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“The Crown”, da Netflix, é simplesmente imperdível, alimento para nosso cérebro
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Beleza, sofisticação e refinamento são como o Bis da propaganda: depois que você experimenta um, não consegue mais parar. Confesso ao leitor: estava em crise de abstinência após “Downton Abbey”, de Julian Fellowes. Por isso fui ver “Dr. Thorne”, em apenas quatro episódios, adaptado por ele da novela de Trollope, passado na era vitoriana. Não bastou. Fui, então, ler Belgravia, seu livro ambientado em mesmo cenário. Excelente, mas ainda não foi o suficiente.

Já estava, portanto, a babar pelos cantos, feito um adicto enlouquecido, mendigando por pedaços de beleza, por pequenas quantias de sofisticação, por um segundinho só de refinamento e inteligência. Aplacava a angústia com os filmes de super-heróis no cinema, com os 007s, os mutantes da Marvel, os espiões Bourne da CIA, tudo num estímulo frenético de cenas impressionantes possíveis por produções milionárias.

Era bom enquanto durava, admito. Naquelas duas horas eu era transportado a um mundo paralelo, sob uma chuva tão grande de imagens inacreditáveis que a realidade era esquecida. Mas o cérebro, em seu estágio mais elevado, ficava de fora. Não era alimentado devidamente. E pouco tempo depois lá vinha ela, a maldita crise de abstinência. “Preciso de beleza!”, gritava tal qual um lunático. “Me dê refinamento!”, bradava aos olhares suspeitos de minha mulher, inclinada a chamar logo os homens de branco e encerrar o delírio.

Até descobrir “The Crown”, da Netflix. Que alívio! A sensação de vício atendido foi imediata, como um corpo em delirium tremens que entra em contato com a primeira gota de álcool. Pulando de um capítulo ao outro dos dez da primeira temporada, como quem tenta degustar cada pedacinho do Bis restante, acompanhei a história da jovem rainha Elizabeth, elevada à Coroa após a morte do pai, que por sua vez fora catapultado ao cargo pela renúncia do irmão, que escolheu o amor de uma mulher em vez do reino.

Que diálogos! Que delicadeza nas cenas! Que fascinante a atuação de John Lithgow como Sir Winston Churchill, talvez a personagem mais marcante de todo o século XX. Peter Morgan nos legou um marco da televisão, que atualmente só a televisão tem sido capaz, com uma mensagem de viés conservador tão em falta no mundo moderno. O embate entre o antigo e o novo está lá; a tensão constante entre o “progresso” moral e a necessidade de se conservar tradições está lá; o dilema entre a dignidade e a eficiência, como colocava Bagehot acerca do papel da monarquia e aquele do governo executivo, também está lá. Nem tudo é “produtividade”.

Os pobres de espírito poderão argumentar que a história não é condizente com os fatos, que de perto a família real do Reino Unido não é tão fascinante assim. Pobrezinhos. Não entenderam que a imaginação moral é mais importante ainda do que o puro relato factual, que os símbolos devem ser preservados, que um dos principais papéis da arte é justamente o de superar a vida. Ninguém precisa acreditar nos pormenores relatados na série para capturar sua essência, o que representa a monarquia britânica, as tradições que ela sustenta, a importância dos mitos como cola do tecido social.

Se tamanha complexidade puder ser resumida em uma expressão, eis o que, arrisco dizer, essa fantástica série transmite: o fardo das elites. Sim, os idiotas podem, de longe, enxergar apenas as maravilhas das quais desfrutam os reis e rainhas, os aristocratas, os ricos e poderosos, os líderes em geral. Mas, por trás de toda a fantasia e aparências, jaz a responsabilidade de decidir, de fazer escolhas difíceis, de enormes sacrifícios pessoais em nome de algo maior.

Churchill, num ato de profundo simbolismo conservador, renuncia ao cargo poderoso quando se dá conta de que não é mais necessário, e ainda pede para o motorista parar o carro para que possa ir cumprimentar seu substituto, que chegava para ser recebido pela rainha. Aquele aperto de mão significa o respeito pelo que é perene e está acima do efêmero, do temporário, das vaidades pessoais, das disputas de ego e poder.

A rainha Elizabeth, por sua vez, precisa optar entre agradar sua irmã mais nova, que pretende casar com um homem divorciado, ou preservar a ordem e respeitar a Igreja da qual é chefe. Os românticos podem ficar chocados com um dilema tão ultrapassado, mas é porque acreditam que só o coração pode ditar regras, que todos devemos dar vazão aos nossos apetites como se nada mais importasse. As elites não podem se dar a esse “luxo burguês”, pois há mais em jogo do que alcançam nossos sentimentos imediatistas.

Enfim, é nossa alma, nosso espírito que acaba sendo alimentado por esse tipo de arte mais refinada. Nosso intelecto precisa de combustível desse tipo, caso contrário o cérebro definha, alienado, pronto apenas para reagir aos frenéticos e passageiros estímulos. Mal posso esperar pela segunda temporada. Já estou cá novamente a babar, a procurar programas semelhantes, a folhear meus livros, com mãos trêmulas, ou apertar os canais em busca de algo do mesmo nível. Sou um viciado, confesso. Preciso de beleza!

Rodrigo Constantino

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