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Vários membros do alto escalão do Comitê Olímpico Internacional (COI) dizem que as dificuldades que o Rio de Janeiro enfrentou para se preparar para receber os Jogos provavelmente levarão a organização a evitar no futuro que o maior evento esportivo do mundo seja realizado em cidades com qualquer sinal de instabilidade.

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Os comentários, entre os mais fortes já feitos por autoridades do COI sobre suas frustrações com os preparativos do Rio, mostram que a organização está voltando atrás em sua meta de realizar os Jogos Olímpicos em um grupo mais amplo de cidades.

O Rio, a primeira cidade da América Latina a sediar o evento, supostamente marcaria o início de uma nova era, mais aventureira para o COI. Em vez disso, ele se tornou um alerta sobre como as condições podem ser voláteis em países em desenvolvimento. As ambições da África e da Índia de sediarem os Jogos parecem ter sido engavetadas indefinitivamente, de acordo com membros do COI e de pessoas que trabalham de perto com a organização.

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“O Rio tem sido o maior desafio que já enfrentamos”, diz o norueguês Gerhard Heiberg, membro de longa data do COI, que liderou os Jogos de Inverno de 1994, em Lillehammer. “Talvez passemos mais tempo pensando sobre ir ao último continente. Precisamos de alguma garantia de que vai ser um sucesso.”

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Sidney Levy, presidente-executivo do comitê organizador do Rio, diz que toda cidade organizadora dos Jogos tem suas falhas, mas que o Brasil estará pronto. “Temos pessoas incríveis, divertidas”, diz. Isso “compensará tudo”.

Entendo os representantes do Comitê Olímpico. Não deve ser nada fácil tentar organizar um evento desse porte numa cidade como o Rio de Janeiro. Os desafios aumentam exponencialmente. Não é muito diferente de tentar fazer qualquer coisa direito no Rio ou no Brasil. A burocracia é asfixiante, a insegurança é sempre uma questão séria, o improviso cultural deixa tudo para a última hora, a qualidade da mão de obra é questionável, as soluções “malandras” não costumam ser aceitas por quem está acostumado a fazer as coisas de maneira correta, a logística é caótica etc.

Sim, é verdade que fica um legado depois, apesar de não estar claro o custo de oportunidade deste legado: não basta apontar para as melhorias na cidade, pois é preciso levar em conta as alternativas desses gastos públicos. Mas é inegável que o Rio melhorou em algumas áreas, como no transporte, no aeroporto. Na segurança sabemos que não, pois tudo se resume a colocar militares nas ruas durante os jogos, apenas para a vida do povo fluminense voltar ao normal depois.

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Quando lembramos da felicidade de Lula e Eduardo Paes quando o Rio venceu na disputa para sediar os jogos, fica claro que ela não estava em sintonia com o sentimento da população. As vantagens superam as desvantagens e os custos? Não está claro. Lula não terá os créditos dos jogos e está mais preocupado em evitar sua possível prisão. Paes anda desgastado, e lamenta o mau momento que o país atravessa, ofuscando as obras na cidade e quase anulando o clima esportivo.

O presidente-executivo do comitê afirma que nosso estilo divertido “compensará tudo”. Será? Não nego esse traço cultural nosso: somos acolhedores, descolados, até “engraçadinhos”, como a “brincadeira” do próprio prefeito Eduardo Paes com os australianos demonstrou bem: quem precisa de encanadores quando se tem cangurus? Mas há, por outro lado, quem esteja um pouco cansado disso tudo, cobrando um pouco mais de eficiência e seriedade em vez de piadas e bom humor.

É meu caso, confesso. É o tema do meu novo livro Brasileiro é Otário? – O alto custo da nossa malandragem, em que disseco o fenômeno do “jeitinho brasileiro”, com especial ênfase nos cariocas. Será que devemos relaxar porque nosso estilo divertido “compensa” a falta do restante? Será que os turistas que são assaltados, que recebem atendimento aquém do esperado, que sofrem no trânsito, vão embora com boa impressão pois, ao menos, somos legais?

Está na hora de pensar um pouco maior, de valorizar não o improviso, mas a eficiência, não o estilo descolado, mas a seriedade no trato com nossos visitantes e, principalmente, o próprio povo, que paga a conta. Não dá para achar que a “felicidade” irá compensar a ineficiência para sempre, que o “clima festeiro” será suficiente para anular os riscos com a segurança, e falta de qualidade da mão de obra etc.

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O Rio pode mais! O Brasil pode mais! E esse é um dos pontos que me incomodam: enquanto acharmos que não precisamos ser mais eficientes, pois somos “descolados”, jamais seremos eficientes. E o custo disso é alto demais, acima de tudo para a própria população, que vive no caos depois que os gringos partiram, levando com eles algumas mudanças cosméticas ou temporárias. Quando os militares saírem das ruas, por exemplo, o que fica para o carioca? Se mesmo com eles os bandidos se mostram cada vez mais ousados, o que esperar sem eles?

A volta à normalidade, claro. E essa, convenhamos, não é nada “normal” para padrões internacionais. Será que deveríamos simplesmente “relaxar e gozar”, pois é assim mesmo e ponto final? Será que devemos celebrar que, ao menos, temos nosso “jogo de cintura” para “compensar” a falta das outras coisas, como a segurança, a organização eficiente, um transporte de qualidade etc?

O personagem Zé Carioca acabava se dando bem, mesmo com sua malandragem toda. Até quando vamos acreditar que os brasileiros estão “se dando bem” com esse jeitinho? O Mr. Magoo era outro que, apesar da quase cegueira, acabava se safando dos enormes perigos pela frente. O chato é que a vida real não é um desenho animado…

PS: Não vamos também sair da acomodação para o extremo oposto, o espírito de porco. Agora a coisa está feita, não dá mais para rejeitar os jogos, e resta, portanto, cobrar transparência nos gastos e avaliar o legado de forma séria, além, claro, de torcer para um bom espetáculo esportivo.

Rodrigo Constantino

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