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Temer até deveria sair, mas não dá para fazer coro no “Fora Temer” com essa turma!
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Fui um dos que defenderam que era melhor o presidente Temer sair quando as gravações da conversa nada republicana com Joesley Batista vieram à tona. Argumentei tanto pela ótica dos princípios como pelo pragmatismo, alegando que sua permanência iria provavelmente travar a pauta das reformas (e até agora tem sido assim).

Entendo e já entendia a preocupação daqueles que apontavam para o mau cheiro na coisa toda, com pinta de armação, com o acordo absurdo concedido ao açougueiro criminoso, ao protagonismo de Rodrigo Janot, que viu seu senso patriótico despertar apenas após o impeachment de Dilma.

Também estranhei a postura de parte da grande imprensa, obcecada em derrubar Temer por motivos que claramente não pareciam tão nobres, enquanto o verdadeiro chefe da quadrilha era esquecido. Nunca acreditei na conversa antagonista de que Lula também teria a cabeça entregue pelo parceiro, e não teve mesmo.

Dito isso, e lembrando que não temos “bandido preferido”, ao contrário dos petistas, não precisamos ser trouxas também. Bancar o idiota útil de comunista não é minha praia. Se o PSOL e o PT estão berrando uma coisa, eu berro o contrário sem medo de errar. No máximo, posso me calar. Mas berrar em coro com essa turma, que nunca deu um pio sobre os escândalos do PT, isso já é demais da conta.

E basta ver pela coluna de Ancelmo “Ivan” Gois hoje no GLOBO que tipo de gente está fazendo musiquinha pelo “Fora Temer”, para entender que a alternativa é ou gritar “Fica Temer”, ou então fechar a boca, mas jamais entoar versinhos ao lado desse pessoal:

Xô, ‘Vampirão’

No encontro de artistas, sexta, na casa de Paula Lavigne, em Ipanema, no Rio, para debater o “Fora, Temer”, Xande de Pilares e Mosquito, os bambas, fizeram uns versos de improviso. Na música, Temer é chamado de… “Vampirão”. Artistas como Lucio Mauro Filho, Janaína Diniz Guerra e Letícia Sabatella entraram na roda com uns versos.

Segue…

O verso de Lucio Mauro Filho é assim: “Vampirão foi lá pra Rússia/ Mas ninguém deu atenção/Vladimir ficou ‘Putin’/e gritou: ‘Xô, vampirão!’”.

Já Leticia Sabatella engatou: “Eu queria entender se existe uma razão/ Que sustente a hipocrisia amedrontando a nação./Se existe um argumento que impeça os cidadãos/ de dizer com toda a força: ‘Fora daí, Vampirão!’”.

Aliás…

Veja, abaixo, dois vídeos. Um com a “Xô, Vampirão” e outro com com “513, ‘Fora, Temer’ é o assunto”, em referência ao total de deputados — um incentivo para que eles aceitem a denúncia de Janot.

Se Letícia Sabatella quer uma coisa, procure sempre ficar do lado oposto. Esses artistas engajados sempre defenderam o que há de pior na história. No mínimo podemos condicionar o apoio ao coro à inclusão de Lula na lista dos que devem ser punidos, presos, afastados para sempre da política. Bancar o inocente não dá, né?

Carlos Andreazza, editor e escritor, rebateu a crítica de um leitor hoje em sua coluna, justamente sobre não aderir a esse coro do “Fora Temer”, e como ficaria, então, a questão dos princípios. Andreazza escreveu um texto brilhante, apresentando o ponto de vista liberal-conservador, e justificando porque devemos tomar muito cuidado com os jacobinos, aqueles que querem detonar “tudo” (mas sempre de forma um tanto seletiva). Eis um trecho:

Segundo compreendo o estudo do tabuleiro político, dedicar-se exclusivamente a acusar a corrupção generalizada — sem lhe entender e explicitar origens, nuances e propósitos diversos — é jogar para a galera tanto quanto enxugar gelo. Em suma: histeria e esterilidade. Ocorre que o mundo não é feito apenas de inocentes e estúpidos. Há também aqueles a quem esses são úteis.

O jacobinismo em curso, que ceifa cabeças justiceira e indistintamente, engrossa com sangue a lama do interesse daqueles cuja sobrevivência depende de chafurdar a atividade política, igualando crimes como se da mesma extensão e intensidade. Eu prefiro o mundo real. Nesse, é provável que o PMDB de Temer seja uma organização criminosa, como afirma o açougueiro da delação seletiva. Nesse, contudo, jamais o presidente e seu partido, sócios minoritários na empresa de ascensão petista, terão sido protagonistas da apoderação do Estado — como nos querem fazer crer Janot e seu cavalo Batista.

[…]

Nisso, no exercício desse plano, está o cerne da distinção — o assalto ao Estado como meio para tomar progressivamente o Estado, e alargar o Estado, rendido a serviço do partido — e o motivo pelo qual não é aceitável tratar a organização em que se estrutura o PT como pareada a qualquer outra.

O projeto de poder petista não tem precedentes na história deste país porque desdobra o autoritarismo moderno, que subjuga o capitalismo em campeões nacionais e dilapida as instituições desde dentro da República, valendo-se dos instrumentos da democracia representativa, em que não acredita, para miná-la. Ou o leitor não se lembrará de Lula jactando-se de uma eleição em que não havia concorrentes à direita? Ou de quando se comprometeu — com sucesso — em extirpar o PFL do cenário político?

Construir é difícil, leva muito tempo, gerações, enquanto destruir é muito fácil. Quem está se empolgando com o clima incendiário precisa levar em conta esse alerta conservador. Prudência!, diria Burke. Essa narrativa de que são todos iguais serve apenas aos piores. Se o PMDB é e sempre foi fisiológico e corrupto, o PT é isso e muito mais: é totalitário, golpista, comunista!

E a narrativa importa. Os que têm endossado o coro dos artistas e “intelectuais” estão colaborando involuntariamente para essa narrativa de que o problema é o “sistema”, e que Temer é ainda pior do que Lula, aquele que criou a JBS como é hoje. Estão esquecendo do DNA totalitário e revolucionário do PT, que queria e quer transformar o Brasil numa Venezuela, o que foi impedido justamente pelos bandidos pragmáticos do PMDB. E estão ignorando que essa algazarra toda também desviou o assunto das reformas necessárias, que uma vez mais eram propostas pelos bandidos do PMDB, e são rejeitadas pelos petistas.

É preciso ser minimamente pragmático e conhecer o inimigo antes de sair por aí cantando versos. Essa gente não brinca em serviço. Se Chico e Caetano querem algo, peça o contrário. Se Letícia Sabatella demanda uma coisa, defenda seu oposto. Você vai acertar 99,99% das vezes…

Rodrigo Constantino

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