanos, que no livro são liderados por um político extremamente hábil e “moderado”. O fiel da balança é a esquerda socialista, que acaba por se unir aos muçulmanos com medo da direita nacionalista e também de olho nos ministérios oferecidos. São os “colaboracionistas”, que a França conheceu bem durante o nazismo. Eis uma das mensagens mais importantes do livro: sem essa colaboração, os muçulmanos não teriam chegado ao poder. A decadência de valores abriu o flanco para o líder do Islã:

Quanto à restauração da família, da moral tradicional e, implicitamente, do patriarcado, abria-se uma avenida diante dele, que a direita não podia palmilhar, a Frente Nacional também não, sem serem qualificadas de reacionárias, e até de fascistas pelos últimos remanescentes de Maio de 68, múmias progressistas moribundas, sociologicamente exangues mas refugiadas em cidadelas midiáticas de onde continuavam capazes de lançar imprecações sobre a desgraça dos tempos e o ambiente nauseabundo que se espalhava pelo país; só ele estava ao abrigo de qualquer perigo. Paralisada por seu antirracismo constitutivo, a esquerda foi desde o início incapaz de combatê-lo, e até de mencioná-lo.

A colaboração não veio apenas da esquerda política, mas também dos acadêmicos e, principalmente, da imprensa. Os jornalistas, com medo de parecerem “racistas” (ignorando que o Islã é uma religião, não uma raça) e sob a influência do multiculturalismo politicamente correto, mostravam-se incapazes de fazer as perguntas incômodas ao candidato muçulmano. Suas contradições, seus discursos ambíguos ou antagônicos, seu passado, tudo isso permanecia oculto por trás do véu de “moderado” que a imprensa aceitava sem maiores questionamentos.

Outra mensagem crucial do livro é a importância que os revolucionários dão à educação, ao fator cultural. Em uma passagem do livro, um agente secreto do governo francês descreve ao narrador a estratégia dos muçulmanos, que sempre foi também a utilizada pelos socialistas, especialmente depois de Gramsci:

O interesse pela educação é uma velha tradição socialista, e o meio docente é o único que nunca abandonou o Partido Socialista, que continuou a apoiá-lo a beira do abismo; só que, agora, estão lidando com um interlocutor ainda mais motivado que eles, e que não cederá sob nenhum pretexto. A Fraternidade Muçulmana é um partido especial, você sabe: muitas das implicações políticas habituais os deixam mais ou menos indiferentes; e, sobretudo, não põem a economia no centro de tudo. Para eles o essencial é a demografia e a educação: a supopulação que dispõe da melhor taxa de reprodução, e consegue transmitir seus valores, triunfa: sob o ponto de vista deles, é tão simples assim, e a economia, e até a geopolítica, não passam de pura fachada para inglês ver: quem controla as crianças controla o futuro, ponto final. Então, o único ponto capital, o único ponto sobre o qual fazem questão de obter ganho de causa é a educação das crianças.

Com as taxas de natalidade decrescentes no Ocidente, as famílias trocando cada vez mais filhos por cães (como mostra a reportagem de capa da VEJA desta semana), e um foco obsessivo dos partidos tradicionais na economia, deixando de lado o aspecto bem mais relevante que é o cultural, fica difícil reagir a esta conquista de espaços por parte dos radicais, que além de tudo têm filhos aos montes. Como será o futuro, se quem controla as crianças está do outro lado?

Por fim, uma terceira mensagem que merece destaque é a conivência dos que ficam em silêncio, dos que se mostram indiferentes às mudanças radicais que ocorrem bem debaixo de seus olhos, principalmente os intelectuais:

[…] eu estava impressionado com a apatia de meus colegas. Para eles não parecia haver nenhum problema, não se sentiam nem um pouco atingidos, o que apenas confirmava o que eu pensava havia anos: os que chegam a um estatuto de professor universitário não imaginam nem de longe que uma evolução política possa ter a menor consequência em sua carreira; sentem-se absolutamente intocáveis.

Em outro trecho, o narrador ataca dois coelhos numa cajadada só, mostrando como a conivência dos jornalistas e dos intelectuais garante um ambiente livre para os radicais:

A ausência de curiosidade dos jornalistas era de fato uma bênção para os intelectuais, porque hoje tudo isso estava facilmente disponível na internet, e me parecia que exumar alguns desses artigos poderia lhe render certos aborrecimentos; mas, afinal, talvez eu estivesse enganado, tantos intelectuais no século XX tinham apoiado Stalin, Mao ou Pol Pot sem que jamais tivessem sido criticados por isso; o intelectual na França não precisava ser responsável, isso não fazia parte de sua natureza.

Diante da decadência de valores no Ocidente, portanto, e dessa cumplicidade dos jornalistas, dos intelectuais e dos partidos de esquerda, o Islã conseguiu, na ficção de Houellebecq, triunfar em plena França, no seio da Europa. Como combater esse avanço sem apelar para movimentos reacionários? Como resgatar certos valores sem destruir, junto, as conquistas liberais, muitas vezes confundidas com libertinagem? Uma pergunta inquietante para nós, liberais democratas, cientes do estado de putrefação moral nos países ocidentais hoje. Seria a Igreja Católica a única saída? O narrador tem uma resposta direta:

Na base de muitos mimos, carícias e cafunés vergonhosos nos progressistas, a Igreja católica se tornara incapaz de se opor à decadência dos costumes. De rejeitar claramente, vigorosamente, o casamento homossexual, o direito ao aborto e ao trabalho das mulheres. Era preciso se render à evidência: tendo chegado a um grau de decomposição repugnante, a Europa ocidental já não estava em condições de se salvar por si mesma – assim como não estivera a Roma antiga no século V de nossa era.

Há um quê de Joseph de Maistre nesse tipo de pensamento reacionário. Mas até que ponto ele deixa de ser verdadeiro por soar antiquado e mesmo antiliberal? Se o liberalismo acabar produzindo um ambiente de libertinagem, é possível impedir o clamor de boa parte da população, da classe média, por algum freio externo mais firme? Será que as famílias em desespero por um clima de devassidão, vendo os filhos expostos a todo tipo de estímulo imoral desde cedo, fomentado pela esquerda relativista, conseguem resistir à tentação de uma ordem imposta de cima para baixo? Será que a única reposta contra o feminismo radical é a burca?

Espero que não. Mas o livro de Houellebecq incomoda por alertar que talvez sim, talvez a Europa já tenha chegado a um ponto sem volta, deixando o caminho aberto para que o Islã preencha esse vácuo de valores. É, claro, ficção. Mas as distopias servem como alertas importantes, e as boas distopias capturam bem o Zeitgeist. Um mundo dominado pelo Islã seria um mundo bem diferente do que conhecemos, com as conquistas liberais do Ocidente. A sharia não combina com o ambiente de tolerância ao qual nos acostumamos, e dizer isso não é “racismo” ou “islamofobia”. É um fato.

E quanto mais ignorarmos esse fato, por covardia, por medo, mais ameaçadas estarão nossas conquistas liberais. Será que ainda dá tempo de evitar o pior? Será que dá para impedir o avanço islâmico na Europa, sem ter de apelar para as forças reacionárias nacionalistas e ultra-religiosas?

Rodrigo Constantino

8 recomendações para você

Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

Saiba Mais

Arquivos